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Editorial: Brasil e as perspectivas para o ano de 2020

Atualizado: Jan 30




"A fratura do bloco Bolsonarista"

Em meio à crise política que se abate sobre o país, não podemos nos furtar a fazer um debate sobre a cisão do núcleo central do governo bolsonarista. O presente Editorial

pretende lançar alguns breves questionamentos sobre os acontecimentos recentes e desdobramentos da atual conjuntura, bem como as possibilidades de avançar na luta da classe trabalhadora.

Os episódios mais recentes do jogo político travado em Brasília, incluindo as disputas travadas no campo judiciário (alguém acredita que o poder judiciário não é político?), apontam para um esfacelamento do frágil alicerce sobre o qual se construiu o governo de destruição nacional capitaneado por Bolsonaro.

As frações que já vinham realizando uma disputa interna velada pelos rumos do governo desde a sua inauguração, hoje o fazem abertamente na imprensa e na internet, expondo as vísceras podres do governo para quem desejar.


A cisão do PSL em duas frações antagônicas é apenas um dos reflexos do colapso político em que se insere o governo e o país, assim como o recente derretimento do lavajatismo, a fratura entre o bloco dos oportunistas que constituíram o governo e as negociações para um rearranjo do sistema político. A crise da representação política, que já vem sendo explorada pela fração bolsonarista há tempos, é o elemento central que nos insere na atual conjuntura.


A derrocada do programa econômico mesmo após a aprovação de reformas ultrajantes para a classe trabalhadora, que na prática decretam o fim da aposentadoria e dos direitos trabalhistas, insere o elemento da insatisfação das classes populares com o governo, que em apenas 10 meses bateu recordes históricos de desaprovação.


Nesse cenário político, a fração bolsonarista tenta de todas as formas manter a sua base mais fiel mobilizada, e aquecida com falácias e ações como as apresentadas pelos ministros da Educação, Meio Ambiente e Economia: desmonte da educação pública, restrição de financiamento à cultura e censura prévia de conteúdo, permissividade com o desmatamento ilegal, despejo de populações indígenas e quilombolas, e finalmente destruição dos diretos da classe trabalhadora. Tudo isso aponta para uma só direção: o governo Bolsonaro governa apenas para sua base mais radicalizada, aproximadamente 30% do eleitorado de acordo com a última eleição.


“Esperando Godot”


Nesse complexo enredo, não podemos deixar de mencionar o caso Lula, que vem ganhando cada vez mais destaque para uma parcela considerável da esquerda, que associa toda a falência do sistema, desde o Golpe parlamentar de 2016 até a ascensão bolsonarista, à perseguição que Lula vem sofrendo. Infelizmente não tenho elementos para acreditar que exista possibilidade de anulação das condenações injustas que o mantém refém da justiça, apesar da liberdade momentânea dada ao Lula, uma vez que nenhum golpe se desfaz através da luta judicial, ainda mais se parte considerável do poder judiciário é integrante do golpe, e a outra parte é tutelada pelos militares desde então.


Desde 2016 o governo golpista de Temer iniciou uma estruturação militar em seus gabinetes, recriando velhas estruturas e nomeando generais para cargos estratégicos do governo, como o ministro chefe do gabinete de segurança institucional, general Sérgio Etchegoyen, e o assessor do presidente do STF, estranhamente escolhido por Toffoli, Fernando Azevedo e Silva outro general. O governo bolsonarista é não somente uma continuidade, mas um aprofundamento do “modelo de gestão” implantado por Temer.


Diante da captura do judiciário, da política econômica do governo estar em colapso, da crescente insatisfação popular, seriamos ingénuos acreditar que libertariam a única liderança capaz de aglutinar a oposição para azedar de uma vez o caldo do bolsonarismo.


Ao contrário, o que se mostra é um plano para desarticular ainda mais a oposição, embriagando-a com a possibilidade liberdade plena de Lula mês após mês, e que sempre é adiada para próxima oportunidade.


Outra questão que se coloca é que nesse momento de lutas populares no chile, no equador e na América Latina como um todo, qual o papel da liberdade provisória de lula? Podemos pensar em seu primeiro discurso após sua soltura, onde ele disse em suas próprias palavras: “tem gente que acha que devemos fazer o fora Bolsonaro”, mas não, devemos respeitar um mandato que foi democraticamente eleito e derrotá-lo em 2022, nas urnas. (democraticamente? o que é isso companheiro??)


Lula discursou por cerca de 45 minutos em cima de trio elétrico no Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista (foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas/Divulgação)

Vemos dia após dia um Lula cada vez mais acanhado, refém das ameaças de prisão a seus filhos e parentes. Desse modo, esse jogo mantém em estado de espera outros quase 30% do eleitorado, colocando neles um cabresto da institucionalidade, e do processo judicial e eleitoral. O único líder da popular da oposição, capaz de aglutinar em torno de si as forças dos movimentos sociais e políticos está de joelhos. E temo não ser mais capaz de levantar-se


“Mas por via das dúvidas, eu vou me antecipar”



Voltando à crise do governo bolsonarista, podemos observar que um dos principais sintomas da falência do governo, é a antecipação do debate eleitoral de 2022, puxado pelo próprio Bolsonaro numa medida de capturar o debate público e desviar o foco das incongruências do seu governo, e nisso acaba por arrastar todos os possíveis candidatos para o debate eleitoral infrutífero, pois debater 2022 é deixar de combater o 2020,2021...

A capacidade de articulação política do clã Bolsonaro é um caso à parte, foi capaz de promover rupturas dentro dos seus principais blocos de apoio, como na fração militar, por ocasião da disputa contra olavistas, como nos partidos de direita da base como Democratas, quando tencionou o comando da câmara dos deputados com Rodrigo Maia, e finalmente dentro de seu próprio partido, onde promoveu uma ruptura na disputa pelo comando do fundo eleitoral para 2020.


Efetivamente, o clã Bolsonaro optou pelo canal direto através das redes sociais e desprestigiando a imprensa tradicional, exceto as emissoras amigas e defensoras do governo, Record e SBT. Essa condução política da comunicação gera um efeito de aquecimento da base social bolsonarista, e ao mesmo tempo é capaz de dominar o debate público da esquerda, uma vez que vários órgãos de comunicação ditos progressistas repercutem exaustivamente as declarações, fogos de artifício e cortinas de fumaça atirados quase que diariamente pelo presidente e seus partidários.

Esse canal direto começa a ser estimulado para substituir as relações políticas no congresso nacional, (além de ser uma forma de propaganda direta do governo) e usar a pressão dessa base mobilizada como mola propulsora da articulação política. A constante criação de inimigos do governo, a construção personalista da imagem do Bolsonaro como líder –

capitão e refém do congresso, mas em vias de se “rebelar” e tomar o destino do país.

Com a estratégia de trazer o debate de 2022 para já, aliado ao desmanche da base de sustentação do governo, (sustentação ideológica, pois nas votações de grande interesse da burguesia os deputados e senadores se mantém coesos) a tática de manter a base de 30 % do eleitorado aquecida e o poder judiciário tutelado pelos militares, temos colocados fatores de uma equação perigosa: em toda a história, temos exemplos de que essa é uma fórmula utilizada para alavancar ditadores. Quantos camisas pretas marcharam sobre Roma em 1922?


“A lua me traiu, acreditei que era pra valer”



O momento do Fora Bolsonaro, Fora Mourão está maduro, (afinal haverá Brasil para lutar nas urnas em 2022 ? )mas não podemos ter a ilusão que isso é o suficiente para que haja uma mudança na política nacional. Exemplos como o México e Argentina no distante ano 2001/2002, Grécia em 2010 e Equador mais recentemente em 2019, apontam lições importantes para o Brasil.

Em 2001 o exército zapatista de libertação nacional iniciou uma marcha partindo da província de Chiapas rumo a Cidade do México (cerca de 3000 km), desarmado, denominada “marcha pela dignidade indígena”. Logicamente, não cabe em tão poucas palavras descrever o movimento zapatista, porém podemos traçar um paralelo aos movimentos recentes. Ao longo do caminho, a marcha ganhou apoio popular devido a situação do México sob o governo de Vicente FOX (magnata das telecomunicações).


Chegou a Cidade do México saudado por milhares de pessoas, em suas janelas e tetos das casas, com um contingente de aproximadamente 150 mil pessoas, entre os que iniciaram a marcha em Chiapas, novos adeptos conseguidos pelo trajeto e os habitantes locais.

Não subestimando o EZLN e seu longo histórico de movimento de resistência e luta pela dignidade dos Indígenas e do povo Mexicano, sua valorosa contribuição para a luta anticapitalista, o desfecho da gloriosa marcha não avançou além de algumas poucas conquistas pontuais como a liberdade de zapatistas presos e levantamento de acampamentos militares na região de Chiapas.

Na Argentina, o sistema financeiro nacional em crise e a política neoliberal extrema levada a cabo ao longo dos anos 1990 gerou uma crise institucional sem precedentes, e o povo mobilizado e radicalizado em 2001 promoveu uma ruptura na governança do capital sobre o país, chegando a derrubar 1 vice presidente, 1 ministro da economia e 4 presidentes num intervalo de apenas 10 dias, entre os dias 20 e 30 de dezembro de 2001, através da mobilização e radicalização popular. Todo o clima de convulsão social que chegou a este enorme feito não foi capaz de avançar na direção da formação de um governo realmente popular para salvar a economia e o povo argentino. A convulsão popular desaguou na eleição da coalisão Kirchner que por 12 anos governou a Argentina, e que posteriormente entregou o país novamente nas mãos do neoliberalismo representado por Mauricio Macri.

Alguns anos depois do processo Argentino tivemos algo semelhante na Grécia, onde a crise do capitalismo se abateu com uma força absurda em 2008, levando o país à falência e a total retirada de direitos dos trabalhadores, após a duríssima intervenção da Troika (Comissão Europeia, FMI e BCE) em 2010 e 2011. A conta pela especulação financeira foi paga com o suor e direitos dos trabalhadores, aumentando o clima de convulsão social e protestos massivos conta os diversos pacotes de austeridade. Tal movimento contestador mais uma vez levou em conta a saída pela via institucional, e em janeiro de 2015 elegeu Alexis Tsipras, do Syriza partido do campo socialista democrático para governar a Grécia.


Em apenas 8 meses, o Syriza fez o seguinte: Apoiou a subjugação da Grécia à Troika, quanto as exigências de privatizações concordando em vender todo o património nacional, incluindo sua infraestrutura, ilhas, minas, praias, museus, portos, transportes, etc. Decretou duríssima redução de pensões, salários e salários mínimos da história, enquanto aumentava drasticamente o custo de cuidados de saúde, hospitalização e remédios. Aumentou o IVA (imposto sobre o consumo) e impostos sobre importações e sobre o rendimento agrícola. E por fim, mas não menos didático, convocou um referendo sobre as duras condições da União Europeia, recebendo um mandato maciço para rejeitar o plano da UE e então, trai os eleitores gregos em menos de uma semana, aceitando condições mais severas do que as exigências originais da União Europeia.

Finalmente, após as traições do campo da esquerda democrática, ocorreu uma reabilitação da direita no país, através da “Nova Democracia” que retornou ao poder central em 2019 com a maioria das cadeiras do parlamento. (algo bem familiar, não?)


Já seria o bastante contar com esses exemplos, mas não podemos deixar o mais recente caso de convulsão social, e talvez o mais eloquente dos últimos anos, que após mais um caso de traição do governo às causas populares, levou os povos indígenas, estudantes, sindicatos e grupos de esquerda às ruas de Quito por dias a fio, mesmo sob forte repressão policial e posteriormente sob repressão também do exército.

Diversos grupos aderiram às manifestações. A insurgência popular fez com que o presidente decretasse estado de exceção por dois meses / Foto: Rodrigo Buendia/AFP

A crise chegou a tal ponto que Lenín Moreno anunciou a troca do governo da capital Quito para a litorânea Guayaquil, chegando os movimentos populares nessa altura dos fatos, contar com o apoio de frações do exército e da polícia que inicialmente estavam atuando na repressão.

Sem saída, o Governo Central se viu obrigado a revogar o decreto da austeridade, e anunciar que outro será elaborado em substituição, levando em conta as questões apontadas pelo movimento insurgente. Foi realizado um acordo para a revogação, que previa o fim dos protestos, e assim foi feito. Depois de estar às portas do céu, o movimento popular recuou e retirou das ruas as massas sublevadas em troca da revogação do decreto, mas não da política de austeridade.


Ato contínuo, após a retomada da vida normal, o governo de Lenín Moreno atua para desarticular totalmente os movimentos que levaram multidões às ruas, promovendo perseguições, prisões de lideranças locais, fechamento de páginas de internet, e mantendo o toque de recolher na cidade (agora novamente capital) de Quito.

Neste momento, outro levante popular ocorre na América Latina, dessa vez no Chile. Novamente o povo ocupa as ruas com uma radicalidade necessária para levar adiante uma pauta de defesa dos trabalhadores. Ainda não sabemos os rumos dos movimentos no Chile, mas podemos perceber o modelo econômico imposto à América Latina como um todo (modelo agroexportador – rentista - minerador) e a falência do sistema para manutenção das atuais relações de poder sem a destruição da classe trabalhadora. Especificamente o caso chileno é uma antecipação do que ocorrerá no Brasil, pois o receituário econômico de Guedes é o mesmo aplicado por lá nos anos 80 e 90, como por exemplo o modelo de reforma previdenciária adotado pelo Brasil, que gerou uma enorme quantidade de aposentados empobrecidos e recebendo uma aposentadoria que mais se assemelha a uma renda mínima, acarretando a maior taxa de suicídios em idosos na América Latina.


“Fechamento de regime”


Voltando ao Brasil, as fraturas no bloco bolsonarista estão expostas, e nesse momento em que ele busca uma radicalização da sua base, temos um diagnóstico comprovado em vários momentos históricos, como mencionado acima do que pode acontecer: se a esquerda não for capaz de contrapor na mesma medida o nível de mobilização e radicalidade não somente no discurso, mas fundamentalmente nas ações, será atropelada pelas forças protofascistas mobilizadas, ou até mesmo pela traição das forcas ditas progressistas que optam sempre em fazer a gestão do capital em detrimento das condições de vida do povo, com a política do menos pior, que sabemos onde chega.

Um ingrediente não muito debatido nesse contexto de acirramento da conjuntura política é que atualmente tramitam no congresso alguns projetos de leis que criminalizam os movimentos sociais, movimentos grevistas e ainda autorizam o monitoramento total das comunicações pessoais pelo GSI – Gabinete de Segurança Institucional, como o PL 2418/2019 e PL 1595/2019 ambos tramitando rapidamente no congresso, preparando o terreno para um fechamento do regime.

Essa tática de armar as posições de defesa do sistema rentista internacional antes da ocorrência da convulsão social será vitoriosa caso a esquerda não consiga a mobilização necessária para colocar o povo na rua e questionar o fracasso da política econômica bolsonarista e aproveitar o momento em que o bloco do governo dispende mais energia tratando de suas disputas internas.



“Nas grandes cidades do pequeno dia-a-dia”



É dessa maneira que devemos atuar na atual conjuntura, nas grandes aglomerações da população, no nosso cotidiano. No transporte público, nas estações, nas escolas, nas universidades, nas fábricas. Onde se encontra o trabalhador é onde devemos realizar nosso trabalho de base, de debate, de contestação.

O ano de 2019 nos reservou em seu primeiro semestre um alento para as forças da esquerda, um suspiro que deve ser utilizado como inspiração e como forma de entender e de trabalhar as questões que estão colocadas para o povo.

Antes do que esperávamos, a esquerda conseguiu dar amostra da sua força no dia 15 de maio, no Brasil inteiro, que sem sombra de dúvidas é um ponto de inflexão das lutas sociais nos últimos 5 anos. Devemos ser capazes de fazer ecoar esse momento de vitória, que devemos transformar em ponto de virada do protagonismo político, após sucessivas manifestações que não surtiram o impacto esperado nos últimos anos.

Abre-se um novo período de lutas, que é a destituição do Governo Bolsonaro – Mourão, pois resta claro que o processo eleitoral foi fraudado em favor de um projeto político cujo o principal objetivo era impedir que o partido dos trabalhadores retornasse ao poder central (mesmo que para fazer a intermediação do capital internacional no governo), assim como o total fracasso da política econômica e social do governo Bolsonaro.

Nesse contexto, a atuação dos estudantes se mostra fundamental, pois são uma vanguarda dessa retomada de protagonismo político. Podemos avaliar que a aliança entre a juventude, as forças sindicais e movimentos populares pode ser o elemento chave na construção de uma saída realmente democrática, com o poder popular como forma de governo.

O engajamento dos vários campos populares, que hoje estão reticentes quanto ao governo de destruição nacional de Bolsonaro-Mourão, depende muito da aproximação dos estudantes, pois estes estão vinculados diretamente com esses setores: são filhos de motoristas, cobradores, metroviários, balconistas, trabalhadores do setor de comércio e serviços e etc. A luta sindical organizada está mobilizada, frente aos últimos ataques do governo mas hoje não tem capilaridade suficiente para chegar aos corações e mentes dos trabalhadores que não estão organizados, e são fundamentais para o sucesso da construção de uma greve geral e dos momentos que a ela se seguirão, sendo necessário um elemento aglutinador que são exatamente os estudantes.

A vinculação das organizações estudantis com os sindicatos e movimentos sociais é extremamente importante para esse processo de politização e de engajamento orgânico da luta de massas. Precisamos romper as barreiras impostas pela mídia e pela divulgação de conteúdos direitistas pelas redes sociais – especialmente whatsapp – para conseguirmos chegar nas classes populares e criar condições para um momento de ascensão das lutas dos trabalhadores, que é o mais importante elemento para derrotar o governo Bolsonaro-Mourão.


“O meu linguajar é nato, eu não estou falando grego”

Importante ressaltar que a estratégia de comunicação do movimento deve ser capaz de se fazer compreender de maneira clara e concisa qual é a avaliação da nossa conjuntura, e quais impactos da política econômica bolsonarista. Podemos tomar como exemplo o próprio 15 de maio, em contraposição à greve geral contra a reforma da previdência.

O sucesso da comunicação do 15 de maio se deve a clareza da comunicação em relação aos cortes no orçamento e da facilidade com que a população compreende muito rapidamente os impactos dessa medida, como o fechamento de institutos federais e universidades pela falta de pagamento de contas de água, luz e etc... corte de bolsas de assistência estudantil, corte de bolsas de pesquisas... associado ainda que o tema educação é um tema caro à população.

Já na comunicação sobre a Reforma da Previdência observamos que a população não estava esclarecida o suficiente sobre os impactos da reforma na sua vida, pois a comunicação pró reforma contou com a grande mídia em todas as suas formas, e foi bem-sucedida na criação do falso consenso de que a reforma era para acabar com privilégios de uma pequena parte dos brasileiros, os servidores públicos, e acarretaria no equilíbrio das contas públicas e sustentabilidade do sistema previdenciário.

Logicamente, o cenário de crise econômica mais aprofundada a partir de julho dificulta qualquer movimento de massa dos trabalhadores, mas não podemos deixar de fazer uma autocritica sobre a nossa comunicação nesse caso. Tivemos extrema dificuldade de depurar o projeto da reforma e sintetizar uma pauta clara e concisa, de fácil entendimento, como criar uma correlação direta dos efeitos da reforma para o dia a dia dos trabalhadores, o que pode ser observado nos movimentos de 15 de maio.

Outro ponto em que devemos nos debruçar é que não podemos mais rebaixar nosso discurso, nem adotar estratégias de comunicação onde as palavras de ordem e a expressão política de nosso objetivo são atenuadas para poder agradar setores médios da sociedade. É nesse ponto que a comunicação bolsonarista tem seu maior sucesso. A direita não tem pudor em expor as suas intenções, sua política e seus objetivos, e com isso consegue manter uma base altamente mobilizada, e ainda consegue criar vínculos com setores trabalhadores precarizados e subempregados, insatisfeitos com o “sistema democrático” em que vivemos.

Durante anos o PT capitaneou um abrandamento do discurso, da tática e estratégia política para trazer para seu campo político a classe média e setores da burguesia, afastando-se dos trabalhadores. É necessário comunicar com a classe trabalhadora, mas fundamentalmente devemos criar modos em que a própria classe trabalhadora seja capaz de elaborar seu discurso, sua estratégia de comunicação e operacionalize as demandas dos trabalhadores.


“Knock-knock-knockin' on heaven's door, e entre...”

A criação de uma situação de convulsão popular é uma catarse que leva muito sangue suor e lágrimas das organizações e movimentos sociais, e não podemos permitir que esse processo se esvaia numa saída institucional sob controle da elite financeira, como novas eleições.

A crise está nas direções e não na base, o povo está vivendo sob duríssimas condições, e tem enorme potencial de radicalizar a luta, como podemos ver mais recentemente no Equador e Chile.


Porém as direções dos movimentos ou não são capazes de criar a nova concepção de organização da sociedade, ou estão interessadas em manter a estrutura atual onde seu lugar de representatividade está assegurado.

É preciso ter a coragem de propor o novo estado, não basta bater à porta do céu, temos que entrar. Nesse caldo de ebulição social e crise do capitalismo, temos dois riscos: o primeiro é tentar resolver a questão da valorização do trabalho e do povo através das vias institucionais e pela democracia burguesa, e mais uma vez naufragar caindo na conciliação de classes e no reformismo rebaixado de sempre, para em pouco tempo entregar o governo para a direita. O segundo que é ter a responsabilidade de criar uma nova forma de sociedade, e construir durante o processo novos métodos de democracia e governabilidade. Os dois riscos são riscos calculáveis, cabe à nós decidir qual desses devemos assumir.

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