Entrevista: Vereador mais votado em Poços de Caldas, Diney Lenon do PT, fala ao Opção Popular

Atualizado: Mar 14

Editoria Política, Por Rafael Neves*


“Nenhuma divergência pode se sobrepor ao que a gente tem de comum”



O professor Diney Lenon, do Partido dos Trabalhadores (PT), foi o vereador mais votado das eleições de 2020 em Poços de Caldas. Em um cenário municipal muito difícil para as forças de esquerda, ele conquistou a expressiva quantia de 1985 votos. No dia 02 de dezembro, Diney concedeu entrevista ao Opção Popular. Na pauta, temas como sua trajetória política, impressões sobre a conjuntura nacional, regional e municipal, além de projeções sobre as tarefas e os desafios das esquerdas para os próximos anos.


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Opção Popular: Diney, pra começar, gostaria que você falasse um pouco da sua trajetória, focando aspectos da sua atuação e formação política.

Diney Lenon: Sou professor e milito na educação desde 2004 ou 2005 mais ou menos. Tenho uma história com Poços de Caldas, sou nascido e criado aqui. Participei do Sind-UTE [Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais] e do Sindserv [Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Poços de Caldas]. Também tive atuação na área da promoção dos direitos da criança e do adolescente, como conselheiro tutelar. Fui representante em alguns conselhos municipais... Enfim, tenho uma trajetória de mobilização. Desde a juventude, o que tinha de movimento, a gente estava. Grosso modo é isso: uma história de militância com as experiências de esquerda que se desenharam ao longo do tempo aqui na cidade.


OP: E sua filiação ao PT é recente, né?

Diney: Sim, faz uns dois anos. Me filiei mais ou menos um mês após o Lula ser preso. A partir daí comecei a participar do partido. Um ano depois, a gente passou pelo processo de eleição interna, compondo uma chapa e conquistando parte significativa do diretório. Acabou havendo uma debandada de algumas pessoas para outros partidos... mas a gente hoje tem uma base forte.


OP: Vamos falar um pouco de eleições. Muitas análises têm sido feitas sobre o último processo eleitoral. A grande imprensa tem apostado na narrativa de derrota dos “extremos” - que seriam representados pela esquerda e pelo Bolsonarismo – e vitória do centro. Qual o seu balanço acerca do último processo eleitoral, em nível nacional? Qual foi o saldo para a esquerda?

Diney: Acho que a gente perdeu bastante enquanto bloco histórico, enquanto força de um campo progressista e popular mais amplo. Não podemos sair com o discurso de que fomos vitoriosos, mas há alguns sinais, alguns avanços qualitativos nesse processo. Eu acredito que onde a gente conseguiu algum avanço, alguma resistência, foi muito pautado por um pensamento mais claro, mais ideológico... Vou dar um exemplo: o Guilherme Boulos em São Paulo fez uma campanha sem maquiar nada. Se apresentou como uma campanha dos sem-teto, pra taxar banqueiros, pra mexer nos esquemas.... Acho que foi assim onde a gente conseguiu bons resultados... e São Paulo foi um bom resultado. Claro, a gente queria ganhar, caramba! Não dá pra viver nessa eterna justificativa de que “ganhamos em qualidade”. Tem que avançar um pouco e ganhar eleitoralmente. Nesse sentido, não tivemos a vitória como gostaríamos. Mas acho que muito disso é o processo histórico que a gente vive.

Quando o Bolsonaro ganhou a eleição, pensei comigo: vamos começar um ciclo que não é uma coisa de seis meses, um ano, dois anos... especulando, né? E acho que é um pouco disso. Estamos vivendo um ciclo que massacrou a gente em 2018 e, em 2020, espero que seja a última onda, que veio até mais fraca um pouco. Acho que o Bolsonaro sai enfraquecido. Claro, uma parte do povo que sustenta o Bolsonaro só deixou de falar que apoia ele, mas continuou defendendo a sua essência, o seu programa e tudo mais. Esse negócio de “centrão” pra mim é só uma mudança de roupagem. Mas o Bolsonaro perde porque ele é um perfil de político que jamais vai ter a fidelidade de ninguém. Então foi uma direita e uma extrema-direita que tentaram se readequar.

Pra nós, que estamos sufocados no gueto, com a faca no pescoço, isso é um resultado positivo. Acho que é isso, precisamos retomar e parar com esse negócio de só falar que “a esquerda tem que se unir”. Tem que falar: vamos unir? Então que dia? Terça-feira, duas horas da tarde em tal ação... Fazer um planejamento estratégico e em nosso palco de luta, que é local, nenhuma divergência pode se sobrepor ao que a gente tem de comum. Eu acredito muito na dialética, né? Acho que esse terreno agora pra nós vai ser árduo. Nunca foi fácil. Mas tem um potencial pra gente crescer. Vejo muita qualidade... Tô ficando velho, vejo meninos de 22, 25 anos... e falo “pô, esses moleques tão indo bem, tão indo longe”, sabe? Tem uma galera, aqui em Poços, com várias linhas de pensamento... Tem gente que votou na Yula [Merola, candidata à prefeitura de Poços pelo CIDADANIA], no João Alexandre [Moura, candidato à prefeitura de Poços pelo SOLIDARIEDADE], que tá junto com a gente na luta. Enfim, é isso.

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OP: Vamos focar agora em questões mais regionais. O PT é, desde a redemocratização, o principal instrumento partidário da esquerda no Sul de Minas. Em 2012, o partido venceu as eleições para prefeito nas três maiores cidades da região (Varginha, Pouso Alegre e Poços de Caldas), além de eleger bancadas de vereadores significativas. Nesse ano, o PT disputou as eleições majoritárias apenas em Pouso Alegre (com o candidato Camilo, que teve 1,69% dos votos) e teve você como único vereador eleito nas três cidades. Esse declínio parece representar uma dificuldade para todo o campo de esquerda, uma vez que nenhum outro instrumento partidário competitivo conseguiu se estruturar. A que você acha que se deve esse refluxo? Como enxerga a posição atual do campo de esquerda e do PT no Sul de Minas?

Diney: Acho que o campo, aqui no Sul de Minas, é pra gente avançar com toda a humildade de quem tem a compreensão de que o resultado não foi bom. Aquela famosa autocrítica - que se fala, que se cobra e que em toda reunião a gente faz – tem que servir pra gente dialogar com mais pessoas. Durante essa campanha, consegui dialogar em várias frentes, com várias lideranças, grupos... Acho que o caminho para os nossos partidos (PT, PSOL, PC do B, PSB, PDT, PCB...) é sentar e conversar a médio prazo. Pensar em política, não só em eleição. Eu vejo pessoas quando eu falo isso, sabe? Em todas essas siglas eu consigo identificar pessoas que estão abertas a isso. E é o que a gente tem que buscar! Esse declínio no Sul de Minas se deve a vários fatores, mas acho que o principal é essa moda avassaladora. Antes da eleição, eu tinha uma preocupação específica com essas cidades, com o Sul de Minas, com as perspectivas que a gente tinha de não participação ou de muitas dificuldades pra manter uma candidatura aqui, principalmente nessas três cidades. A gente fica buscando fatores locais pra explicar... e existem esses fatores, como existem em todos os lugares. Então acho que há um peso maior das questões macro em relação às micro. Claro, sem menosprezar que é no micro que a gente olha no olho, discorda, debate, vai pro embate sempre quando necessário... mas acho que isso é uma onda, a última onda contra a esquerda de forma mais avassaladora. Pra quem acompanha esse processo histórico de demonização do PT, de inviabilização de alternativas, de fake News... Até escrevi um texto nas redes, que saiu em outro jornal também: não existe ataque ao PSD, ao PSC, ao PP. Existe ataque ao PT! Ao PSOL também, mas é muito mais pesado contra o PT, por toda uma questão histórica. Claro, a gente tem as nossas falhas, os nossos erros... Acho que na análise de processos históricos em que temos que rever derrotas é preciso dar o peso correto às coisas. Os nossos erros devem ser avaliados e analisados, mas com a consciência de que nós não perdemos só por eles. Nossos adversários são muito poderosos, têm uma máquina fantástica. Porque, se não, vira masoquismo. A gente errou, mas também acertou em muitas coisas. Não somos só teoria, somos prática também!


OP: Falemos agora do cenário de Poços de Caldas após as eleições municipais. No último pleito, a esquerda teve papel muito diminuto nos debates, por não participar das eleições majoritárias (PT e PSOL tinham pré-candidaturas, mas acabaram retirando). Os resultados foram catastróficos: Sérgio Azevedo se reelegeu com uma grande quantidade de votos e a Câmara tem uma maioria conservadora. Como a dívida municipal foi um tema recorrentemente tratado, acredito que nos próximos anos veremos o recrudescimento de políticas de austeridade, com subfinanciamento dos serviços públicos e aumento do custo de vida (como demonstrado pelo reajuste, logo após as eleições, da taxa de energia elétrica e da passagem de ônibus urbano). Qual sua projeção para os próximos quatro anos? Quais agendas acha que o prefeito tentará implementar? Qual será o seu papel como único vereador de esquerda na Câmara?

Diney: Eu acho o seguinte... A gente conhece a história e a trajetória do programa tucano. Sabemos muito bem como ele é: uma visão de Estado e de política pública muito diferente da nossa. Eu acho que os meus embates vão ser nesse caminho. Não tenho ainda como fazer uma avaliação mais concreta das questões município, mas por exemplo: mudança de regime dos servidores é uma prática tucana. Temos um plano diretor em Poços de Caldas que tem que ser aprovado, já está atrasado. Imagino que eles vão defender que ele esteja de acordo com as questões “técnicas”, sem levar tanto em conta as necessidades da população. A minha posição vai ser sempre uma posição de esquerda, de quem defende o interesse público, tratando de questões que afetam mais diretamente a vida das pessoas em termo de política pública, nos PSFs, nas escolas. O que eu espero do PSDB são práticas de austeridade fiscal, discursos tecnocratas. E por isso a gente vai estar lá pra fazer o embate em cada pauta, conforme ela chegar.


OP: Você foi o vereador mais votado de Poços de Caldas, tendo uma votação muito expressiva, inclusive em relação a outros nomes com visibilidade do seu partido, como os vereadores Paulo Tadeu e Ciça. A que você atribui essa votação? Que lições tirou da campanha que podem ser úteis para todo o campo da esquerda?

Diney: Acho que a única forma que tenho de responder isso com um pouco mais de proximidade dos fatos é a seguinte: consegui articular um grupo grande de apoiadores e trabalhei com uma questão de logística bacana. Posso dizer que grande parte das pessoas que votaram no Diney é porque me conhecem de alguma trajetória comum. Tive muitos votos de professores, professoras, gente com quem trabalhei na prefeitura, alguns petistas que me viram como uma nova expressão dentro do PT... Tive voto de muitos meninos e meninas que foram meus alunos e que hoje são homens e mulheres de 28, 30, 31, 32 anos. Também tive muitos votos de mães e avós de alunos. Então acho que o que pesou muito na minha votação foi essa trajetória, que é declaradamente de esquerda, reivindicando a nossa simbologia, aquilo em que a gente acredita. Acredito que boa parte das pessoas que votaram no Diney votaram sem nenhum tipo de incômodo com o fato de ele ser de esquerda. Muitas com identificação com esses ideais e até algumas que não se identificam. Eu escutei muito coisas como “cara, vou votar em você, apesar do PT”. Não sei mensurar qual a porcentagem dessas pessoas. É pouco, não é muito. Mas acho que tem a ver com essa trajetória, por ser engajado desde sempre. Um dia eu tava na sapataria, uma moça chegou e disse: “Diney, vou votar em você. Você lembra de mim?”. Respondi que não lembrava. Ela disse: “você me ajudou com meu filho, quando ele tava no abrigo”. Ela foi contando e eu lembrei perfeitamente. É coisa de 14, 15 anos atrás, sabe? Foi uma mescla disso tudo.


OP: Um tema muito trazido por você em várias intervenções públicas é o da unidade entre as esquerdas. Como você enxerga isso a nível local? Quais são as dificuldades para que esse processo ocorra?

Diney: Eu acho estranho falar em dificuldades para que haja uma união nesse momento. Acho que já podem ter ocorrido em outros momentos, mas hoje não vejo e tenho certeza que nenhuma outra força progressista aqui em Poços vê dificuldade nesse sentido. A gente vê necessidade! Talvez o obstáculo, que nem é tão grande assim, esteja na busca de pontos de convergência. Mas quando a gente pauta nosso trabalho, nossa luta e nossa militância em pautas e ações... porque a maior formação política é a ação! Se a gente puder caminhar nesse sentido, fazer um plano de quatro anos pra uma esquerda progressista, com várias forças políticas, onde todo mundo tem espaço pra brilhar, crescer e merecer o apoio um do outro... Não é discurso não: eu acho que isso é muito possível! Tenho conversado com várias forças políticas e o PT tem se empenhado nisso, vários companheiros e companheiras têm mantido esse diálogo. A gente tem que se juntar e traçar pautas, ações concretas e pensar em ocupar espaços. A direita se reúne e faz calendário, planejamento, pensa todos os espaços políticos, os quadros, o processo de mobilização pra um, dois, três, cinco, dez anos... Temos que acumular experiência pra gente avançar nesse sentido e tenho certeza que isso vai acontecer. Tenho certeza que de 2021 em diante vamos conseguir ampliar essas forças. Hoje a gente tem diálogo com todas as forças progressistas que estão na Câmara, por exemplo. Já conseguimos fazer uma aproximação, uma boa conversa. Acho que é nesse caminho, né? A dialética é mais forte e a história está nos jogando pra isso.


OP: Diney, em nome do Opção Popular, agradeço imensamente a sua disposição para participar dessa entrevista. Deixo agora um espaço para que você faça suas considerações finais.

Diney: Gostaria de agradecer a essa rede de apoiadores, os companheiros e companheiras que entraram na luta, se mobilizaram, fizeram campanha. Agradecer também aos candidatos do Partido dos Trabalhadores, porque eu não fui eleito sozinho. É importante frisar isso. Nós fomos dezesseis candidatos, o partido teve 5.222 votos. É uma votação abaixo do que geralmente nós tínhamos, mas se a gente pensar que muitos partidos tinham voto de legenda, cabeça de chapa, vinte e três candidatos... nós tínhamos só dezesseis! Foi uma campanha desses candidatos, com suas dezenas de apoiadores, com o partido, a secretaria, da direção estadual... Com todas as dificuldades, nós conseguimos uma estrutura mínima de campanha. Então é isso. Gostaria de deixar esse abraço pra todo mundo e espero que essa estrela na Câmara não seja solitária, que ela possa brilhar junto com tantas outras vozes e forças políticas que queiram construir essa história.

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