Pelo direito ao amanhã: um balanço sobre o sequestro do futuro

Nesse artigo, o historiador Rafael Neves analisa o caminho percorrido pelo capitalismo em sua fase atual, suas reformas internas históricas e novas conformações para manutenção do sistema hegemônico de exploração da classe trabalhadora, abrindo as perspectivas para o próximo ano, apesar das condições sanitárias.



Dois mil e vinte foi um ano demolidor de ilusões. Qualquer olhar minimamente atento à realidade objetiva percebe que estamos diante de uma crise civilizacional, que ocorre em todas as esferas da sociedade. A economia capitalista, que já vinha combalida desde 2008, demonstra sua incapacidade de voltar a produzir crescimento econômico de maneira sustentável, dependendo de uma rapinagem cada vez maior e mais violenta sobre os mais pobres e suas conquistas históricas para se manter viva. A democracia liberal, tratada por muitos como algo tão natural como o ar que (ainda) se respira, é alvo de descrédito ao redor do mundo, com suas instituições não conseguindo responder às necessidades do momento. Líderes e projetos autoritários se fortalecem nos mais variados lugares, mostrando o quão ilusórias eram nossas crenças genéricas de que a História se encaminhava para a construção de um mundo melhor. Muito longe dessa esperança, no duro chão da realidade, vivemos como indivíduos atomizados e perdidos em um mundo onde a depressão e a ansiedade são a maior pandemia. No horizonte, a catástrofe climática, que ameaça a existência certa do amanhã para a espécie humana.


Gostaria, neste texto, de abordar um dos elementos dessa crise geral, que, apesar de ser dela derivado, colabora cotidianamente para a manutenção e reprodução desse estado de coisas desesperador: a crise de imaginação que nos acometeu, enquanto sociedade, nos últimos quarenta anos. Seu principal sintoma é nossa incapacidade de vislumbrar (e, portanto, de construir) uma forma de existência social radicalmente diferente da “normalidade” a que nos acostumamos. Esse “normal”, a que nos apegamos na esperança de algum dia alcançar a completude e a felicidade plenas eternamente postergadas, atende por alguns poucos nomes. Mercado, propriedade privada, Estado burguês, individualismo.


Desses pilares deriva nosso cotidiano, com suas tragédias, como o racismo estrutural, a pobreza, a superexploração do trabalho, o aumento exponencial dos adoecimentos mentais. Há também, é claro, as “delícias”, como um consumismo ilimitado de coisas, pessoas e experiências, junto a um hedonismo narcísico que centra qualquer sentido da vida na sua própria fruição, não sendo muito afeito à defesa obstinada de compromissos sociais e civilizatórios.


Nem sempre fomos assim. Tampouco chegamos nessa situação por coincidência ou acaso, muito menos pelo fato de as novas gerações serem menos criativas ou imaginativas que as anteriores. O sequestro da utopia é resultado de um processo histórico de rebaixamento do horizonte esperado de transformação social, que se baseou no enfraquecimento (ou na destruição) das formas de sociabilidade que permitiam a construção coletiva de futuros alternativos, e na sua substituição por outras mais aprazíveis à reprodução de um presentismo raso e torpe.

Enxergar outros futuros, entretanto, depende de um acerto de contas com esse passado. Somente pela compreensão da dimensão histórica de nosso aparente imobilismo é que poderemos exorcizá-lo. Essa é a tentativa desse texto escrito de forma ensaística e sem pretensões de rigor acadêmico - como os demais de minha autoria publicados nesse espaço -, buscando compartilhar impressões pessoais formuladas durante as angústias vividas nesse ano tão difícil.


Antes da noite neoliberal: quando o futuro ainda era uma possibilidade


O século XX, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, parecia estar em direção a um futuro radicalmente diferente do capitalismo até então predominante. Estima-se que, no início da segunda metade do século, algo em torno de um terço da humanidade vivia sob regimes de inspiração comunista. Mais do que isso, a URSS parecia ser o polo dinâmico do desenvolvimento mundial, apresentando um incrível progresso científico-técnico, além de melhoras consideráveis nas condições de vida das populações que viviam sob o “Socialismo Real”.


Além disso, foi durante o pós-guerra que as lutas de libertação nacional explodiram ao redor do planeta, todas elas tendo forte influência do movimento comunista liderado pela URSS. A Revolução Chinesa destruiu os grilhões do imperialismo inglês e deu início à construção da potência que vemos hoje; as revoluções no continente africano inspiraram leituras renovadas do marxismo que contribuíram para o desmonte da dominação colonial capitaneada pelas supostas democracias europeias; e a Revolução Cubana irradiou o sonho da transformação radical por toda a América Latina.


Mas também nos países capitalistas o contexto de avanço revolucionário trazia frutos positivos para as classes trabalhadoras. A industrialização de tipo fordista teve como contrapartida a estruturação de fortes sindicatos, onde trabalhadores socializavam, compartilhavam experiências, construíam formas de solidariedade e impulsionavam sua luta por melhores condições de vida e trabalho. Esse movimento sindical forte e organizado foi capaz de fornecer poder de barganha aos trabalhadores para que conquistassem os direitos sociais e trabalhistas que depois seriam característicos do Estado de bem-estar social.


Finalmente, a década de 60 e sua data mais famosa – maio de 1968 – pareciam condensar os questionamentos a todos os tipos de opressão e abrir as portas para a experimentação de novas experiências, estados de consciência e formas de vida. Obviamente, todas essas experiências históricas tiveram suas contradições e seus limites.


Não é meu objetivo, aqui, fazer um balanço sobre seus erros e acertos. O que defendo é que, em termos de imaginação, a possibilidade de construção de um mundo novo e radicalmente diferente estava sempre no horizonte. E o futuro mais justo e igualitário parecia estar sendo construído.


There is no alternative: o cancelamento do futuro e o “fim da história”


Tudo isso começa a desmoronar na década de 70. Além das crises econômicas derivadas dos choques do petróleo, o arranjo fordista não era mais capaz de manter as taxas de lucros dos capitalistas, cujas quedas se expressavam em “sintomas” como a inflação. Frente a esse processo, permeado pelo fortalecimento de múltiplas contestações, o capitalismo encontra o caminho para sua contraofensiva em sua forma neoliberal. A estratégia tinha duas frentes.


Por um lado, a repressão internacional ao movimento operário, que teve como principal exemplo a implantação das ditaduras empresarial-militares na América Latina. Por outro, a formação de uma nova hegemonia, que Pierre Dardot e Cristian Laval definiram como uma “nova razão de mundo”[1].

Esses autores apontam que o neoliberalismo se constitui, simultaneamente, como um padrão de acumulação do capital, uma ideologia e um conjunto de técnicas disciplinares que se articularam para garantir o seu funcionamento. Em primeiro lugar, como forma de voltar a conseguir altas taxas de lucros, o capital passa então a pressionar pela desregulamentação da economia, pelo desmonte dos sindicatos e a “flexibilização” do trabalho, que significava diminuição na massa salarial, o desemprego estrutural e o corte de gastos por meio da extinção de direitos. Além disso, defendem a privatização de amplos segmentos do setor produtivo estatal e dos serviços públicos, conseguindo novos campos para o processo de acumulação.


Tudo isso é defendido com base numa ideologia que, embora dialogue com o liberalismo tradicional, também o altera radicalmente. Uma das principais características da ideologia neoliberal é o valor conferido à competição, vista como principal ferramenta para produzir eficiência. Sua esfera é o mercado, compreendido como um dado natural da existência humana. Diante disso, a tarefa da ação política seria diminuir o poder tanto do Estado quanto das formas de associação coletiva, que produziriam distorções no mercado autorregulado naturalmente com base na competição. Isso tudo com o objetivo de potencializar a ação do indivíduo, formulado ideologicamente como um “empreendedor de si mesmo” em uma busca constante aumentar seu “capital humano” e competir em melhores condições, conduzindo-se de forma racional na busca da maximização de seus lucros.


Para produzir esses resultados, a sociedade neoliberal depende de uma série de dispositivos disciplinares que condicionam as condutas de indivíduos, coletivos e Estados a adotarem a racionalidade do mercado em todas as instâncias de sua existência. O endividamento dos Estados – fruto da financeirização da economia e das sucessivas reduções de impostos sobre os mais ricos - foi utilizado para estabelecer regras fiscais que limitam as possibilidades de atuação autônoma de projetos políticos de base popular vitoriosos, que se veem obrigados a cortar gastos sociais para continuarem tendo acesso a fontes de financiamento. O desemprego em massa, gerado em grande medida como consequência da adoção das políticas de austeridade, se junta a uma prática de constante avaliação e metrificação de metas e resultados como forma de docilizar os trabalhadores e adequá-los a essa realidade. Afinal, na lógica neoliberal, “é melhor ter emprego sem direitos do que direitos sem emprego”.


Margareth Tatcher, durante os anos 80, sintetizou muito bem esse estado de coisas em seu conhecido slogan “There is no Alternative”. Não se tratava de dizer que o capitalismo neoliberal era uma boa forma de organização social, mas de negar que houvesse outro jeito de viver. Nada diferente seria possível. O vaticínio de Tacher era um destino fatalista: nada escaparia da nova racionalidade.


A derrota do bloco socialista pareceu ter confirmado essa profecia auto-realizável. Com a queda da URSS, que havia sido o maior motor material e simbólico das utopias durante o século XX, a vitória do capitalismo parecia incontestável. Francis Fukuyama, em seu famoso e polêmico O Fim da História e o Último Homem, partiu da máxima marxista para dizer que, se a história da humanidade era a história da luta de classes, o triunfo da burguesia significava que a história tinha acabado. O capitalismo, em sua forma neoliberal, seria uma espécie de presente eterno, uma tragédia infinitamente repetida pela impossibilidade de construir um futuro diferente.


O “neoliberalismo progressista” e a capitulação da esquerda


Esse período, com suas elaborações ideológicas, também impactou as esquerdas. A social-democracia e o comunismo perderam espaço para o que Nancy Fraser nomeou de “neoliberalismo progressista”[2]. Esta nova esquerda, que surgiu em diferentes lugares no fim do século XX, aceitou resignadamente o domínio da racionalidade neoliberal sobre o mundo, não se opondo à desregulamentação dos mercados, às privatizações, à prestação de serviços públicos por entidades privadas que visam lucro, à precarização do trabalho (mascarada com o discurso do empreendedorismo), etc. Por outro lado, adotou uma política liberal-meritocrática em aliança com setores liberais de movimentos sociais por reconhecimento de grupos vítimas de opressões estruturais, como o feminismo e o movimento negro. Longe de mexer nas estruturas que fazem a economia funcionar, o foco dessas políticas foi garantir representatividade para indivíduos desses segmentos em determinados espaços[3]. Políticas certamente importantes, mas insuficientes. Por fim, houve também a adoção de programas sociais focalizados e compensatórios de combate à extrema-pobreza em detrimento da construção de serviços públicos universais, gratuitos e de qualidade.


Com isso, as esquerdas deixaram de ser radicalmente diferentes dos projetos políticos da burguesia, carregando inclusive muitas semelhanças com eles. Exemplos ao redor do mundo não faltam. Os governos do Partido Socialista no Chile não revogaram a Constituição legada por Pinochet, que só foi derrubada 30 anos após o fim da ditadura, por uma onda de lutas populares. Na Inglaterra, o new labour comandando por Tony Blair teve como uma das grandes inovações retirar a palavra socialismo do estatuto do Partido Trabalhista. Margareth Tatcher, anos mais tarde, diria que que a aceitação dos preceitos neoliberais da economia por parte do trabalhismo teria sido sua maior vitória. No Brasil, os governos do PT não apenas mantiveram intocadas as privatizações criminosas dos anos 90, como garantiram os maiores lucros da história do sistema financeiro privado até então.


O cenário desenhado mostra que, à esquerda ou à direita, o neoliberalismo se tornou dominante enquanto racionalidade que organiza o mundo. Ele poderia ser mais ou menos humano, mas a precariedade como condição estava dada. O futuro parecia só existir como uma eterna encenação do presente. Isso teve impactos importantes na forma como passamos a construir nossas subjetividades, com consequência políticas catastróficas.


O “novo indivíduo” e sua forma de subjetivação


O neoliberalismo, ao fazer sua racionalidade penetrar em todos os âmbitos da vida, criou um novo tipo de subjetividade, cuja principal característica é o individualismo exacerbado. O modelo de sociedade para seus ideólogos é aquele em que indivíduos competem entre si com o objetivo de atender apenas a seus interesses particulares, não havendo regulação de nenhuma outra instância além do mercado. A consequência é a demolição de qualquer ideia de interesse publico ou comum.


Isso se efetiva na prática. A precarização do trabalho, os altos níveis de desemprego e a destruição dos sindicatos têm um caráter disciplinar, atomizando as pessoas e dissolvendo laços de solidariedade social em favor de uma competição acirrada pelos recursos escassos. Somos cada vez mais descartáveis para o sistema. Trocamos de emprego várias vezes ao longo da vida, tendo em comum entre eles apenas a situação precária. Exige-se flexibilidade do trabalhador, que deve se adequar melhor às necessidades dos empregadores, sendo recompensado por seu “desempenho”. Na prática, isso tem significado jornadas de trabalho mais longas e remunerações menores. Com a destruição dos sistemas públicos de seguridade social, qualquer desgraça cotidiana – como um acidente ou uma doença – pode significar, para um contingente cada vez maior de pessoas, o risco da total ausência de renda.


Essa realidade é mascarada por toda uma ideologia que visa responsabilizar o próprio indivíduo por seu sucesso ou fracasso. O empreendedorismo é um exemplo disso. As dificuldades, na verdade, seriam oportunidades para o enriquecimento daqueles indivíduos mais arrojados, que sejam capazes de identificar “falhas de mercado” e transformá-las em fonte de lucro. Não se deve reclamar ou buscar uma organização coletiva para mudar a situação social existente. As coisas, por pior que sejam, são assim. Não há alternativa. A adaptação às exigências do mercado é a maior virtude que uma pessoa pode ter, gerando trabalhadores cada vez mais dóceis, que aceitam condições piores por medo do desemprego ou por se considerarem responsáveis por seu próprio fracasso.


Mas o neoliberalismo também faz suas promessas. Há um lugar onde os indivíduos atomizados e precarizados podem encontrar a felicidade plena: o consumo. Todas as dimensões da vida são reduzidas a esse ato. Nosso objetivo deve ser desfrutar ao máximo da nossa “jornada”, consumindo o maior número possível de mercadorias, experiências e pessoas (o “amor líquido” talvez seja um dos temas que mais gere interesse e sofrimento entre jovens). Esse estilo de vida tem também um efeito disciplinador: passamos a orientar nossa existência pela mesma lógica contábil, buscando a maximização do prazer e a minimização da dor, o que bloqueia nosso engajamento em outros tipos de ação, como a luta política. Tudo isso causa um tremendo mal-estar. Mark Fisher[4] se refere a esse estado de coisas como sendo uma “hedonia depressiva”:


A depressão é habitualmente caracterizada como um estado não-hedônico, mas a condição a qual me refiro aqui é constituída não tanto por uma incapacidade em se obter prazer e mais pela incapacidade de fazer qualquer outra coisa senão buscar prazer. Há uma sensação de que “algo está faltando” -, mas nenhuma apreciação de que este gozo perdido, misterioso, só possa ser acessado para além do princípio do prazer. (Mark Fisher em O realismo capitalista, p. 44)

A dominação pelo prazer é tema conhecido em distopias, como Admirável Mundo Novo. Neste romance, o aumento do controle e da exploração é balanceado por uma série de estímulos sensoriais e por uma droga chamada soma, cujo efeito é produzir alguns momentos de felicidade naqueles que a tomam. A pandemia do novo coronavírus talvez ilustre muito bem os efeitos deletérios desse tipo de dominação. Viver a vida, sair, consumir, ir a bares é mais importante que qualquer preocupação com a saúde coletiva.


Seja como for, o fato é que a consequência desse modo de subjetivação é uma verdadeira epidemia de sofrimentos psíquicos, como a depressão e a ansiedade. A maioria absoluta das pessoas que leem esse texto, com certeza, convivem em alguma medida com essas condições. Longe de aceitar a origem social desses males, o discurso dominante culpa os indivíduos e aproveita para vender falsas soluções, obviamente, também pautadas no consumo. O impacto político disso é grande, uma vez que pessoas adoecidas tem menos disposição para a luta. Mas as consequências políticas da subjetivação neoliberal não param por aí.


A crise de 2008 e a reabertura da história: polarização entre rebeldia sem rumo e reação conservadora


A crise de 2008 gerou um abalo sísmico nas certezas neoliberais, inaugurando de alguma maneira a conjuntura que vivemos hoje. Os fartos pacotes estatais para salvamento das instituições financeiras foram seguidos de políticas de austeridade que pioraram ainda mais as condições de vida da classe trabalhadora em praticamente todo o Ocidente. Direitos foram demolidos, o desemprego se tornou uma realidade para grande parte dos jovens, jornadas de trabalho foram aumentadas e salários diminuíram. Os serviços públicos também passaram a ser constantemente subfinanciados. Em muitos países, essas medidas draconianas foram aplicadas por forças de centro-esquerda, dentro da lógica no “neoliberalismo progressista” já abordado nesse texto. O futuro se tornou ainda mais incerto.


Todo esse caldo gerou dois tipos de respostas. A primeira delas foi uma série de explosões de rebeldia antissistema e novas lutas populares, que tinham algumas características em comum, muito em decorrência do tipo de subjetividade abordada acima. A primeira delas é o espontaneísmo. Isso significa que não surgiram da ação de movimentos sociais e partidos políticos institucionalizados, mas de pessoas que muitas vezes não tinham histórico de atuação política organizada. Em consonância com esse espírito, há também um horizontalismo, sem a definição clara de lideranças ou porta-vozes.


A importância das redes sociais nesse tipo de mobilização também deve ser destacada, pois ajudou a conformar um tipo específico de ativismo, bastante individualista e performático, baseado muitas vezes na promoção da própria identidade e em uma noção difusa que as ideias se espalham quase naturalmente pela sociedade. Esse espírito é bastante avesso a valores como disciplina, abnegação da individualidade e senso de organização que eram tão importantes nas organizações de luta de inspiração leninista.


Esses movimentos também não tinham um programa claro que ofereça um horizonte utópico de transformação social, embora sejam muito contundentes e acurados na crítica às desigualdades e opressões de classe, raça e gênero. São antissistêmicos, mas ainda não conseguem apontar o que seria, concretamente, a superação desse sistema. Ainda não conseguimos parir um futuro. Talvez a melhor alegoria desse tipo de militância seja o sucesso atingido pelo filme V de Vingança e pela simbologia associada a ele entre muitos ativistas. Na obra, não é uma organização coletiva e de atuação cotidiana que provoca a revolução, mas a palavra espalhada por um herói solitário que toca os corações das pessoas a partir de uma série de ações espetaculares e performáticas. Não se sabe que sociedade eles construirão, mas é muito claro qual querem destruir.


Essa primeira reação a crise fez muito barulho e deu origem a atores políticos interessantes, como a nova esquerda chilena, o socialismo democrático de Bernie Sanders nos EUA, o novo trabalhismo de Jeremy Corbyn no Reino Unido, etc. Entretanto, esses movimentos ainda não conseguiram concretamente chegar ao poder, em grande medida em decorrência das características apresentadas acima. A ausência de programa e o baixo nível de organização acaba fazendo com que suas ações sejam muito episódicas. A experiência chilena, entretanto, pode representar o primeiro avanço nesse sentido, a depender da correlação de forças eleita para a assembleia constituinte conquistada em plebiscito recente e da manutenção de sua capacidade de mobilização.


A outra reação foi o populismo de direita ou neofascismo, a depender da definição que se queira dar. Diante de ausência do futuro, apontaram ao passado e ofereceram, como apontou Luiz Eduardo Soares em livro recente[5], uma ancoragem ontológica em meio a um mundo de incertezas. Frente ao panorama de crise estrutural do capital, ofereceram como resposta o irracionalismo, o recrudescimento de preconceitos contra minorias, o nacionalismo chauvinista e a violência política. A culpa seria da população LGBTQIA+, das feministas, do movimento negro, dos imigrantes, dos petistas, ou das elites esquerdistas cosmopolitas... Tanto faz!


O fato é que esse discurso ofereceu uma aparência antissistêmica, conseguindo dialogar muito bem com determinados afetos e ressentimentos presentes em grande parte da população. Como caminho a seguir, não apontaram um programa, mas culpados que precisam ser exterminados. Também utilizaram muito bem as redes sociais, sobretudo para difundir desinformação e reforçar estereótipos preconceituosos. Diferentemente da direita tradicional, apostaram na mobilização popular. Esse campo teve mais sucesso até agora nas disputas politicas, tendo elegido Victor Orban, Donald Trump, Boris Johnson e Jair Bolsonaro.


As reações do campo popular, entretanto, já são visíveis. Vitórias, ainda que pequenas, começam a surgir em diversos fronts. Uma vez no poder, a direita neofascista mostrou que não tinha nada de antissistema. Pelo contrário, era o mais puro suco de sistema, tomando medidas que privilegiaram quase exclusivamente o 1% mais rico. Cabe a nós compreender essas contradições, reorganizar nossa prática, aprender criticamente com as experiências de luta da última década e construir uma alternativa de futuro viável. E socialista!


É possível - e necessário - recriar o futuro!


A leitura recente de Mark Fisher me apresentou ao conceito de hiperstição. Trata-se de uma crença sobre a realidade que, devido à sua ampla força de difusão, consegue se impor. Longe de qualquer idealismo, esse conceito pode ser útil se compreendermos as crenças a partir da disputa pela hegemonia, que também tem uma base material. O neoliberalismo conseguiu se manter por muito tempo por ter tido a capacidade de difundir amplamente a crença de que a história havia acabado e tínhamos chegado na única forma de sociedade possível. Era ruim, mas era o que tinha. Só nos restava a adaptação.


A história, obviamente, deixou claro que ela a luta de classes só acabará quando se findar a sociedade de classes. A crise de 2008 reabriu as perspectivas, mas foi a direita neofascista orientada para um futuro do pretérito que melhor se aproveitou dela. Isso muitas vezes nos deixa abatidos, faz com que desanimemos da luta, fiquemos ansiosos ou deprimidos. O futuro parece nos ter sido negado. Esse texto foi escrito por alguém que sentiu muito intensamente tudo isso nos últimos seis meses. Mas acreditar que as coisas não têm jeito é o primeiro passo para que realmente não tenham. As derrotas recentes de Trump nas eleições americanas e de Bolsonaro nas eleições municipais brasileiras. Até agora, quem se aproveitou dessas derrotas foram os antigos poderes oligárquicos, representados por Joe Biden e pelo “centrão”. Ainda não temos tantas vitórias a comemorar, mas podemos vislumbrar a possibilidade de que elas aconteçam. As vitória das forças populares no plebiscito do Chile e nas eleições presidenciais bolivianas demonstram que nosso continente pode ter um papel fundamental em apontar futuros mais justos.


O que quis demonstrar aqui foi que a capacidade de imaginar e se engajar na construção de um determinado futuro para a sociedade não é uma capacidade individual, mas coletiva. E que, como demonstramos na última década em grandes manifestações e ocupações, temos força. Nos falta, talvez, equilibrar melhor os valores da horizontalidade e da disciplina, do espontaneísmo e da organização, das individualidades e do comum, das cada vez mais múltiplas vozes e da capacidade de produzir sínteses a partir delas.


O capitalismo se mostra como a única forma de vida possível, mas ele é cada vez mais impossível se levarmos em conta o valor da dignidade humana. Cada vez mais indefensável e imoral. Cabe a nós construir, coletivamente, uma força política capaz de derrotá-lo. É possível! E necessário!


[1] DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A Nova Razão de Mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo, Boitempo, 2016. [2] FRASER, Nancy. O velho está morrendo e o novo não pode nascer. São Paulo, Autonomia Literária, 2020. [3] Ótimo texto sobre o tema foi publicado pelo camarada Rodolpho Borges aqui no Opção Popular: https://www.opcaopopular.com.br/post/identitarismo-mudando-tudo-para-manter-tudo-como-est%C3%A1 [4] FISHER, Mark. O Realismo Capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo? São Paulo, Autonomia Literária, 2020. [5] SOARES, Luiz Eduardo. Dentro da Noite Feroz: o Fascismo no Brasil. São Paulo, Boitempo, 2020.


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