Eleição 2020 - Às margens: a invizibilização dos rios e das pessoas na paisagem urbana.

Com artigo elaborado por Nathália Francisco, abrimos nosso especial sobre as eleições municipais 2020, trazendo para o debate uma questão que geralmente fica à margem do debate eleitoral: As cidades e seus rios. Todos os anos vemos os reflexos da política de ocupação do solo e do ordenamento urbano de responsabilidade dos gestores municipais.


Não é incomum acompanhar nas mídias brasileiras casos de enchentes, inundações e deslizamentos de terra que parecem ocorrer, ainda que em cidades e regiões distintas, numa mesma paisagem urbana. Isto porque, a natureza “parece escolher” um público alvo para protagonizar esses desastres: a população de baixa renda. Seria injusto, porém, culpar a natureza por tal seletividade, visto que destinar a classe mais pobre aos palcos das mazelas socioambientais é um projeto político de cidade, que espacializa a segregação de classes e toda a opressão resultante do ordenamento econômico e social do sistema capitalista . Este texto é um convite para pensarmos sobre o que permeia a relação entre as águas e a sociedade, e entender como ela está alicerçada não só sobre a negação e o esquecimento dos rios urbanos, mas principalmente sobre a negação e o esquecimento daqueles que habitam seus arredores.

Os rios são a espinha dorsal das cidades. As primeiras civilizações do Oriente floresceram sobre a planície fértil entre os rios Tígris e Eufrates.

Seja pela posição geográfica privilegiada perante aos inimigos, seja pela estratégia agrícola de se aproveitar das águas fluviais para fertilizar o solo através da irrigação, ou ainda pela possibilidade de atravessar os limites territoriais sobre as linhas hidrográficas que conectavam os povos aos novos lugares. Importantes cidades surgiram através da ligação intrínseca com seus rios, dependendo deles para existir. O que podemos observar, porém, é que estas cidades concebidas pelo abraço de suas águas, são as mesmas que lhe viraram as costas em nome de um progresso conflituoso e paradoxal. Alteramos os cursos dos rios, retificamos suas curvas, arrancamos as matas que os protegem, os enterramos sob o asfalto.


O carro surgiu na cidade como elemento central da paisagem urbana. O carro chegou e precisou de espaço, o homem tirou o espaço dos rios para o automóvel poder se espalhar. O rio então não servia para mais nada: a ele coube apenas a miserável função de transportar o esgoto para longe da visão, e do olfato, das classes mais abastadas. É... o homem tirou o rio da natureza, mas não pode tirar a natureza do rio, e quando a chuva vem com força, traz a enchente para lembrar a população que ali, onde hoje é rua, um dia foi vazão.

Em grande parte dos países em desenvolvimento, a relação entre os rios e a cidade é extremamente contraditória e perversa, muitos centros urbanos brasileiros protagonizam essa relação. A cidade sufoca seus rios, apagando-os não só da paisagem física do lugar, mas também da memória de quem nele vive, muitas vezes caminhando em uma calçada que enterra sob seu pavimento o que um dia foi um rio.

Av 9 de Julho em SP esconde o Rio Saracura, formador do Anhangabaú, afluente do Tamanduateí

Não bastasse sufocar córregos e ribeirões, a cidade sufoca também as pessoas. As margens das águas fluviais urbanas são majoritariamente ocupadas pela população pobre, que muitas vezes encontra nesses espaços (áreas de proteção ambiental ignoradas pelo poder público e desprezadas pelo mercado imobiliário especulativo) sua única possibilidade de morar.

O povo pobre, aos olhos do poder público, parece ser mais resistente aos desastres, como se guardasse sob a pele, junto à melanina, a capacidade de resistir, firme, às respostas da natureza sobre o acúmulo de más escolhas feitas pelos detentores de poder desde a colonização. Os que decidem pelo povo parecem achar que as casas da classe trabalhadora são impenetráveis às fúrias das enchentes, que os barracos de madeiras suportam a pressão da água, que as alvenarias são capazes de impermeabilizar os lares dos pobres contra a força da inundação. Os que governam pelo, e não para, o povo parecem crer que favelas e periferias não sucumbem sob os escombros das encostas que desabam e caem sobre a cabeça das mães pobres e de seus filhos, com tanta naturalidade, que faz parecer que esses corpos foram projetados contra a gravidade e o peso das massas de terra.

Ser resistente é uma imposição cruel ao povo pobre, “as mãos invisíveis do mercado”, com o aval do estado, apontam seus dedos na cara da pobreza bradando: resistam ao trabalho pesado e mal remunerado, resistam aos preços abusivos dos aluguéis e das contas domésticas, resistam à falta de saneamento básico, de atendimento médico, resistam à violência, resistam à fome, e como se não bastasse, já que estão acostumados a resistir, resistam mais um pouco, aos deslizamentos de terra, às enchentes, às inundações, resistam a toda e qualquer injustiça, se quiserem viver.

Carolina Maria de Jesus, uma das mais importantes escritoras brasileiras já havia, em 1959, notado a relação entre os rios e a sociedade, sobre a qual proponho aqui reflexão. No seu diário, publicado sob o título “Quarto de despejo, diário de uma favelada”, Carolina, que residia então na Favela Canindé, às margens do Rio Tietê, desabafa sua percepção urbanística sobre a cidade de São Paulo e seus rios. Apesar de ter o ensino fundamental incompleto, o relato singelo, triste e poético da autora sobre sua experiência no espaço urbano, é capaz de superar teses do campo da ciência social, é a percepção de um corpo que se reconhece no espaço tal qual aquele rio: invisibilizado e negado dentro da própria cidade:

“... Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, perto do lixo. Os homens desempregados substituíram os corvos.” p54

Se hoje nossos rios encontram-se enterrados sob nossos pés e sob as rodas dos automóveis, se hoje nossos rios têm suas formas sinuosas apagadas e substituídas por retas de concreto, se hoje nossos rios são asfixiados pela poluição, pelo esgoto e pela ocupação inadequada e irresponsável de suas margens - e aqui é preciso elucidar que a irresponsabilidade não é de quem ocupa e sim daqueles que tornam a ocupação das áreas de risco a única opção de morar pra quem não pode pagar pelo preço alto que o mercado vende a terra - se hoje nossos rios pedem socorro através das inúmeras enchentes que culminam em destruição de inúmeras casas das famílias brasileiras, é um sinal de que estamos errando muito.

Em janeiro de 2016 uma grande enchente chamou atenção dos moradores de Poços de Caldas, MG. A água inundou inúmeros comércios da principal rua do centro da cidade, Assis Figueiredo, destruindo mercadorias, arrebentando muros, carregando carros. A água, que veio com força arrastando tudo consigo, veio pra fazer uma denúncia: estamos errando muito. Estamos errando com nossa cidade, estamos errando com nossos rios, estamos errando com a gente mesmo.


A população ficou atônita, tentando entender de onde vinha toda aquela água, e por quê ela veio assim, de repente. O que poucos sabem é que a água não surgiu repentinamente, e que sob nossos pés quando caminhamos pelo centro da cidade, está enterrado um rio, destituído de sua capacidade de receber os grandes volumes de água que chegam com as chuvas.

Fotos históricas de Poços de Caldas cobrindo os rios e a consequência ocorrida em 2016



O slogan que atrai turistas para visitar “a cidade das águas”, é esvaziado de significado e um tanto quanto desonesto. Como poderia ser concedido esse título a uma cidade que joga diariamente cerca de oito toneladas de esgoto sem tratamento em seus rios¹ e que esconde a existência destes não só dos visitantes, mas também da população? Não é de se surpreender que as pessoas desconheçam a hidrografia de sua cidade, já que sequer podem vê-las.

A dez quilômetros do centro, o problema com os rios que transbordam é muito mais comum e recorrente. Nas épocas de chuvas frequentes, os moradores do Jardim Kennedy II têm grandes motivos para se preocupar. Isto porque a água entrando em suas casas é um problema pelo qual passam há anos, sempre esperançosos com as promessas de reformas e de melhorias, que não são muito efetivas porque não se esclarece à população que para as conformações da natureza não existe reforma. Como explicar às famílias, que ao custo de muito suor e trabalho, construíram suas casas em um lugar que jamais poderia ter sido ocupado? Sabendo que a área tem propensão natural à inundação, a culpa não poderia ser de ninguém além daqueles que permitiram e fomentaram essa ocupação. Voltemos ao início do texto: destinar a classe mais pobre aos palcos das mazelas socioambientais é um projeto político de cidade.

Sem mais delongas. Este não é um texto propositivo, que tem por função trazer ideias de políticas públicas que sejam capazes de mitigar as mazelas resultantes desse projeto, este é um texto que pretende convidar a todos a perceber a urgência da nossa reflexão sobre o modo que construímos as cidades ao passo que destruímos nossas possibilidades de bem viver. Este texto é um convite para o olhar. Se queremos viver melhor, se queremos boas cidades, precisamos olhar: para os rios, para as pessoas, e para nós mesmos. Não deixaremos de errar enquanto não começarmos a construir espaços que não sejam apenas urbanos, mas sim, espaços que sejam humanos.

¹ Segundo o relatório Atlas Esgotos, elaborado pela Agência Nacional das Águas. Disponível em: http://www.snirh.gov.br/portal/snirh/snirh-1/atlas-esgotos, acesso em: 04/09/2020.

Referências bibliográficas: JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo. São Paulo: Ática, 1993.



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