CARNAVAL, LUTA DE CLASSES E DIREITO À CIDADE

Por Nathalia Francisco*


É fevereiro e não tem carnaval. Contrariando, historicamente, a afirmativa de Jorge Ben Jor em “país tropical”, a pandemia do Corona Vírus e a necessidade do distanciamento social impede a população de praticar a aglomeração preferida dos brasileiros. Refletindo sobre o (não) carnaval de 2021, lembrei-me de “Comportamento Geral”, a letra de Gonzaguinha que ironiza a resignação da classe trabalhadora em relação à burguesia “você deve notar que não tem mais tutu e dizer que não está preocupado, você deve lutar pela xepa da feira e dizer que está recompensado, você deve estampar sempre um ar de alegria e dizer tudo tem melhorado, você deve rezar pelo bem do patrão e esquecer que está desempregado”. O refrão da música trouxe à tona a reflexão que me fez pensar no presente artigo, quando a letra interpela “você merece, você merece, tudo vai bem, tudo legal, cerveja, samba e amanhã seu Zé, se acabarem com teu carnaval?”.


Pois o amanhã chegou para o seu Zé e tantos brasileiros e brasileiras que viram este ano o seu carnaval acabar. Aliás, para muitos talvez, como para mim, a última aglomeração tenha sido justamente no carnaval do ano passado, quando entre as gotas de chuva, suor e cerveja, não imaginávamos que iríamos enfrentar uma pandemia que exatamente um ano depois teria matado mais de 200 mil brasileiros.


Cá estamos, sob a pior gestão que uma nação poderia ter em um momento como este, destituídos de perspectiva, sob a irresponsabilidade de um governo caquistocrático que nega a ciência, potencializando a situação de calamidade que torna ainda mais aguda as contradições do capitalismo. Mas vamos nos ater aqui ao fato de que é fevereiro e não tem carnaval, e se não podemos levar às ruas a beleza das cores de um povo ocupando os espaços que lhe pertencem, aproveitemos para refletir sobre o carnaval enquanto movimento político que reivindica fortemente os espaços públicos e evidencia o quanto sua ocupação é objeto de luta e conflito.


Hoje faremos uma reflexão sobre direito à cidade em paralelo ao carnaval brasileiro, questionando quais relações se estabelecem entre essa manifestação cultural, a cidade e as características estruturais de uma sociedade dividida em classes. Para tanto, é preciso que primeiro remontemos o percurso histórico da festa no Brasil, compreendendo a lógica dialética entre carnaval enquanto momento de liberdade e igualdade entre brasileiros e o carnaval enquanto reflexo da estrutura classista de nossas cidades.


O carnaval, típico da cultura brasileira e com suas peculiaridades regionais, tem uma longa trajetória histórica, originada através de diversas influências de outros países, na verdade é difícil para os historiadores determinar com precisão a origem do carnaval. Há quem diga que surgiu no Egito, onde celebravam-se os chamados “cultos agrários” em homenagem à Ísis (deusa da fertilidade), para festejar as boas colheitas. Alguns apontam para as semelhanças com as festas dionisíacas na Grécia, quando dançarinos usavam máscaras enfeitadas para homenagear Dionísio.


Outros ainda relacionam o carnaval às saturnálias, festas que aconteciam no Império Romano, em memória ao deus Saturno, com enormes orgias, nas quais as classes sociais eram abolidas assim como as leis. Nem todas essas festas apontadas pelos historiadores, porém, eram manifestações carnavalescas tais quais conhecemos hoje e que se dá no período anterior à quaresma. As características comuns entre as festas destacadas, eram a celebração da colheita, os exageros alimentares, o consumo de bebida, as orgias, mas principalmente o sentido de liberdade e a mistura das classes num mesmo espaço. Apesar disso, é nas terras brasileiras que a festa ganha aspectos próprios e que se torna um importante objeto para o entendimento das relações sociais e da produção do espaço urbano no Brasil.


A história do nosso carnaval começa de uma forma bem diferente daquela que conhecemos hoje. Os primeiros registros de comemorações carnavalescas no Rio de Janeiro, ocorreram em 1723 conhecidas pelo nome de “Entrudo”.


O entrudo, do latim introitu (introdução) é sinônimo de carnaval e, no Brasil, também designa uma antiga brincadeira carnavalesca, trazida pelos colonizadores portugueses no século XVI. Sua designação refere-se ao período que introduz a quaresma, data cristã que é utilizada para designar o período de quarenta dias que antecedem a Páscoa e que começa na Quarta-feira de Cinzas e termina no Domingo de Ramos. O entrudo acontecia nos três dias anteriores à quarta-feira de cinzas. Era conhecido como “dias gordos”, por ser uma festa onde havia abundância de vinho, carne e sexo, contrpondo-se à quarentena da páscoa, período de abstinência, jejum e penitência para os católicos. (GASPAR, 2009)

O entrudo se caracterizava como uma brincadeira cuja intenção era que as pessoas molhassem umas às outras, comumente adicionando farinha, ovos, e outros materiais que pudessem conferir uma sensação de melado. Os líquidos utilizados divergiam de acordo com as classes de quem os lançavam. Enquanto as famílias ricas usavam laranja e limões de cheiro, os pobres recorriam à água, à groselha e muitas vezes à urina (sim já havia “golden shower” no carnaval do Brasil Colônia).


Entretanto, o entrudo não era só a representação da maneira de como se brincava o carnaval, mas também destaca aspectos importantes sobre a segregação e hierarquização da sociedade naquela época. A diferenciação entre as classes era percebida principalmente na distinção entre o espaço privado e o espaço público. As famílias burguesas comemoravam o entrudo dentro de suas casas, ou seja, espaços privados onde a brincadeira seguia determinadas regras e portanto era mais fácil de ser controlada.


Enquanto isso as ruas, espaços públicos, recebiam toda a diversidade entre classes sociais, econômicas, grupos étnicos e por isso se tornaram palco de grandes conflitos e tensões. Estes dois espaços contribuem tanto para a compreensão da evolução da festa popular, quanto da produção do espaço urbano, sendo o ponto chave para se compreender a conexão entre o carnaval e o direito à cidade, tendo em vista que essa expressão envolve uma concepção mais ampla que simplesmente a reivindicação pelo direito à terra. Pensar sobre o direito à cidade é pensar o território urbano como uma totalidade teórica e prática, compreendendo como a cidade é produzida de maneira desigual.


Portanto não basta a terra, é preciso garantir ao povo o direito à cidadania e à vida na cidade. Logo, o direito ao carnaval materializa o direito à cidade e assim como a terra, as ruas também se tornam um lugar de disputa, principalmente quando o controle da elite é dificultado pelas festas carnavalescas, momento em que o povo vai pras ruas com alegria, tomando o espaço para si.


Por estar distante do que a elite considerava o jeito certo de festejar, o entrudo passou a ser visto como uma espécie de barbárie e a diversão do povo desqualificada pela burguesia que buscava uma festa mais “civilizada”. Foi nesse momento que começou o processo para repreender e abolir o entrudo do espaço urbano, com ameaças de prisão àqueles que praticassem as brincadeiras de carnaval. A burguesia emergente precisava de um novo modelo de festa que contrapusesse a “balbúrdia” feita pela população pobre e marginalizada e buscou em Paris, que era a principal referência da elite sobre civilização, a ideia de um novo modelo de carnaval que estivesse em consonância com seu forte desejo pelo processo civilizador.


Assim, o primeiro baile de máscaras do Rio de Janeiro aconteceu em 1840, no Teatro Itália, com a intenção de “purificar” o carnaval. Esse novo modelo de festa é relevante porque traz importantes contribuições ao nosso modelo de carnaval atual, pois introduziu elementos como a fantasia e a música na manifestação pela primeira vez. Cada vez mais os clubes da cidade passaram a aderir ao modelo parisiense ou veneziano de se comemorar o carnaval em ambientes privados, fortemente demarcados pelo caráter exclusivo e elitista, visto que a diversão era restrita aos cidadãos que tivessem dinheiro para pagar os altíssimos valores cobrados nas entradas.


Contudo, a ideia da classe dominante de extinguir do carnaval a classe trabalhadora não saiu como esperado, uma vez que negado ao povo o direito à diversão nos clubes, as festas de rua se tornavam cada vez mais populares e o entrudo cada vez mais difícil de ser controlado. Já no início do século XX, a festa de rua era considerada “fora da lei”. O período republicano intensificou a repreensão do entrudo com forte ação policial. A imprensa carioca ecoava a tendência e produzia artigos e crônicas engendrando uma campanha contra as celebrações, com o apoio de médicos, higienistas e urbanistas numa tentativa de conferir uma "aura civilizada” à cidade do Rio de Janeiro. Neste mesmo sentido, se dava o processo de “civilização e modernização” da cidade com as reformas urbanas de caráter higienista, promovidas por Pereira Passos, que pretendiam transformar a cidade carioca, então capital do país, na “Paris brasileira”.


Naquele momento as classes trabalhadoras, em sua maioria, viviam em habitações de uso coletivo como cortiços, estalagens, casas de cama e vilas. Foram essas tipologias, justamente, o principal alvo das remoções iniciadas no centro da cidade. A ação tinha o apoio de grandes nomes da engenharia da época. A declaração dos engenheiros sobre as habitações era que “(...) as construções, além de seu alto padrão de insalubridade, eram de um péssimo padrão arquitetônico, desprezando as leis mais simples da harmonia e do bom gosto” (ROCHA, 1995, p.49). Em nome do embelezamento os pobres foram varridos para longe do centro da cidade, mas para a tentativa de europeização e aburguesamento da classe dominante, não bastava estabelecer apenas novos padrões estéticos, mas também valores morais e culturais.


Era indispensável portanto, eliminar “os hábitos grosseiros e vulgares, frutos da herança lusa, negra, e indígena, símbolos do atraso e do arcaísmo. [...] Urgia eliminar o velho entrudo trazido pelos colonizadores e extremamente popular, onde se bebia e se comia intemperadamente. Selvático deleite de homens que cantavam, dançavam e se divertiam com brutalidade (...)’.” (SOIHET, 1998)

Porém, a cada vez que as festas carnavalescas burguesas tornavam-se mais privadas e se fechavam mais em relação à rua, mais se percebia que as ruas eram tomadas pelo carnaval do povo. Ao compreender essa dinâmica inversamente proporcional, a classe dominante percebeu que criminalizar o carnaval dos trabalhadores era insuficiente para atender seus desejos mais profundos, eliminar a classe pobre da paisagem urbana, ou pelo menos das áreas centrais.


Quanto mais a festa popular era repreendida, mais o povo parecia resistir e reivindicar fortemente pelo direito de “ser livre” ao menos uma vez ao ano. A elite então percebeu que só havia uma maneira de expulsar das ruas aqueles e aquelas que “cantavam, dançavam e se divertiam com brutalidade”, e a solução seria disputar esses espaços, fazendo uma “reintegração de posse” e retomando para si os espaços públicos. Por essa razão, fez-se necessário criar não só um novo modelo para o carnaval da alta sociedade, como também criar um novo discurso, foi assim que surgiram as primeiras sociedades carnavalescas, que se tornaram um marco para a evolução do festejo, trazendo a apresentação nas ruas em forma de desfiles, importando o modelo dos passeios que aconteciam nos boulevards parisienses.

Neste ponto farei um salto cronológico para os dias atuais, não porque não haja inúmeras questões relevantes que devam ser mencionadas, mas por uma questão prática: para que a leitura não se torne cansativa. Até porque eu sei que muitos preferiam estar misturando “carnaval” e “cidade” em outro contexto, espremido entre a multidão, comprando “3 latão por 10”, seguindo o trio elétrico em uníssono axé “a cor dessa cidade sou eu! o canto dessa cidade é meu! o gueto, a rua, a fé, eu vou andando a pé, pela cidade bonita, o toque do afoxé, e a força de onde vem, ninguém explica, ela é bonita!”. Mas o que a gente sabe é que este ano não tem trio elétrico, nem multidões aglomeradas, nem samba, nem axé, porque é fevereiro mas não tem carnaval e por isso irei me adiantar em concluir a análise da forma mais breve o possível.


Ainda que seja necessário passar por séculos da história brasileira para compreender a trajetória e a evolução do carnaval, há elementos chave que sintetizam esse longo caminho e demonstram como até hoje a estrutura social se mantém. Como a diferenciação entre classes determinadas por espaços públicos e privados, ou pelo camarote e a pipoca, pela cor do abadá, pelo preço que se paga para assistir aos desfiles das escolas no sambódromo.


A tentativa de criminalizar a cultura popular, tal foi a repreensão do entrudo, depois do samba, hoje do funk carioca nos bailes de favela e do brega funk das comunidades de Recife. O excesso de policiamento nas festas de rua, com tantos olhos, braços e mãos armadas para vigiar e punir. Apesar de tudo isso, porém, há quem encontre a sensação da liberdade de subverter a ordem urbana, marcada pela reificação da vida cotidiana da cidade, quando das ruas saem os carros e entram as pessoas, gente que canta, que dança, que bebe, que beija e que ama.


Quando o transporte público é tomado pelo confete e a serpentina. Quando as pessoas deixam em casa as roupas do dia a dia para se fantasiar. Tudo isso me lembra, pra citar a última música e encerrar o texto, a canção “Vai Passar” de Chico Buarque, ilustrando a lógica dialética entre carnaval enquanto “evolução da liberdade” e o carnaval que não esconde as contradições da estrutura classista e a segregação socioespacial na cidade. Mas é preciso lembrar, camaradas, que apesar do ilusório respiro que o carnaval pode trazer à dureza da vida, a sociedade de classes é completamente contrária à liberdade humana. Por isso não podemos nos esquecer que carnaval é luta de classes e carnaval é direito à cidade!


Vai passar nessa avenida um samba popular Cada paralelepípedo da velha cidade Essa noite vai se arrepiar Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais Que aqui sangraram pelos nossos pés Que aqui sambaram nossos ancestrais Num tempo, página infeliz da nossa história Passagem desbotada na memória Das nossas novas gerações Dormia a nossa pátria mãe tão distraída Sem perceber que era subtraída Em tenebrosas transações Seus filhos erravam cegos pelo continente Levavam pedras feito penitentes Erguendo estranhas catedrais E um dia, afinal Tinham direito a uma alegria fugaz Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval O carnaval, o carnaval Palmas pra ala dos barões famintos O bloco dos napoleões retintos E os pigmeus do bulevar Meu Deus, vem olhar Vem ver de perto uma cidade a cantar A evolução da liberdade até o dia clarear

REFERÊNCIAS: GASPAR, Lúcia. Entrudo. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <https://www.fundaj.gov.br> . Acesso em 07/02/2021


ROCHA, Oswaldo Porto. A Era das Demolições. 2.ed. Rio de Janeiro: Coleção Biblioteca Carioca, 1995


SOIHET, Rachel. A subversão pelo riso: estudos sobre o carnaval carioca da Belle Époque ao tempo de Vargas. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getulio Vargas, 1998.




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