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Editorial: Covid – 19, O Fiel da Balança Política

Como durante essa crise sanitária, a política está atrelada aos desdobramentos do combate à pandemia, e quais as saídas propostas pelos principais atores políticos com poder de decisão.


Em meio à crise mundial deflagrada pela pandemia do novo corona vírus, acompanhamos perplexos nos últimos dias a escalada da insanidade do presidente Bolsonaro na tentativa desesperada de protelar sua estadia no palácio do planalto, pela via econômica. Mas não é somente isso que nos chama a atenção: nos últimos dias se abriu um enorme vazio de poder na nação brasileira pela perda de autoridade crescente da figura do presidente, uma vez que governadores e prefeitos tem tomado medidas totalmente opostas das diretrizes defendidas por Bolsonaro, especialmente os governadores do estado de São Paulo e do Rio de Janeiro.


Ao mesmo tempo, movimentos dos grupos econômicos e da grande mídia apontam na direção já esperada, a socialização dos prejuízos e a proteção da privatização dos lucros.

Apelos para implementação de renda mínima, não só a manutenção mas a ampliação do bolsa família tem sido observados em setores como Grupo Globo, Band e até mesmo – observem – Armínio Fraga, que no mês passado se declarou “ de esquerda”.


“A mão forte do estado deve sustentar o financiamento da população em vulnerabilidade” ouvi essa frase na Globo News. Seria louvável essa súbita mudança no discurso e a iniciativa de pressionar o governo na direção progressista, mas não podemos nos deixar levar pelas aparências: A defesa do estado interventor tem apenas um objetivo: proteger o grande capital.

É a tônica do capitalismo sendo mostrada a luz do dia para quem quiser enxergar: privatizar os lucros e socializar os prejuízos. Ao longo de semanas vemos ganhar força na mesma medida que a diminuição do estado deve ser implementada para poder viabilizar esse financiamento da crise, com a redução do salário dos servidores públicos federais, estaduais e municipais, para livrar a União do peso da folha de pagamento. As empresas públicas devem ser vendidas para o estado gastar o dinheiro onde realmente importa, eles dizem a todo momento.


Em nenhum momento abordam a questão do lucro recordes dos bancos, do pagamento dos juros da dívida, da taxação dos lucros e dividendos (coisa que só o Brasil e a Estônia não tem no mundo todo!), ao contrário, para proteger seus lucros e dividendos, chamam o estado a arcar com a conta de 4 anos de neoliberalismo desenfreado e desmonte do estado brasileiro.


Enquanto o Governo cria dificuldades e obstáculos para disponibilizar uma ajuda emergencial de R$600,00 para o povo que está com a corda no pescoço, imediatamente liberam a quantia de 1,2 TRILHÃO para os bancos enfrentarem a crise sem maiores questionamentos...sintomático não? Querem acabar com a pobreza aniquilando os pobres.
Vivemos em tempos de crise, uma crise contínua, composta de várias crises setoriais e que se sucedem semana após semana. A crise virou uma forma de governo, que em última instancia aprisiona corações e mentes da classe trabalhadora, retraída pelo estado de pauperização aprofundada ano após ano, impedindo a mesma de refletir sobre os efeitos do sistema em suas vidas, mesmo em tempos de isolamento.

Muito se falou nas últimas semanas que a economia depende do trabalho e não do patrão, foram gerados memes e textos enfatizando a força da classe trabalhadora, da qual o sistema é altamente dependente, ato continuo, quando a classe trabalhadora começou a ver nas redes essas formulações de forma simples e direta, fazendo a transposição imediata da realidade da pandemia para sua condição de engrenagem do sistema, o presidente se apressou em promover declarações com intuito de reverter esse sentimento de classe para novamente colocar o medo da perda do emprego, da fome e miséria no coração dos trabalhadores, defendendo que o empresário terá que demitir para superar o momento de crise, e ainda adota a medida prática de autorizar a suspensão dos contratos de trabalho por 4 meses, promovendo uma queda acentuada na renda dos trabalhadores e protegendo os patrões dos custos da pandemia.


Politicamente, o governo vem perdendo importantes apoios, como estamos apontando desde janeiro 2020, e a pandemia levou Bolsonaro ao seu pior momento em dois anos. Isolado pelos desmandos e pela aposta na necropolítica para sobreviver, perde em avaliação positiva para Mandetta, ex ministro da Saúde, para Dória Governador de SP e Witzel, Governador do RJ. A avaliação de sua gestão da crise da pandemia é boa apenas para 36% da população.


Nas cordas, Bolsonaro partiu para o único caminho que sobrou... partiu para o ataque. Sempre em momentos que se encontra politicamente fragilizado, Bolsonaro busca abrigo no seio dos fanáticos seguidores, que ainda somam algo em torno de 25 a 30% do eleitorado, num movimento claramente fascista, passa a governar para seu nicho, e seus agentes financiadores.


Como apontamos em nosso último editorial, o cenário do golpe se descortinou. Há duas possibilidades concretas de golpe em curso: uma bolsonarista, e uma parlamentarista. Porém, nenhuma que comtemple as políticas necessárias para proteção dos trabalhadores nesse combate à pandemia e principalmente no pós-covid19.


No último dia 19 de abril, entrou em cena política um personagem sui generis, que em outros momentos agudos da história recente também deu as caras e como uma ave de rapina dotada de grande senso de oportunidade, se aproveitou para enriquecer e se fortalecer no submundo da politica nacional. Estamos falando de ninguém menos que Roberto Jefferson, presidente do PTB.


Tal qual no processo de Collor, onde se tornou seu fiel escudeiro até o último minuto, aproveitando-se do corpo já em putrefação do presidente naqueles momentos pré-impeachment para auferir lucros políticos nos bastidores do congresso, e depois no processo do famoso “mensalão” onde novamente “roubou” a cena (sem trocadilho) para se beneficiar de “delação”, essa figura nefasta surge novamente e se associa ao presidente Bolsonaro tal qual vez com Collor de Mello.


Realmente o Brasil é um povo sem memória. É por isso que por essas bandas, a frase de Marx em seu livro 18 Brumário de Luís Bonaparte é de tempos em tempos lembrada e comprovada: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”

Nesse sentido, tendo visto os acontecimentos de 1992, 2005 e 2016, posso inferir que a aproximação de Bolsonaro e Roberto Jefferson denota que ao primeiro, só resta tentar juntar os cacos políticos tendo como cimento o submundo do congresso, para tentar se proteger das investidas de Maia e Alcolumbre em um eventual processo de impeachment que pode estar se avizinhando, como num movimento de “dama” (porque Bolsonaro não sabe jogar xadrez).


Não apostem nas instituições, elas estão todas tuteladas pelo Exército Brasileiro. Nesse jogo travado, a única chave capaz de solucionar a questão é a própria epidemia de covid-19. A jogada final de Bolsonaro é quebrar o isolamento, protegendo a economia (na verdade, seus agentes financiadores) e atacar o congresso com Jefferson. A evolução das mortes por Covid-19 irá ditar os acontecimentos políticos nas próximas semanas, por isso é imprescindível que tenhamos informações confiáveis sobre o tema, uma vez que para onde quer que olhemos, vemos interesses em esconder os reais casos para obtenção de objetivos políticos (leia-se: Troika do Demônio : Bolsonaro – Dória – Witzel). Bolsonaro pelos motivos óbvios, e Dória e Witzel para enfatizar a eficácia e eficiência na contenção da crise do Covid-19, e alçar voos políticos mais altos...

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