A CONTRADIÇÃO FUNDAMENTAL DA MERCADORIA CAFÉ ESPECIAL E SEUS IMPACTOS PARA A AGRICULTURA FAMILIAR

Atualizado: Out 21

* Por Eduardo Borges.




A mais ou menos vinte anos, vem ocorrendo uma inserção cada vez maior do mercado de cafés especiais na região do Sul de Minas, causando uma profunda desestruturação das antigas formas de produção, distribuição, de troca e consumo para formas mais contemporâneas de acumulação de capital. Tal sistema de produção de café, por estar mais encharcado de determinações relativos ao sistema capitalista de produção contemporâneo, tende a deixar mais visíveis a desigualdade de propriedade entre os produtores e naturalmente, clarificando cada vez mais suas posições de classe.


Iremos fazer aqui uma análise sintética de um dos aspectos fundamentais da estrutura desse novo sistema de produção de café e assim revelar seus impactos negativos para a maioria dos produtores de tipo familiar, que são os que mais sofrem, pois, como todos sabemos, são eles que, não possuindo inicialmente um capital suficiente, tende cada vez mais a ficar fora da competição capitalista. Esse novo mercado tende a expor com mais evidência as diferenças de posse de terra historicamente construída, pedra angular de toda desigualdade existente, e do processo agora engendrado de produção de mais desigualdade.


Focalizaremos nossa analise nessa estrutura mercante e seus impactos, no que diz respeito,a ameaça da perda da posse da terra pelo pequeno produtor de tipo familiar, pelo fato destes, não conseguirem reproduzir as bases para a produção futura devido a uma desigualdade primária, e também por uma alavancada da tendência ao monopólio.


A análise aqui exposta, é resultado de uma investigação feita em campo no ano de 2018 na comunidade de Ferreiras no município de São Gonçalo do Sapucaí, Minas Gerais, comunidade esta que vem se inserindo no mercado de cafés especiais desde 2006-2007, e que se tornou dez anos depois, referência de produção de cafés especiais para outros municípios da região, pelo menos para determinada classe social. Cabe aqui expressar a voz e o conhecimento da classe desfavorecida, e assim levantar tal experiência para ser referência para estes.


O mercado de cafés especiais diferente do tradicional manejo do café, possui qualidades que, em sua estrutura, diz respeito inteiramente as formas de acumulação do capital em escala global. Dessa forma, existe leis que regem o seu funcionamento na qual, nenhum indivíduo isolado em sua produção rotineira pode se abstrair: ‘’Quando a produção agrícola tem uma referência planetária, ela recebe influência daquelas mesmas leis que regem os outros aspectos da produção econômica’’(SANTOS, 2002, p. 88), a saber, do setor industrial.


O interessante nesse caso, é a peculiaridade da produção do café em montanha, que, por não possuir largas geografias planas para uma produção serializada/industrial como a soja e o milho, embarca numa nova modalidade de mercadoria que, em seu em-si possui certas características diferentes destas. Para entender essa alavancada da tendência ao monopólio, devemos primeiramente entender a peculiaridade da produção de mercadorias ‘’especiais’’.



A análise crítica da economia política do capitalismo exposta por Karl Marx (1818-1883) no seu livro ‘’O capital: crítica da economia política, volume 1’’ publicado em 1867 é relevante para o entendimento da peculiaridade da mercadoria especial, por ser esta última, formas contemporâneas de acumulação próprias do capitalismo tardio. De acordo com Harvey: ‘’A acumulação é o motor cuja potência aumenta no modo de produção capitalista’’ (HARVEY, 2005, p. 41), mas que, no entanto, não é um processo harmonioso, isso devido a ‘’a natureza espontânea e caótica da produção de mercadorias sob o capitalismo competitivo.’’ (Ib.42).


Destarte, como o próprio Marx denomina: ‘’ o crescimento econômico é (...) um processo de

contradições internas, que, frequentemente, irrompe sob a forma de crises.’’ (Ib.42) A ‘’acumulação pela acumulação, produção pela produção’’(MARX, 1967, vol. 1: 595 apud HARVEY, 2005, p. 42) missão histórica da burguesia como afirmado por Marx pressupõe certas conjunturas para que se possa ‘’reproduzir as relações de produção e reprodução do capital’’ (ALTHUSSER, 1980, p. 10), caso contrário o capitalismo entra em processo de crise, dentre elas, e para nós, a mais relevante para a análise da peculiaridade da forma ‘’distinta’’ da mercadoria, a pressuposição da:


Existência de mercado para absorver as quantidades crescentes de mercadorias produzidas. Se não puderem ser encontradas necessidades para os bens, ou se não existir demanda efetiva (a necessidade retraída pela incapacidade de pagamento), então desaparecendo as condições para a acumulação capitalista. (HARVEY, 2005, p. 43)


Sendo satisfeitas essas demandas, então se consegue obter a renda para o capitalista individual, caso contrário, o capitalismo ou tal setor de produção entra em crise, sendo necessária uma ‘’racionalização’’ de nenhum modo ordenador para a totalidade do sistema, mas uma ordenação formal para a tentativa de superar a contradição local:


As crises possuem uma função importante: elas impõem algum tipo de ordem e racionalidade no desenvolvimento econômico do capitalismo. (...) as crises criam as condições que forçam a algum tipo de racionalização arbitrária no sistema de produção capitalista. (Ib. 45)


Veremos posteriormente essa ordenação/racionalização dito acima sobre a resolução da crise, que é fundamental para o esclarecimento desse processo de expropriação da terra pelo pequeno produtor familiar engendrado pelo mercado de cafés especiais.


Mas voltemos. Adentrando na peculiaridade da forma ‘’especial’’ dessa mercadoria, a renda obtida através da realização desse tipo mercadoria tem o nome de renda monopolista. Monopolista porque os atores sociais locais podem ‘’aumentar o seu fluxo de renda por muito tempo, em virtude do controle exclusivo sobre algum item, direta ou indiretamente, comercializável, que é em alguns aspectos, crucial, único e irreplicável. ’’ (Ib.220)





A peculiaridade desse tipo de mercadoria provém de suas contradições intrínsecas, que não existem nas outras mercadorias ‘’comuns’’. A primeira aparece logo é esclarecido o conceito de renda monopolista, a saber: ‘’a competição (...) sempre tende ao monopólio, pois a sobrevivência do mais apto, na guerra de todos contra todos, elimina as empresas mais fracas. ’’ (Ib. 222) Estando essa produção sobre o domínio de um monopólio que produzirá em massa tal mercadoria, tão logo se perderá a característica de único e irreplicável na qual se tinham, pois como é descrito a segunda contradição: ‘’quanto mais facilmente negociáveis se tornem tais itens, menos único e irreplicável eles se afiguram. ’’ (HARVEY, 2005, p. 221)


A terceira contradição é importante, no entanto, não possui uma relação determinante para a problemática da tendência ao monopólio. A terceira contradição é: ‘’o requisito a negociabilidade significa que item algum pode ser tão único e irreplicável que não possa ser calculado monetariamente.’’ (HARVEY, 2005, p. 221) isto é, seja equivalido a um quantum em dinheiro.


Sabendo dessas contradições expostas, atentemo-nos para a realidade objetiva, as objetivações realizadas através da práxis humana. Quando no começo da inserção dos produtores do distrito de Ferreiras nesse mercado de cafés especiais 1 , todos os produtores entrevistados, conseguiram através de concursos de qualidade de cafés boas pontuações e consequentemente bom valor agregado a mercadoria, isto é, boas vendas. A pontuação do café é dada por baristas especialistas que se guiam pela ‘’tabela SCAA’’ (Specialty Coffee Association of America) como dizem na comunidade. É uma quantificação reconhecida pelo mundo das diversas qualidades de cafés existentes. De acordo com a gerente de vendas da APAS (Associação dos Produtores do Alto da Serra) no ano de seu surgimento, em 2007, a pontuação exigida para a certificação de especial era de 80 pontos. Isso revelou, após esse concurso primordial que havia bons cafés na região.


A medida que o mercado de cafés especiais cresceu, cresceu junto sua produção; aumentou também a inserção de novos produtores; modificou as qualidades das práticas de consumo aumentando o padrão de necessidade; foram descobertas novas qualidades de cafés etc., isto tudo pode ser verificado quando nos deparamos com pesquisas acerca desse mercado, como por exemplo, o volume de vendas de café aumenta em média 3,48% ao ano como mostra a pesquisa realizada pela (ENCAFÉ, 2017). Outro dado, é que, enquanto o volume de café especial aumenta, o valor da saca de 60 quilos do café tradicional permanece estacionado o seu valor desde 2011 como mostra a pesquisa realizada pela Fundação Procafé 2017 e também pela CEPEA 2019.


Relativo a esse aumento do volume do café especial e o estacionamento do valor do café tradicional tipo 6 , e agora nos atentando a problemática em questão, a pontuação de 80 pontos para a certificação de ‘’especial’’ no ano de 2007 passou para 84 pontos hoje. Pode parecer pouco, mas de acordo com todos os produtores entrevistados, esse aumento significa um substancial aumento do trabalho em sentido amplo para alcançar a pontuação.


Significa uma necessidade de aumento de investimento em melhorias no processo de manejo para manter a qualidade ao grão, haja vista que, a qualidade do grão se perde devido aos vários processos pelo qual ele passa até o consumo. Inovação e tecnologia nos processos de beneficiamento. Melhoramento da infraestrutura local. Mão-de-obra especializada e mecanização. Desenvolvimento de marketing e propaganda. Educação especializada. Aumento do dispêndio de trabalho devido também a esses novos manejos necessários para manter a qualidade. O que nos importa aqui é, até que ponto os produtores de tipo familiar conseguem se manter na produção de café especial haja vista, eles não possuírem a priori capital suficiente para a reprodução de suas bases de acumulação.



Esse aumento na pontuação é aquela ‘’racionalização’’ na qual afirmamos a pouco, ou seja,

aquela ordenação para que o mercado não irrompa em forma de crise devido a contradição de seu próprio movimento a saber, ‘’quanto mais facilmente negociáveis se tornam tais itens, menos único e irreplicável eles se afiguram.’’ (HARVEY, 2005, p. 221) Esse movimento foi exposto ao longo da exposição da pesquisa completa com o termo ‘’peneiração’’ pois, é necessário para atingir essa nova pontuação que sempre irá aumentar, devido ao aumento do volume de café no mercado, um investimento constante em melhorias para manter essa qualidade.


Esse movimento foi exposto na pesquisa intitulado como ‘’Empreendedorismo como forma de gestão da produção’’, pois força o produtor a gerir sua propriedade não mais de uma forma familiar 2 , mas patronal 3 , pois que agora, a propriedade se expressa como empresa capitalista e o produtor como empreendedor devido aos novos conteúdos existentes. A ‘’peneiração’’ nada mais é que, o resultado já dito aqui, da competição capitalista exposto por Marx, pois, devido ao fato da desigualdade socioeconômica entre produtores, resultado da má distribuição de terra pedra angular de toda a desigualdade existente, aqueles que possuem capital suficiente para o investimento ininterrupto em melhorias em infraestrutura e em propaganda conseguirão alcançar constantemente e em nível, agora industrial a qualidade exigida.


Ao passo que, a grande maioria dos produtores, sendo eles de tipo familiar, a custo de um aumento significativo do dispêndio da força de trabalho e nos riscos de investimentos financeiros, conseguirão quando muito, um valor agregado maior devido a participação em concursos, pois que, mesmo nessas dificuldades, devido a um volume pequeno de produção eles conseguem atingir a qualidade em algumas sacas, sendo possível vender e/ou competir em concursos de café.

A propaganda ideológica desse mercado universaliza apenas um aspecto empírico desse

fenômeno, e por isso afirma que o café especial é a ‘’salvação para o pequeno produtor’’ pois agrega valor à sua mercadoria. O que esse discurso não revela, é que isso é às custas de um aumento substancial do dispêndio de força de trabalho da família, que inclui não só a mulher na produção direta como também os filhos. Não inclui também que o café tradicional vem perdendo valor, não podendo a cada vez mais se oferecer como uma possibilidade, pois se fizermos a conta, o valor agregado ao café especial não vale a pena frente os problemas totais. Tal propaganda não revela é claro que tal mercado diferente do antigo exige um capital simbólico oriundo de um capital material (a posse da terra), para a realização de marketing e propaganda, isto é, uma concepção de mundo capitalista, e não campesina.



Marketing e propaganda que é fundamental desse tipo de mercado. Ademais, através da análise da estrutura desse mercado, e não de suas imagens ideológicas, o movimento total que se percebe é de um aprofundamento da desigualdade entre os produtores e um deslizamento deles para dois tipos de classe social antagônicas. Além disso, haja vista não haver um fomento a industrialização nacional socializada, até para aqueles que se dão bem nesse mercado, o que se nota é um aprofundamento da dependência nacional pelos grandes monopólios estrangeiros como a Nestlé, Starbucks entre outras.

As informações obtidas nesse pequeno recorte de imensa relevância para a sociedade e principalmente para a comunidade de Ferreiras nada mais é, que a revelação de novas formas de acumulação de capital com suas peculiaridades, no caso aqui, da peculiaridade da mercadoria ‘’especial’’ e de seu funcionamento interno, mas que não revela nada de novo quando na subsunção dessas particularidades ao universal, a saber, o modo operandi do modo de produção capitalista já exposto por Marx há mais de 150 anos.




1 - Pode ser denominado café especial, aqueles que são certificados com selo de responsabilidade social e ambiental e também aqueles que conseguem pontuações de acordo com a tabela de qualidade SCAA, produzida pela (The Specialty Coffee Association of America). Fonte: https://sca.coffee/


2 - ‘’O modelo familiar teria como característica a relação intima entre trabalho e gestão, a direção do processo produtivo conduzido pelos proprietários, a ênfase na diversificação produtiva e da durabilidade dos recursos e na qualidade de vida, a utilização do trabalho assalariado em caráter complementar e a tomada de decisões imediatas, ligadas ao alto grau de imprevisibilidade do processo produtivo (OLALDE, 2004, p.6 apud FAO/INCRA, 1994)


3 - Completa separação entre gestão e trabalho. Organização centralizada. Ênfase em práticas agrícolas padronizáveis. Trabalho assalariado predominante. Tecnologias dirigidas à eliminação das decisões ‘’de terreno’’ e ‘’de momento’’. Tecnologias voltadas principalmente à redução das necessidades de mão de obra. Pesada dependência de insumos comprados. (OLALDE, 2004, p.6 apud FAO/INCRA, 1996)


* fotos por André Simões - Fazendas de café e torrefação na região de Campestre - MG



  • Branca Ícone Instagram
  • Ícone do Twitter Branco

Receba nossas atualizações

© 2020 Opção Popular