A Falsa Representatividade no Neoliberalismo como reprodução do Capital

A representatividade abordada pelo viés capitalista não gera as mudanças estruturais que são necessárias para romper com o ciclo de exploração e violência contra as minorias.

Por Thais Carvalho


Em ‘’A ideologia Alemã’’, Marx e Engels afirmam que ‘’as ideias de uma época, são as ideias da classe dominante. Quem detém o poder material, detém também o poder espiritual’’. E é com essa premissa que vamos refletir sobre como a apropriação de identidade pelo neoliberalismo ‘’progressista’’, é apenas uma ferramenta para a implementação de um programa econômico de direita.



As eleições estão próximas, e, cada vez mais, os candidatos vestem a máscara da diversidade, do multiculturalismo e dos empoderamentos feminino, negro e LGBTQI+. Podemos utilizar de vários exemplos em âmbito nacional, como Tabata Amaral, que, ao vender sua candidatura como progressista e um verdadeiro exemplo de empoderamento feminino, mostrou por fim ser a ferramenta de mercado que sempre foi ao votar a favor da reforma da previdência, colocando mulheres em situação de ainda maior vulnerabilidade econômica. Mas infelizmente, não precisamos ir muito distante. Em nossa cidade, já são vários os casos de candidatas e candidatos que se utilizam de pautas de consideradas de esquerda e com viés progressista para se elegerem, sendo essa uma das faces mais perigosas do neoliberalismo pela crítica marxista as às opressões.

O capitalismo é um sistema de crises, e o único fator considerado, é o seu poder de compra. E foi esse poder de compra que aproximou cada vez mais o neoliberalismo de pautas progressistas e identitárias. Você não precisa ir muito longe para ser bombardeado com marcas e produtos que, aparentemente, estão lutando ferozmente por causas sociais, como a igualdade de gênero, a luta contra o racismo, e o empoderamento.


As propagandas de bancos já deixaram isso bem claro. O mesmo banco que convida uma família negra para uma propaganda de TV, e é aplaudido, é o responsável pela reprodução de um sistema que por seu próprio fim, tem como objetivo, o aumento de nível de pobreza, precariedade na saúde e educação dessa mesma população. A mesma marca de cosméticos que se utiliza da imagem de mulheres em situação de poder, fortes e empoderadas para lucrar, faz parte de um sistema que, para se manter, precisa que os outros 99% das mulheres estejam em situação de opressão, cultural e econômica. E o esvaziamento dessas pautas, se reflete em todos os âmbitos sociais.

Esse tema é delicado, porém e é necessário lembrar que a representatividade importa, mas é ainda mais importante lembrar que nenhum direito está garantido dentro de um sistema capitalista, e por isso, é preciso analisá-lo criticamente, levando em consideração que tudo faz parte de um projeto econômico maior, que, para ter sucesso, inevitavelmente em algum momento precisou levantar as bandeiras anti-opressão, mesmo que de forma rasa e vazia.

Por isso, se uma candidata se coloca nessa situação de representatividade apenas pelo fato de ser mulher, isso não significa de forma alguma que ela está alinhada contra a opressão que mulheres sofrem, muito além de ocupar espaços políticos. De que vale uma cadeira ocupada por uma mulher, que serve aos interesses do sistema responsável por toda a opressão? Essa pauta captada pelo capital é o que tira o protagonismo da luta de classes, e o esvazia para um antagonismo de identidade.


Em nossa cidade, temos um exemplo claro disso com a única candidata mulher a à prefeitura, Yula Merola (CIDADANIA). Além de reforçar constantemente a sua candidatura como uma alternativa ao sistema machista que exclui mulheres da política, segundo sua própria fala em vídeo recente: ‘’Vocês sabem que eu sou a única mulher candidata a à prefeita de Poços de Caldas, [...] então, gostaria de respeito das pessoas que ainda duvidam da minha capacidade para gerenciar uma cidade’’. O discurso gera empatia, pois nós mulheres sofremos todos os dias com questões como essa, e sentimos, sim, as dores umas das outras.

Porém, o discurso fica completamente vazio quando levamos em consideração que se já não bastasse o programa de governo de partidos como o Cidadania serem de direita, e produzir discursos como: ‘’O Estado mostrou vocação para proporcionar benefícios sociais, entretanto claudicou ao querer se transformar em agente econômico principal e às vezes único da sociedade’’. Esse trecho foi retirado do programa do Cidadania, que também cita que ‘’A tarefa número um do Estado é a criação das condições para a autoconstrução de cidadãos autônomos, capazes de trabalhar e empreender’’.

Para piorar, (ou provar que o discurso da representatividade quando performado por partidos e candidatos neoliberais não passam de estratégia de marketing), a mesma candidata que ‘’luta contra o machismo’’, tem como seu vice um candidato do PSL, partido que nem preciso explicar a problemática.

Para mim, como mulher, não é o suficiente ter uma CEO na Multinacional. Muito menos uma

mulher como prefeita, ou presidente, se ela não está disposta a lutar na raiz das opressões e

na superação do sistema que nos massacra, nos mata, tira de nós o direito sobre nossos próprios corpos e nossa própria história. De que adianta o rótulo com arco-íris, se continuamos vivendo no País que mais mata LGBT’s no mundo?


Para finalizar, uma reflexão importante levantada pelo ‘’Feminismo para os 99%: Um manifesto’’, de Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser.

‘’O Feminismo para os 99% é um feminismo anticapitalista inquieto – que não pode nunca se satisfazer com equivalência, até que tenhamos igualdade; nunca satisfeito com direitos legais, até que tenhamos justiça; e nunca satisfeito com a democracia, até que a liberdade individual seja ajustada na base da liberdade para todas as pessoas’’.


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