Editorial: 2021, prólogo da profecia autorrealizável de Bolsonaro?


Caros leitores, 2020 chegou ao fim de maneira melancólica, com a curva pandêmica em ascensão, número de mortos diários chagando novamente ao patamar superior a 1000, e mesmo assim, tivemos variados exemplos de aglomerações beirando a histeria coletiva, ilustrados com áudios como: “é só me entubar, p...” gritados a plenos pulmões, em meio à multidão eufórica.


Isso sem contar o espetáculo bizarro numa praia no litoral de SP, onde um conjunto bem suspeito de banhistas homens, variando de 20 a 50 anos, todos com seus celulares na água, de repente se depararam com o mais inapto presidente da história do Brasil, que chegou de barco e nadou de braçadas ao encontro do conjunto de banhistas.


É meus amigos, a sorte favorece aos bem preparados... o que seria desse episódio se os banhistas não estivessem com seus celulares no meio da água (pra cima é claro, evitando acidentes aquáticos com os aparelhos) fica a lição.


Passado o 1 de janeiro, na “montanha russa de emoções” que é o congresso nacional, Rodrigo Maia, aspirante ao Planalto Central, articula um bloco de partidos e parlamentares para fazer frente ao candidato do fascista à presidência da câmara... Costuram o apoio de 11 partidos incluindo os chamados “esquerda” para apoiar o nome de Baleia Rossi. Isso mesmo caro leitor, Baleia Rossi do PMDB. Devemos fazer justiça, e informar que o PSOL ainda não fechou apoio ao bloco, mas já conta com simpatizantes como a deputada federal Sâmia Bomfim (MES).


Como um roteiro de tragédia anunciada, a esquerda institucional brasileira inicia 2021, exatamente como iniciou 2019 e 2020: ausente de um propósito maior, sem um projeto de poder e a reboque da direita neoliberal.


Como demonstramos ao longo de 2020 em nossos editorais, artigos e entrevistas, falta a esquerda a capacidade de propor uma saída real para os problemas da população, a capacidade de se diferenciar politicamente do caldo homogêneo que compõe o congresso nacional, da política distanciada da população, da concepção de promover pequenas melhorias pontuais na vida do povo brasileiro, sempre dentro dos parâmetros determinados pelo sistema capitalista... deixando mais uma vez o “locus” de ruptura solto no vento, pronta para ser capturado mais uma vez pelo fascismo.


Mas a tragédia não se resume a isso. As eleições estadunidenses ainda não tiveram seu desfecho, e até a publicação deste editorial, ainda não temos certeza do que poderá acontecer na terra de Tio Sam. A invasão ao Capitólio no Distrito de Columbia no dia 06/01/2021 por fascistas estadunidenses numa tentativa de golpe para manter Trump no poder, teve imediatamente seu eco nas terras tupiniquins. Bolsonaro, o fascista, encontrou a oportunidade para ilustrar seus planos, que vinham sendo anunciados sem ter uma imagem concreta para fazer seus seguidores acreditarem que sim, é possível.


Estamos diante de uma profecia autorrealizável de Bolsonaro: Haverá fraude nas eleições de 2022, e ele não aceitará outro cenário senão a vitória. Ao apresentar essa tese à sociedade, e de modo antecipado, tem tempo para instituir um estado de descrença absoluta no sistema de apuração. Esse fato elevará a tensão dentre seus apoiadores, e ninguém duvida que podem trilhar um caminho golpista (logicamente com o apoio das PMs e setores das forças armadas) Caso a solução por ele proposta - o voto impresso - seja efetivado, a fraude acontecerá com mais facilidade ainda, mas em seu favor... pois seus métodos de persuasão intimamente ligados ao milicianato terão terreno fértil para pressionar a população vulnerável a votar no “candidato certo”.


O mais intrigante desse cenário é o papel desempenhado pela esquerda institucionalizada em nosso país. Mais uma vez, a defesa das instituições, do congresso, a crença no sistema judiciário para barrar as pretensões golpistas, evidenciam que nessas duas últimas décadas, a única coisa que mudou estruturalmente foi a própria esquerda parlamentar que hoje, sinceramente, nem deveria ser chamada de esquerda. Além do apoio na câmara ao MDB, o apoio ao candidato a presidência do senado vai para o mesmo caminho. Ao se colocar no mesmo “saco” dos políticos mencionados, revisitamos um cenário que beneficiou o Bolsonaro em 2018: ele contra todos. Se são todos iguais, ele é diferente.


Quanto a pandemia, janeiro nos trouxe grandes notícias, com os servidores públicos do Butantã, da USP, da UFRJ, da FIOCRUZ e de vários outros órgãos e autarquias públicas voltadas para a pesquisa superando as adversidades da diminuição brutal do financiamento federal do governo Bolsonaro e anunciando vitórias no campo da vacina e também no tratamento da covid-19. Notadamente a Coronavac e a descoberta da melatonina pulmonar. Mas não se enganem, as vacinas não irão chegar para todos ao mesmo tempo, sendo necessário muitos meses para que tenhamos uma imunização em massa no país. Conviveremos com o vírus em 2021.


No campo da economia, haverá choro e ranger de dentes... a crise que se avizinha é a mais perturbadora dos últimos 28 anos, desde a hiperinflação. Por falar nisso, a Inflação que chega com força nos mais pobres tende a se consolidar no ano, por conta da desvalorização do dólar. Os alimentos básicos que a população consome, como o arroz (que conta todos os anos com importação) e feijão tendem a perder ainda mais espaço de área plantada, uma vez que está mais rentável plantar produtos como milho e soja, que são destinados à exportação pagas em dólar, causando efeito rebote no preço do óleo de soja, uma vez que a alta rentabilidade da soja para exportação eleva o valor pago pela soja para extração de óleo. O dólar alto ainda perturba o mercado de farinha de trigo, porque o país importa esse produto principalmente da Argentina e Canadá, impactando diretamente toda a cadeia dos produtos derivados, como o pão nosso de cada dia. A violência no campo já apresenta tendência de elevação desde 2016, e o número de assassinatos de ambientalistas e lutadores pela reforma agrária é crescente. Mais uma vez, não há solução para essas questões que não passem por uma mudança estrutural da sociedade.


Tudo isso somado a elevação dos combustíveis, dos serviços básicos como água e luz, o aumento das tarifas de transportes, elevação do desemprego, e o fim do auxílio emergencial, pode levar o país à beira da ruptura institucional. Nesse cenário, eu pergunto ao leitor: Qual organização de esquerda aponta uma saída para esta ruptura, que não seja remendar os farrapos do regime da constituição de 1988, e amenizar o sofrimento do trabalhador com conquistas pontuais cada vez mais limitadas pelo “menos pior” ou “melhor que se pode fazer devido à conjuntura” ?


De fato, amigos leitores, só existe saída para crises agudas e genocidas como as que estamos vivendo com soluções que estejam à altura de promover uma verdadeira revolução. Não existem mais meios de tornar o capitalismo mais humano. Se o estado de bem-estar social está com os dias contados na Europa, imagina no nosso Brasil, que nem chegou a desenvolvê-lo?


Nosso dever imediato é fazer fermentar essa ebulição social, construindo pontes com os setores organizados dos trabalhadores e trabalhadoras, movimentos sociais e estudantes. O descontentamento da população com o governo Bolsonaro está aumentando e precisamos apontar essa força para a direção do sistema político-econômico, não somente para o governo atual, pois não haverá solução com o próximo, se for constituído nas mesmas bases ideológicas.


Finalmente, 2021 tem sua história a ser escrita. Ela pode continuar com os contornos de tragédia anunciada ou ter um destino diferente. Cabe a nós tomarmos a história nas mãos e escreve-la ao sabor do nosso desejo de libertação e construção de uma nova sociedade. Ainda não temos as condições sanitárias ideais para fazer nosso trabalho livremente, mas não podemos nos furtar a realizar tudo o que estiver ao nosso alcance. Um 2021 de lutas e conquistas para todos nós.

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