Editorial - Indecisos e abstenções comprovam: O debate deve ser nacional e não municipalista.

Atualizado: Nov 13

A política pasteurizada e desfocada dos reais problemas da população são o ingrediente principal da receita neoliberal de dominação total da nação brasileira.




Faltam 3 dias da eleição e as pesquisas mais recentes nas 10 maiores cidades brasileiras apontam para um cenário de total desconfiança para com as representações políticas que se lançaram ao escrutínio popular em 2020.


O número de indecisos nas principais capitais nunca foi tão elevado nas pesquisas espontâneas (quando não se apresenta uma lista de candidatos) chegando a 25% em Recife, 28% em Manaus, e 29% no Rio de Janeiro. Os votos brancos e nulos também são muito elevados nas pesquisas estimuladas(quando se apresenta uma lista de candidatos), atingindo 14% no Rio de Janeiro, 10% no Recife e 10% em Fortaleza. Os números para indecisos para eleger um vereador são históricos batendo quase 50% na maioria das capitais brasileiras.



Que essa eleição é atípica devido à covid-19 não podemos negar, porém, somente a pandemia não explica o desinteresse dos eleitores às candidaturas aos cargos mais próximos a sua vida cotidiana.


Com o cenário em que o Brasil se encontra mergulhado, com desemprego e inflação dos alimentos, elevação do valor do aluguel, crise nos preços de combustíveis, e com um vendaval econômico se projetando para 2021, não é surpresa que a cabeça do eleitor esteja voltada para seus problemas e não para essa eleição.



Somamos a esse diagnóstico uma extrema “despolitização da política”, promovida pelos meios de comunicação hegemônicos que tratam as candidaturas de forma pasteurizada dentro dos limites do sistema neoliberal, e aos próprios candidatos que em sua maioria se deixam levar pela lógica da zeladoria no município, quando os problemas a serem enfrentados tem razão mais profunda e estrutural.


Temas como a questão habitacional passam longe dos debates de 90% dos candidatos, como se fosse apenas do governo federal a responsabilidade dos programas habitacionais. Cabe lembrar o papel da prefeitura do Rio de Janeiro na remoção da população de locais de interesse para realizar a Copa 2014, bem como as Olimpíadas 2016. Uma política de titulação das ocupações populares nas favelas foi implantada a partir de 2012, visando pavimentar o caminho para venda legalizada das propriedades, incentivando a especulação imobiliária, aliada a criação de conjuntos habitacionais distantes das zonas elitizadas e até mesmo dos bairros populares. Quando há o interesse do capital, a prefeitura se utiliza de seus meios disponíveis para tratar da questão habitacional, mas sempre pelo viés da “limpeza social e étnica” dos locais de interesse, como observamos também nos casos das “revitalizações” dos centros das grandes cidades e zonas portuárias espalhadas pelo Brasil.



O aprofundamento da crise foi escondido do debate público por candidatos e grande mídia, cumprindo um papel imposto pelo governo neoliberal de Bolsonaro e Paulo Guedes, que necessitam apresentar ao público o mínimo de normalidade institucional e econômica para alicerçar bases eleitorais do campo conservador - neoliberal para 2022, além de esconder o pacote de arrocho econômico que virá tão logo cesse o processo eleitoral


A exposição de um Brasil quebrado e a colocação dos problemas que a população atravessa atualmente na pauta política facilitaria candidaturas questionadoras, e eventualmente de esquerda, equilibrando a correlação de forças na sociedade em favor de um projeto de mudança social. Não que a atual centro esquerda institucional seja capaz de levar a cabo as políticas sociais e econômicas fundamentais para que exista a mudança social que desejamos, mas o terreno para a disputa política estaria menos acidentado para as lutas sociais.


Nesse sentido, é importante ser capaz de formular e apresentar ao conjunto da população um projeto radical de mudança social. Um projeto que dê perspectivas aos jovens brasileiros, fração social que acumula os piores níveis de desemprego. O povo brasileiro está se radicalizando, questionando a exploração imposta pelo capitalismo de plataforma nos ifoods e ubers da vida, questionando o desemprego, a piora das condições de vida, começando a questionar o empreendedorismo por necessidade (que é a base do capitalismo de plataforma) e não enxerga um plano político para dar vazão às suas necessidades.



Como não existe vácuo na política, as figuras como os “outsiders” se aproveitam dessa lacuna para crescer e se apresentar como alternativa, como foi visto em larga escala nas eleições de 2018 (como no caso emblemático e sui generis de Bolsonaro, um outsider que vive da política há 30 anos e iniciou seus filhos na mesma arte), nas eleições de 2020 e veremos ainda em 2022, e enquanto perdurar a falência da democracia de baixa intensidade em que vivemos.


Cabe a esquerda institucionalizada se emancipar das amarras do capital e ser capaz de levar a frente um projeto revolucionário, sem meias palavras, sem querer agregar a burguesia no processo político, com a radicalidade necessária para ganhar corações e mentes do povo brasileiro para um projeto de mudança estrutural da sociedade, porque mudanças cosméticas já vimos que podem ser destruídas em um par de anos.


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