Editorial: De Moby Dick a Orfeu, por uma nova classificação do espectro político brasileiro.

Atualizado: Fev 9

Precisamos rediscutir espectro político, o sistema político e o sistema econômico, sob pena de vermos enterradas todas as possibilidades de mudanças estruturais na sociedade. Por *André Simões


A eleição da câmara e do senado federal ocorrida no dia 1/02/2021 é um marco na história da esquerda brasileira, podendo ser um divisor de águas. Estamos diante do apogeu de um processo histórico de degeneração da esquerda institucional, que abandonou todas as lembranças do que um dia foi considerado luta política, mesmo para aqueles partidos que se afastaram do ideal revolucionário de mudança da sociedade, optando pela via da reforma do sistema como fim e não como meio de viabilizar a revolução.


Sejamos francos: o que esperamos da chamada centro-esquerda e da esquerda parlamentar? A partir da análise concreta da realidade concreta, a partir da prática dos partidos que compõe esses dois blocos, infelizmente resta muito pouco para trabalharmos dentro das perspectivas da luta de classes.


Composições com partidos da direita neo-liberal e direita golpista para a eleição na câmara federal é o que há de comum e superficial nessa relação. O descolamento da vida parlamentar com a vida e aflições dos trabalhadores, a preocupação com cargos da estrutura das câmaras legislativas em todos os níveis para ocupação da “militância”, o rebaixamento das pautas reformistas e até mesmo a adesão a projetos privatistas e de retirada dos direitos dos trabalhadores como as reformas trabalhista e previdenciária, são problemas agudos (já transformados em crônicos) para a classe trabalhadora brasileira.


Sinceramente, devemos tratar esses partidos como realmente se apresentam a partir da sua prática cotidiana: partidos da ordem burguesa. De fato, ainda existem raras exceções dentro dessas organizações que ainda tratam a via parlamentar como meio de viabilizar a luta dos trabalhadores e trabalhadoras, como alguns integrantes do PSOL.


Se verificarmos o grau de adesão a estes projetos mencionados, os partidos como PDT, PSB, REDE, CIDADANIA e PV não podem ser considerados de “centro-esquerda”, mas sim de centro-direita.


O que diríamos de um partido cujo todos os parlamentares votaram a favor da entrega de uma base militar em território brasileiro para controle de uma nação estrangeira? Esse partido é o PC do B e a base é de Alcântara – MA. Depois de anos de luta da esquerda contra a entrega, o dito “Partido Comunista do Brasil” colabora de modo servil para que o EUA controle essa parte do território nacional.


Passamos agora ao caso mais emblemático, o do partido que entre outras coisas, pautou 2 reformas da previdência, privatizações e concessões em todo território, repassou montanhas de recursos públicos da educação para entes privados para oferecer vagas para a população que poderiam ocupar os bancos das universidades públicas se o mesmo montante fosse investido... Diríamos que esse partido é de esquerda? Certamente não.


Sendo rigorosos, poderíamos sim classificá-los como partidos de Centro. Sendo compreensivos, centro-esquerda. Sendo displicentes, continuaríamos a chamá-los de esquerda...como não somos, propomos essa nova classificação, passando a considera-los como a nova centro-esquerda.


Neste país, onde os aparelhos ideológicos do estado estão nas mãos de uma elite extremamente subalterna aos interesses estrangeiros imperialistas e ao capital especulativo internacional, as classificações do espectro político são altamente distorcidas para atender ao seu projeto político – econômico. O objetivo da grande mídia, dos detentores do poder econômico e por último, dos liberais acadêmicos, é modular a percepção da população sobre o que é “esquerda” e limitar seu campo de atuação dentro dos marcos por eles estabelecidos.


Ao mesmo tempo, que pintam em cores vivas um “radicalismo” dos partidos de esquerda, que em nada condiz com a realidade, atenuam as políticas neoliberais com o objetivo de camuflar a direita, criando um falso centro e uma falsa centro-direita, com partidos como PMDB, PSDB, PTB, AVANTE, PODEMOS, PSD, PP, REPUBLICANOS, PL, NOVO e os demais nanicos e outros partidos de aluguel do campo da direita tradicional.


Resta ainda uma pequena fração representada como direita, mas que na verdade é a extrema direita, composta por partidos como PSL e PATRIOTAS, herdeiros do legado da ditadura cívico-militar brasileira.


A forma como essa tese foi aplicada no Brasil atingiu elevado êxito, inclusive dentro das organizações partidárias, tanto a esquerda quanto à direita. O interessante para esses que dominam o poder econômico e político, é criar falsas simetrias entre os partidos, pasteurizando e deslegitimando a política como ferramenta de luta social e cristalizar uma percepção geral dentro dos representantes dessa “esquerda” que não existem outras formas de atuação senão as adotadas pelas suas próprias organizações, dentro das correlações de forças presentes na sociedade.


Se dependesse desses representantes, petrificados pela correlação de forças, o que teria acontecido na Rússia de 1917, quando apenas 12 anos antes, todo o movimento anti-czarista foi esmagado, preso e deportado na tentativa de revolução? Ou então apenas 3 anos antes, quando a Rússia entrava na primeira guerra mundial?


Dessa forma, o processo político brasileiro não pode levar a outros resultados diferentes dos obtidos na eleição da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Devemos fortalecer as organizações combativas e sem amarras institucionais. A luta hoje, mais do que nunca, deve ser no sentido de transformar radicalmente a sociedade e o sistema econômico, no sentido - sem meias palavras – da revolução socialista. No momento em que a “realpolitik” apresenta a face mais violenta do neoliberalismo, que é o fascismo, deixar a radicalidade nas mãos destes e insistir nas formas desgastadas e falidas dessa democracia representativa pautada no pacto de 1988, não irá de forma alguma ser capaz de dar vazão aos anseios da classe trabalhadora brasileira, restando a esta o papel de puxar a carroça do desenvolvimento econômico para a burguesia, rezando aos céus para que o chicote não estale em suas costas.

*André Simões é editor do site Opção Popular


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