• Opção Popular

Editorial : O palco do golpe se descortina.

Atualizado: Fev 28



“Os 594 de Brasília”


Em janeiro de 2020 lançamos o editorial “Brasil e as perspectivas para o ano de 2020” e nem mesmo este editor acreditava em 30 dias os acontecimentos se mostrariam tão fiéis às ponderações lançadas naquele momento. Como nos ensina o velho marxista, por vezes a conjuntura nos atropela, e para isso não acontecer, devemos ser capazes de realizar uma análise de conjuntura coerente, e mais do que isso, nos colocarmos em marcha para cristalizar o cenário mais favorável à classe trabalhadora, frente a esta análise.


Após um ano de governo no qual bolsonaro não conseguiu entregar os resultados econômicos para os quais foi alçado à presidência, as frações que deram a sustentação necessária a este voo de galinha do ex-capitão já se deterioram e digladiam tentando se deslocar do fracasso político e econômico, mas ao mesmo tempo almejando serem os detentores do espólio de 57 milhões de votos alcançados pelo atual presidente.


Esse movimento de disputa política se acirrou nos últimos meses, com o presidente da câmara juntamente com o presidente do senado, aumentando o tom das críticas aos disparates do governo bolsonaro. Ainda que exista essa tensão entre as partes, temos total clareza que quando o assunto é tirar os direitos dos trabalhadores e entregar o patrimônio público para mãos estrangeiras, os três atores caminham alegremente de mãos dadas em direção da destruição do bem-estar da população brasileira.


Um elemento central nessa disputa diz respeito a uma certa palavra que tem sido martelada pela mídia e pelos presidentes da câmara e do senado nos últimos meses, que o leitor pode identificar facilmente: “nunca antes na história desse país” ouvimos falar tanto a palavra “parlamento”. A grande mídia e os presidentes anteriores da câmara e do senado sempre se referiram às duas casas como “câmara” e “senado” e no máximo “congresso nacional”.


Os deputados e senadores vem descobrindo desde 2014 que o sistema “presidencialismo de coalizão” é um morto vivo andando por aí a espera de uma cova para se enterrar, e atuam cada vez mais no sentido de aumentar a participação direta das casas no poder executivo. Descobriram que 513 deputados e 81 senadores se submeterem aos caprichos de uma pessoa é um tanto quanto insensato. Tanto que o atual presidente da câmara, Rodrigo Maia, (isso não é segredo para ninguém) é chamado de “Primeiro Ministro”, e está de fato atuando como tal.


Esses movimentos de corrosão da base eleitoral e da base política, não passam despercebidos pelo bolsonarismo, que se encontra mês após mês numa posição política e econômica pior, sendo obrigado a lançar mão da estratégia do diversionismo quase que diariamente para tentar pautar a mídia e a oposição no sentido destes gastarem tempo e energia com assuntos menos importantes frente aos 12 milhões de desempregados, ao fim da aposentadoria, ao recorde de informalidade na economia, à entrega do patrimônio nacional aos estrangeiros.


“Tropa, o inimigo agora é outro”


A estratégia bolsonarista deu certo durante todo o primeiro ano de governo, mas perdeu força à medida que não conseguiram avanços significativos nos indicadores econômicos, e hoje até mesmo baluartes do golpismo como Merval Pereira e Miriam Leitão já admitem que a economia só vai melhorar com a saída de bolsonaro do governo.


Frente a mudança de cenário político, o bolsonarismo concentra forças na manutenção de sua base eleitoral aquecida, e depois de todo o desgaste sofrido pelo PT, que após 4 anos já não pode ser mais o culpado de tudo de ruim que acontece, foi preciso criar um novo inimigo da pátria, causador de todos os males e dificuldades enfrentadas pelo governo bolsonaro. A Geni da vez é o congresso nacional, ou “parlamento” na novilíngua…


Mais uma vez o elemento de coesão do bolsonarismo é o inimigo interno, tal qual a cartilha de Mussolini, pai do fascismo e do nazismo (quando Hitler subiu ao poder, Mussolini já era o Duce há 11 longos anos na Itália). Pouco antes do carnaval, uma figura central do governo (General Heleno) mostra (numa falha digna de zagueiro do Catanduvense) a cartada final preparada pelo bolsonarismo, jogando mais água no moinho do golpe bolsonarista, frente o golpe parlamentarista que está sendo gestado.


11 homens e 1 não mais segredo


O leitor deve se atentar para alguns detalhes importantes nesse tabuleiro político brasileiro, como as mudanças promovidas pelo bolsonarismo em gabinetes estratégicos, sem muito alarde pela grande mídia. As últimas mudanças ocorreram no INMETRO, quando nas palavras do Presidente, ele “implodiu o INMETRO” demitindo toda a diretoria do órgão e nomeando para a presidência do órgão mais um militar, dessa vez o coronel Marcos Heleno Guerson de Oliveira Júnior.


O time verde oliva no governo federal agora ocupa nada mais nada menos que todos os ministérios e órgãos com gabinete no Palácio do Planalto, despachando lado a lado com bolsonaro. Este, por sua vez já nomeou ao menos 2500 militares para cargos de chefias no executivo, permeados em todo o organograma federal, e conta com um total de 08 militares como Ministros de Estado, um número proporcionalmente maior que na vizinha “ditadura venezuelana” e maior até mesmo que 3 Ditadores Brasileiros: Médici, Geisel e Figueiredo, que tinham 7 ministros militares em sua estrutura. Essa é a medida da saída que bolsonaro prepara para o Brasil, quando para uma figura como ele, todas as portas se fecham, resta ainda a sua predileta: a porta do autoritarismo.


Nos meios bolsonaristas, aqueles quase 30% do eleitorado, já se plantou a semente do ódio ao congresso, (ou parlamento) e hoje já se sentem totalmente à vontade em expor as ideias de fechamento do regime e cassação dos parlamentares, em nome da governabilidade bolsonarista. O último movimento de peças desse jogo foi um vídeo convocando a população a defendê-lo e atacar os novos inimigos da nação, compartilhado pelo próprio bolsonaro em suas redes sociais, fato que gerou reações contrárias em setores da grande mídia que apoiaram a sua ascensão, como grupo Globo, Folha, IstoÉ e Veja. A criatura está prestes a devorar seus criadores.


Nós não usamos Black tie


Diante dos golpes e contragolpes que estão sendo gestados no Brasil o que cabe a nós? Em primeiro lugar entender que nós não usamos black tie, e eles sim. Nenhuma saída proposta pela elite será capaz de atender aos anseios da população. Nesse sentido, nem o golpe do centrão parlamentarista, nem o golpe autoritário do bolsonarismo são saídas viáveis para a classe trabalhadora. O programa econômico dos golpistas (de todos eles) é o mesmo: arrocho salarial, retirada de direitos, entrega da nação ao capital estrangeiro, governo para elite.


Porém, devemos reconhecer que este momento representa uma escalada perigosa do deslocamento da democracia (mesmo que tacanha) para o eixo fascista, que vem ocorrendo desde 2013 e pode atingir seu ponto mais agudo desde então. Assim, devemos nos organizar para apresentar uma resistência popular aos golpes, e para demonstrar que não basta mudar o governante de ocasião, temos que apontar nova direção programática para que possamos avançar na direção contrária ao fascismo.


Acreditamos que já não espaço para disputa das consciências com um discurso rebaixado sobre nossos objetivos e programa político. O grande trunfo do bolsonarismo foi exatamente se aproveitar desse vazio de radicalidade deixado pela esquerda, que optou por tentar agradar aos setores médios conservadores da sociedade, e ao longo dos anos se afastou dos problemas reais da população mais pobre. Desse modo, é preciso que deixemos claro qual é nosso programa político, nossos objetivos e como devemos alcança-los. Existe uma grande parte da população que se sente órfã de representatividade política, e por isso se deixou levar por uma ilusão criada pela mídia e pela elite em 2018. Não existem 57 milhões de bolsonaristas.


Existem aproximadamente 30% desses 57 milhões que ainda seguem nas fileiras bolsonaristas, e estão sendo mantidos aquecidos para tentar pressionar toda a sociedade. Os 30% do eleitorado total, ligados a esquerda institucional, tem ficado dispersos devido à falta de liderança e direcionamento de suas representações. E 40% estão nesse limbo político, a espera de um programa que aponte soluções para o país.


Não devemos ter a ilusão que esses 40% estão propensos as pautas da esquerda revolucionária, mas somos capazes de disputar dentro desses 40% as camadas que estão mais a margem desse programa neoliberal radical. E além disso, devemos ser capazes criar uma resistência nessa camada da sociedade frente ao ideário capitalista que a todo momento ilude exatamente esse limbo político para aderir ao programa neoliberal como meio de ascensão social. Necessitamos dar vazão aos desejos dessa parcela da população, sem meias palavras. Isso movimenta o cenário até para a esquerda institucional, que também poderá agitar suas fileiras e forçar um reequilíbrio das forças políticas, revertendo o fluxo fascista que não tem encontrado barreiras desde 2018.


A batalha ideológica está apenas no começo.

0 visualização

Receba nossas atualizações

  • Branca Ícone Instagram
  • Ícone do Twitter Branco

© 2020 Opção Popular