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O papel da esquerda perante a inclusão social de pessoas com Autismo

Atualizado: Out 21

Nesse artigo, Thaís Carvalho relata a experiencia de conviver com sua filha Helena, que teve diagnóstico de autismo. Thaís parte de seu caso concreto e faz uma análise de como as relações sociais e de produção são estabelecidas quando mediadas pelo espectro do autismo, quais barreiras tem que enfrentar e a necessidade de inclusão desse elemento na análise marxista contemporânea.



Algumas pautas como a inclusão social de pessoas com deficiência vêm sendo ignoradas pela esquerda, e abordarmos esse assunto é extremamente urgente, já que essas pessoas são as mais vulneráveis perante a reprodução capitalista e produção de mercadorias. Para que tenhamos uma perspectiva geral sobre as dificuldades enfrentadas não apenas pelas pessoas com deficiência, mas também pelas famílias que buscam um diagnóstico e tratamento no momento em que enfrentamos um desmonte da saúde pública e da Educação no País, é necessário que adentremos na questão da luta de classes, e em como ela é uma ferramenta necessária para a libertação e inclusão social das pessoas com deficiência. O que é o Autismo Antes de adentrar nos aspectos relacionados à precariedade do Sistema Único de Saúde Brasileiro e do Sistema Educacional em lidar com as pessoas com deficiência, é importante que primeiro você entenda o que é o autismo, e quais são as limitações das pessoas que se encontram dentro do espectro, essas que impedem que grande parte dessas pessoas consigam permanecer dentro do sistema educacional formal e quando em idade produtiva sejam contratadas e façam parte do mercado de trabalho tradicional.

O TEA (Transtorno do Espectro Autista) se caracteriza pelas desordens do desenvolvimento neurológico, que estão presentes desde o nascimento. São elas: O Autismo Infantil precoce, Autismo infantil, Autismo de Kanner, Autismo de Alto Funcionamento, Autismo atípico, Transtorno global do desenvolvimento, Transtorno Desintegrativo da infância e a Síndrome de Asperger. O Autista se caracteriza pelo déficit na comunicação social, o que quer dizer que a pessoa no espectro pode ter dificuldades em níveis diferentes para se encontrar em situações sociais, inclusive ambiente de trabalho. O espectro é amplo e inclui autistas verbais, que mesmo usando a linguagem podem ter dificuldades de interação, e os não-verbais, que são os que tem uma maior dificuldade, e dificilmente adentram no mercado de trabalho. Além disso, outra característica presente são os comportamentos, que podem ser definidos pelos interesses restritivos e movimentos repetitivos (como balançar de um lado para o outro)



A limitação do autista na maioria das vezes está no neurotípico.

As pessoas que estão fora do espectro são denominadas neurotípicas, como é o meu caso.

Foto: Mãe e filha, Thaís e Helena.

Como a maioria das pessoas que nunca tiveram contato com uma pessoa autista, ao receber o diagnóstico senti uma certa dificuldade em associar minha filha com personagens famosos e característicos, como no filme Rain Man, que conta a história de um personagem dentro do espectro.


Acontece que nenhum autista é igual ao outro, e minha filha começou a me ensinar que as limitações que eu impus a ela, tinha mais a ver comigo do que com a deficiência. Lembro-me de duvidar que ela em pouco tempo evoluiria ao ponto de construir uma amizade, por exemplo.



Há alguns meses, quando me mudei com uma amiga que também é mãe e tem um filho neurotípico dá mesma idade que a minha filha, pude constatar que ela não somente era capaz de construir uma amizade sólida, como também de muitas outras coisas que eu tinha desistido quando recebi o diagnóstico em minhas mãos.

Foto: Helena e seu novo amigo Caetano

A partir daí, ficou claro que a limitação que cerca as pessoas com deficiência, é mais um preconceito social do que uma verdade, e isso pode se tornar um grande problema quando analisamos a partir do aspecto cultural e econômico, que exclui essas pessoas do mercado de trabalho e de atividades por acreditar que elas não serão capazes de se adequar.

Inclusive, é esse preconceito que o capitalismo usa para marginalizar essas pessoas, e não ter que lidar com as questões de acessibilidade e inclusão social, que nada agregam ao seu lucro.

A precariedade do diagnóstico no Brasil


Para que o autista se desenvolva e supere suas limitações, o primeiro passo é conseguir um diagnóstico precoce, que é aquele realizado antes dos 3 anos de idade. Mas no Brasil, essa não é a realidade da maioria das crianças dentro do espectro. Na verdade, os levantamentos indicam que a média de faixa etária que as famílias conseguem um diagnóstico (quando conseguem) é por volta dos 8 anos de idade, o que dependendo do grau do autismo, pode ser tarde demais para uma intervenção eficaz. Somente até 2019 os governos de Temer e Bolsonaro já retiraram 10 Bilhões de recursos destinados ao SUS, e esse desmonte da saúde pública afeta diretamente as famílias que buscam um diagnóstico pelo Sistema Único de Saúde.


Mas a batalha não termina ao conseguir o diagnóstico, ela continua quando a família não consegue as terapias pelo SUS, ou quando a mãe tem que sair do mercado de trabalho para conseguir dar a assistência que o filho precisa. A batalha também adentra o sistema educacional Brasileiro, que muitas vezes não está preparado para lidar com a inclusão de pessoas dentro do espectro autista. Assim, essas pessoas sem acesso ao ensino superior e ao mercado de trabalho tradicional, se veem obrigadas a se aposentar ou migrar para os trabalhos informais.


Aos 2 anos e 4 meses, minha filha Helena recebeu o diagnóstico de Autismo. O diagnóstico da minha filha demorou cerca de 7 meses para sair, e em comparação com outras famílias, foi rápido, pois eu pude ‘’cortar caminho’’ pelo sistema de saúde privado.

Foto: Helena e o Diagnóstico de Autismo


As famílias carentes não tem essa possibilidade, e ver seus filhos precisando de assistência e não conseguindo, é a realidade de muitas mães Brasileiras. Nesse momento, eu já era iniciada nos estudos marxistas, e não pude deixar de pesquisar sobre o assunto através de uma ótica do materialismo histórico O Autismo e a luta de classes como ferramenta de inclusão social A força de trabalho ou a capacidade de trabalho que as pessoas com deficiência em geral podem oferecer, não interessa ao sistema capitalista que ao enfrentar suas próprias contradições preferem explorar o proletariado que seja capaz de produzir mais valor e cujas faculdades físicas mentais e sensoriais não estejam comprometidas e fora do padrão ao ponto de interferir negativamente na produção.

Com o avanço do neoliberalismo no Brasil e as taxas de desemprego cada vez mais altas, assim como a normalização do trabalho informal como solução para a crise, as pessoas com deficiência se veem cada vez mais excluídas e obrigadas a se contentarem com as pequenas cotas que as empresas são obrigadas a oferecer segundo a lei 8213/91. Segundo um levantamento de 2010, o Brasil possuía cerca de 45 milhões de cidadãos com algum tipo de deficiência física ou intelectual. E entre eles, apenas 0,9%, ou cerca de 419 mil estavam no mercado de trabalho formal.

Foto: Luciney Martins/O São Paulo

Já não bastasse as péssimas estatísticas que as pessoas com deficiência encaram, e os desafios para se introduzir no mercado de trabalho formal, Bolsonaro fechou o Ministério do Trabalho, e acabou com todos os conselhos de Política Nacional de Participação Social, e entre eles o importante Conselho dos direitos da pessoa com deficiência. Agora, cabe a nós indagar: Se o sistema capitalista julga a qualidade e o valor de reprodução que as pessoas com deficiência possuem como insuficiente, como então elas a trocarão por um salário, para que possam comprar o que é necessário para a sobrevivência nesse sistema socioeconômico? Olhando por uma perspectiva a partir do materialismo histórico, a relação social de produção capitalista, que tem como objetivo e regra de reprodução a extração de mais valor como forma de sobrevivência, pessoas com deficiência encaram esse dilema desde seus primórdios, e cabe a luta de classes ser uma ferramenta que não só garanta a inclusão dessas pessoas de forma eficaz, como eliminem esse sistema que mede o valor de uma pessoa pelo o que ela é capaz de produzir economicamente. É necessário lutar para que exista a intervenção do estado em oferecer a essas pessoas as terapias e intervenções necessárias para que as mesmas não tenham tantas limitações, o que também é um problema que a luta de classes deve se atentar.

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