• Opção Popular

Por um feminismo emancipatório e uma Esquerda Antipatriarcal

Observa-se que apesar de ser a Vanguarda na luta contra o imperialismo e o fascismo na América Latina o movimento feminista , não é incomum que muitas das mobilizações em massa recentes não venham propriamente de mulheres que se consideram feministas ou tenham sido convocadas pelo movimento feminista em si. Aline Rossi propõe uma reflexão para que a faísca acesa pelas feministas possa efetivamente se transformar em fogo revolucionário.



O avanço da extrema-direita no Brasil e no mundo deixam poucas dúvidas sobre a necessidade de radicalização do movimento feminista e de recuperá-lo para as massas de mulheres trabalhadoras.


Assim como aconteceu com outros movimentos sociais à esquerda, o movimento feminista foi duramente atacado e cooptado pelo neoliberalismo desde os anos 70 e 80. Através de uma verdadeira guerra de contrapropaganda, o neoliberalismo conseguiu frear boa parte do ímpeto revolucionário do movimento de libertação das mulheres e reduzi-lo a palavras de ordem vazias e individualistas como “empoderamento" e “liberdade de escolha”, que situam a solução da opressão no empreendedorismo individual invés de na luta coletiva por libertação.


Desde o apagamento da linguagem revolucionária – como acontece na questão do aborto, por exemplo, transformando “soberania reprodutiva” em “escolha”, algo que a maioria das mulheres trabalhadoras não têm – até a mercantilização do movimento através da mídia, fazendo de figuras completamente adequadas aos padrões patriarcais e capitalistas, como Beyoncés, Lady Gagas e Emmas Watson, em símbolos feministas.


Este ataque não é surpreendente, considerando quão dependente este sistema é do controle dos corpos e vidas das mulheres, algo que Engels já apontava em 1884 em “A Origem da Propriedade Privada, da Família e do Estado” e que autoras feministas têm aprofundado paulatinamente nos últimos cinquenta anos. O sistema capitalista neoliberal depende intrinsecamente do subjugo das mulheres para o seu processo de acumulação de capital. Seja para operarem como reprodutoras das gerações de trabalhadores; como cuidadoras não-remuneradas nas famílias proletárias, cumprindo duplas e triplas jornadas porque o Estado precariza e privatiza o acesso aos cuidados infantis, aos idosos, aos enfermos e aos serviços públicos em geral; ou como trabalhadoras precárias, como é o caso das mulheres camponesas, que produzem até 80% de toda a comida do mundo, mas são maioritariamente produtoras sem-terra, uma vez que detêm uma percentagem insignificante de terras no mundo todo.


Mesmo com a desmobilização e individualização promovidas pelas ideologias dominantes, e também com a desradicalização promovida pelo carreirismo e associativismo de instituições como a ONU, Otan e outros braços do imperialismo – que tiram militantes do movimento prometendo salários por um ativismo com rédeas, e que mesmo assim servem apenas para poucas privilegiadas –, as mulheres continuam a ser a vanguarda das lutas populares no mundo todo.


Foram as mulheres a maior expressão nas ruas contra Bolsonaro e o fascismo, levando milhares a marchar nas ruas do Brasil com o movimento #EleNão; também foram as mulheres que fizeram a maior marcha da década num movimento contra Trump, nos Estados Unidos. No Chile, Bolívia, Argentina, Egito, Palestina e Curdistão, as mulheres têm estado na linha de frente contra as classes dominantes e os governos autoritários, que atacam ferrenhamente os direitos humanos e as sociedades democráticas, eliminando qualquer possibilidade de uma vida comunitária livre de opressões e explorações.



Também é de se notar que, embora o movimento feminista tenha participado dessas insurgências, não é incomum que muitas dessas mobilizações em massa não venham propriamente de mulheres que se consideram feministas ou tenham sido convocadas pelo movimento feminista em si. As mulheres da classe trabalhadora estão tomando as ruas, mas não necessariamente por mobilização da Esquerda ou do feminismo. São explosões que, apesar de terem ímpeto e força, não estão organizadas e, por isso, podem não ter continuidade que uma luta política real necessita ou podem mesmo não serem consequentes como se pretendem. Em outras palavras, há um grande risco que percam a direção e sejam cooptadas (como aconteceu, parcialmente, em junho de 2013). Ou, talvez pior, que saiam dali massas indignadas, porém desiludidas, que chegam à conclusão de que a luta não é um caminho para a mudança. Como um pavio que se esgota rapidamente.



O outro lado desta moeda, a força e presença das mulheres trabalhadoras não-organizadas nas revoltas populares, é o crescente apoio feminino à extrema-direita, como aconteceu com Donald Trump, nos Estados Unidos, e Viktor Orbán, na Hungria. As pautas da direita parecem tão obviamente nocivas e inconciliáveis com a emancipação e o direito das mulheres, como pode esse apoio sequer existir?


Com as devidas especificidades de cada contexto, o fato é que as massas de mulheres não parecem estar especialmente alinhadas com a Esquerda, seja do movimento operário ou do feminismo. Ou capitulam à Direita ou, entre aquelas que permanecem firmemente no espectro político de esquerda e que não se aproximam da direita, continuam simplesmente afastadas. Porquê?


O movimento feminista e o movimento operário


A mesma questão que fez surgir o movimento feminista como um corpo autônomo da organização partidária e sindical nos anos 60 e 70 – e rendeu ao feminismo as acusações de “dividir a classe” e de ser “identitário” – continua a manter as mulheres separadas hoje. E se estamos realmente interessados em unificar a classe trabalhadora numa luta coletiva contra o sistema capitalista, precisamos aprender com os erros do passados e olhar com interesse verdadeiro ao presente enquanto sua consequência.


É sabido que o movimento feminista surge principalmente do meio norte-americano e europeu (embora mobilizações e resistências femininas sempre tenham acontecido no mundo todo). De volta às décadas de 60 e 70, uma grande parcela daquelas que iniciaram o movimento feminista – mais ou menos nas configurações que conhecemos hoje, como núcleos e coletivos autônomos – vinham, na verdade, do movimento operário, dos partidos e sindicatos.


Nos Estados Unidos, por exemplo, grande parte das mulheres vinha do Movimento pelos Direitos Civis, o movimento do Poder Negro, movimentos anti-guerra e da chamada “Nova Esquerda”. Os grupos independentes de mulheres ainda não existiam, havia um nível de diálogo e integração entre partidos, movimentos e sindicatos... Até o momento em que as mulheres tentaram colocar na mesa as suas pautas na Conferência Nacional de Novas Políticas de 1967 (a mesma em que negros exigiram 51% do poder de voto). Um dos episódios envolve a autora Shulamith Firestone, proeminente ativista na altura, que foi à mesa da conferência com as pautas formuladas pelas mulheres, recebeu literalmente um tapa na cabeça e foi convidada a sair e deixar as “questões importantes” para os camaradas. Claro, este não foi o único nem o último episódio


A “questão das mulheres” era constantemente secundarizada nos movimentos de esquerda, embora, na teoria, sempre tenha sido uma pedra de toque em se tratar de revolução. Na prática, contudo, era diluída na universalidade dos problemas que tocavam os homens: a pobreza, a exploração dos patrões, a falta de serviços públicos, a propriedade privada. Mas havia necessidades muito concretas que afligiam especificamente as mulheres, muitas vezes perpetradas pelos próprios companheiros e camaradas – como o assédio, abuso, estupro, agressão, o trabalho doméstico – e elas não estavam convencidas que desapareceriam com a propriedade privada se os seus camaradas não pareciam interessados em mudar as relações de gênero estabelecidas. Mais: podiam muito bem ter um interesse material na sua manutenção (afinal, é muito conveniente, por exemplo, não ter de fazer o trabalho doméstico, lidar com dupla e tripla jornada, entre outros benefícios do papel reservado ao macho), embora não ficasse bem a um revolucionário admiti-lo.



Dessa experiência material de que uns são mais iguais que outros na luta revolucionária, parafraseando Orwell, surgiram os grupos independentes feministas. Apesar da misoginia experienciada entre os camaradas – o que, francamente, podia fazer mulheres colocarem dúvidas sobre que tipo de sociedade construíram com aqueles homens e se seria, assim, de fato revolucionária ou apenas uma nova organização social construída sobre a velha misoginia – a ideia nunca foi o separatismo como um fim em si, o que seria altamente reacionário. Essa separação era vista como uma estratégia política necessária para suplantar a divisão que já existia no seio do movimento operário – isto é, a classe não foi dividida com a autonomização dos grupos feministas. A divisão já existia. Era fruto da sociedade de classes, não da organização política de grupos oprimidos.


A própria Shulamith Firestone via o separatismo como uma maneira de construir uma base de poder para as mulheres: “Não devemos vir como suplicantes passivas, implorando favores, pois o poder somente “coopera” com o poder. (...) Até que nos unamos em uma força a ser reconhecida, seremos tratadas de forma paternalista e ridicularizadas até a total ineficácia política.” (Firestone, folheto da Brigada Jeannette Rankin, janeiro de 1968).


O surgimento dos grupos não significava, evidentemente, o abandono automático dos sindicatos e partidos e outros movimentos. Muitas mulheres, nas décadas efervescentes do que hoje é apenas mencionado como a “segunda onda feminista”, continuavam a construir diferentes grupos simultaneamente. Afinal, o objetivo final do separatismo era tornar o separatismo desnecessário e inútil, era integrar com equidade.


Contudo, a partir dos anos 80, quando os movimentos sociais são maciçamente atacados, cooptados e dispersados pelo neoliberalismo, pela “academização” da militância e pela crescente tendência individualista, que transforma o ativismo numa jornada solo empreendedora, esse histórico de pontes, de diálogos, de luta pela integração e pela práxis revolucionária vai sendo enterrado.


Quando os movimentos voltam a se reconfigurar, já numa era de neoliberalismo sólido (“pós-globalização”, se é que já se pode dar como totalmente implementada essa fase neo-imperialista), o que nos resta é um separatismo reacionário, que não lembra suas bases e faz das identidades a sua luta última – e uma Esquerda que continuava a cometer o mesmo erro: secundarizar a luta das mulheres para resolver “depois da revolução” ou, com a crescente cooptação liberal, tokenizá-las cedendo a um discurso neoliberal vazio (detalhes mais à frente).


Aliás, à esquerda, o surgimento e fortalecimento gradual da Greve Internacional Feminista mostra de uma forma muito prática como esse universalismo e as ferramentas tradicionais de luta centrada no modelo capitalista de trabalho são insuficientes para responder às necessidades das mulheres. A greve laboral é apenas um dos quatro pilares da greve feminista, cujo coração é, na verdade, aquele que não é valorizado como trabalho, mas é explorado como tal e do qual o Capital sempre dependeu: o trabalho doméstico e reprodutivo, os “cuidados”.


Em Espanha, no ano de 2018, a Greve Internacional Feminista chegou a mobilizar 300 mil mulheres apenas na capital, Madrid, e foi ainda organizada em quase 500 cidades no total. Algumas cidades tiveram 24h a 48h de greve laboral convocada por sindicatos, nas quais as mulheres fizeram piquete, pararam centros comerciais e setores de serviços altamente feminilizados e precarizados em horários de pico (como restaurantes e supermercados) e, em algumas cidades e vilas interioranas, as mulheres rurais levavam seus tratores para as ruas e fecharam as estradas fronteiriças. Além disso, foram organizadas cozinhas comunitárias e espaços de cuidados infantis socializados, que não só serviam para possibilitar às mulheres da classe trabalhadora se juntarem à greve, mas também para promover o debate sobre o trabalho doméstico, reprodutivo e a socialização dos cuidados.


Isso é um nível de debate altíssimo para a conscientização dos trabalhadores contra o Capital, algo que afeta particularmente mulheres, e algo que jamais poderia ser respondido pela burocratização dos sindicatos – que, como bem apontou Selma James, acaba por omitir, com a sua estrutura, essa contradição básica do capitalismo, que é a massa de desempregados que o sistema necessariamente cria.


Estive em um dos encontros nacionais de organização da Greve Feminista espanhola e o que vi foi uma articulação que não encontrava em lugar algum há muitos anos, especialmente dentro da esquerda: ali estavam jovens estudantes, mães trabalhadoras e avós aposentadas; mulheres organizadas em partidos, sindicalizadas, mulheres anarquistas e mulheres que pela primeira vez na vida participavam de uma mobilização política. A movimentação com raízes locais, para atender às necessidades imediatas, com articulações nacionais, para ter poder de reivindicação suficiente, e internacionais – para espalhar o movimento.


Há algo que a Esquerda pode aprender sobre como as massas de mulheres, à esquerda, tem se organizado. E também sobre como reorganizar a luta de massas para o objetivo comum que temos no final. Mas, para já, passemos ao outro lado dessa moeda: as mulheres trabalhadoras e a Direita.


O apoio feminino à Direita


É difícil ignorar a quantidade crescente de mulheres que votam em candidatos da extrema-direita, como Bolsonaro, no Brasil, Trump, nos Estados Unidos, e até mesmo Viktor Orbán, na Hungria.


A mesma extrema-direita que invariavelmente se apoia no fundamentalismo religioso ou no militarismo exacerbado, ambas representações patriarcais no seu melhor, e que com seu programa “neoliberal na economia e conservador na prática”, precariza amplamente todos os serviços públicos, precarizando ainda mais a vida das mulheres trabalhadoras – com aumento de trabalho doméstico, veiculação de imagens regressivas sobre o lugar da mulher na sociedade e sua marca conhecida de repressão e criminalização de movimentos feministas (mas não só) – consegue angariar apoio entre mulheres, por mais que represente quase exclusivamente os interesses masculinos e da classe dominante.


Nós precisamos encarar isso com mais seriedade. Na maioria das vezes, o tema tem sido enquadrado num questionamento cretino de “o que há de errado com essas mulheres?”, uma espécie de afirmação de superioridade moral e intelectual que ignora que a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, como bem disse Marx. Se queremos recuperar esse apoio para a Esquerda, para a luta de massas, precisamos compreender o que leva as mulheres para a Direita. Ou, em outras palavras, o que faz com que essas mulheres se afastem da Esquerda.


Relativamente a Trump, por exemplo, que fez da sua campanha um show de misoginia – “Grab’em by the pussy” (agarrem-nas pela boceta), com abundantes denúncias de assédio e violação. Houve um claro oportunismo à esquerda de se entregar ao facilitismo de denunciar que muitas mulheres brancas votaram em Trump, tentando, com isso, falar dos interesses de classe em oposição à análise de sexo e gênero do feminismo – mas, enquanto análise superficial, só podia gerar tensões identitárias na base entre o feminismo e o movimento negro, como é óbvio. Em um artigo chamado “Além do contra-ataque misógino: mulheres e a extrema-direita”, Weronika Grzebalska e Eszter Kováts afirmam que esse enquadramento

“ignora a complexidade ideológica dos projetos de direita que não são simplesmente anti-mulheres, mas combinam elementos reacionários com o avançar de alguns interesses das mulheres. Ao apresentar a mulher de direita como o problema que exige reação urgente, (...) também desvia a atenção das causas estruturais que fomentam apoio à política de direita entre as mulheres.” (grifo meu)


Hillary Clinton, que certamente não seria uma alternativa diferente a Trump, não com seu enorme historial imperialista e colonialista de guerras, mas teve quase 3 milhões de votos a mais que Trump. Não é um número insignificante. A Direita tem usado a seu favor, simbólica e concretamente, discursos que foram associados a uma imagem progressista, mas que surgem essencialmente do neoliberalismo, como a ideia de “representatividade” (Damares Alves e Sérgio Camargo são exemplos disso no Brasil, e Jeanine Añez, que se autoproclamou presidente na Bolívia após o golpe a Evo Morales). Um trecho elucidativo de uma entrevista de Cynthia Enloe, feminista e professora de Relações Internacionais, sobre isso:


“Por exemplo, nas eleições presidenciais francesas de 2017, parece que havia uma diferença de apenas 6% entre a escolha de homens e mulheres em Emmanuel Macron invés de Marine Le Pen. Esta é uma diferença de gênero mais estreita do que nas últimas eleições francesas, nas quais um candidato da Frente Nacional da extrema-direita era uma opção viável. Foi importante que, desta vez, a Frente Nacional fosse liderada por uma mulher? Nós devemos descobrir. Outros partidos de extrema-direita, mesmo que profundamente masculinizados em suas culturas e plataformas organizacionais (por exemplo, a extrema-direita da Alemanha), apresentaram líderes femininos.”


Além da identificação com a figura política em termos de gênero, que é um mero adorno na análise da relação mulheres vs. extrema-direita, há uma questão muito mais central, que é o programa apresentado e o discurso que o embrulha para ser entregue às massas.


Em 2019, teve lugar a Cúpula da Demografia, uma conferência internacional organizada por Orbán em Budapeste, na Hungria, na qual o governo Bolsonaro se fez presente por representação da ministra Damares Alves, todos os discursos reforçavam a importância de recuperar a “família tradicional”, de combater as ideias sobre aborto e “homossexualismo”, a necessidade de endossar o “papel da mulher” na sociedade como mãe e dona de casa e os valores cristãos.


O discurso dessa cúpula é, nada surpreendentemente, em tudo idêntico aos discursos dos atiradores em massa – como o ataque à mesquita em Christchurch, Nova Zelândia. Nada surpreendente porque, como aponta Robin Morgan em seu texto “Outra vez os meios de (re)produção”, 70% dos ataques terroristas cometidos nos Estados Unidos, por exemplo, são levados a cabo por ultra-direitistas. Vejamos o que Morgan diz sobre o ataque, para comparar com o discurso da cúpulo de representantes parlamentares e estatais sobre políticas públicas e planos de governos:


“O assassino cristão branco de 50 mulheres, crianças e homens muçulmanos na Nova Zelândia divulgou um documento online, ‘A Grande Substituição’, antes de cometer o massacre na semana passada. As palavras de abertura, repetidas três vezes para dar ênfase, foram: ‘É a taxa de natalidade’. (...) Ele tinha nomeado seu documento (...) para ecoar o que os supremacistas brancos tinham gritado em Charlottesville, Virgínia, quando marcharam com tochas, cantando ‘Vocês não nos substituirão’. Esse é também o slogan do Identity Europa, outro grupo neonazista. (...). A ‘teoria da substituição’ influenciou fortemente nativistas como o político holandês Geert Wilder, e é um marco de partidos políticos direitistas e anti-imigrantes em toda a Europa. É uma extensão da teoria colonialista, enraizando-se no medo de que as mulheres brancas não tenham filhos suficientes, o que levará os brancos a serem substituídos pelo “Outro”. (...) Isso entrou de maneira mais alarmante na retórica da direita, mascarado como o anseio por um retorno aos "valores familiares" quando mencionado em noticiários com a FoxNews, onde Tucker Carlson se aproxima de dizer isso. Um membro da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, o congressista republicano de Iowa, Steve King, twittou no ano passado “Não podemos restaurar nossa civilização com os bebês de outra pessoa.” Foi o pano de fundo do “natalismo” que trouxe Trump à proeminência política, e está presente em todas as pistas e nas manipulações da comunicação sobre imigrantes, porque seu público sabe que uma taxa de natalidade mais lenta em alguns países ocidentais pode significar que a imigração se torna uma necessidade desejada para manter a população estável. (...) E as “políticas” vão desde a necessidade de reeducar as mulheres brancas até a necessidade de matar todos os que não são brancos.”


O ideal político baseado na natalidade (geralmente carregados na homofobia) e no controle da reprodução para uma geração “nacional” (em oposição a imigrante-invasor e, presumivelmente, racializada), a reafirmação dos “valores cristãos”, é exatamente aquilo que foi reproduzido na Cúpula da Demografia – exceto que aqui não estamos falando de um grupo de adolescentes “incels” na Dark Web, e sim de chefes de Estado definindo programas políticos. Que, aliás, é o que nos interessa nessa análise.


Como dito anteriormente, esse sistema depende necessariamente do controle da capacidade reprodutiva das mulheres para produzir gerações de mãos de obra (como também para cuidar delas, no trabalho doméstico não-remunerado, ou para servi-las, no trabalho remunerado precarizado). Isso foi verdade no período da acumulação primitiva e ainda é hoje. Por exemplo, Maria Mies fala sobre esse período em seu livro “Patriarcado e Acumulação de Capital em Escala Global”:


“Nesse período, começando por volta de 1760 e durando até cerca de 1800, mulheres escravas eram ativamente desencorajadas a ter filhos ou a formar famílias. Os fazendeiros, como bons capitalistas, sustentavam que "era mais barato comprar do que criar". Era assim em todas as colônias de açúcar, quer elas estivessem sob domínio católico (francês) ou protestante (britânico, holandês). De fato, as mulheres escravizadas que fossem descobertas grávidas eram amaldiçoadas e maltratadas. Além disso, o trabalho árduo nas plantações de açúcar não permitia que as mulheres escravizadas amamentassem bebês pequenos. (...) O efeito dessa política foi (...) que a "fertilidade" das mulheres escravizadas foi extremamente baixa durante esse período (...) Quando engravidavam, usavam ervas amargas para produzir abortos ou, quando as crianças nasciam, “muitas eram deixadas para morrer devido à aversão natural das mulheres em gestá-las para ver as crianças se tornarem escravas (...) O problema da escassez de mão-de-obra nas plantações no Caribe tornou-se tão grave, devido à greve das mulheres escravizadas, que em Cuba foram criadas "fazendas de procriação" e o cultivo de escravos tornou-se um negócio regular” (Maria Mies, Capítulo 3, 1986. Tradução livre)


Hoje, as imigrações são a nova forma de resolver os problemas de fertilidade nos países ricos com problema de natalidade. Em Portugal, por exemplo, que tem um governo de centro-esquerda (a “Geringonça”, união do Bloco de Esquerda e do Partido Socialista), o primeiro-ministro António Costa afirmou, em 2018, que o país “precisava de imigrantes” visto que a população está “mais envelhecida” e tem “cada vez menos jovens”. Uma vez que esperar uma nova geração de trabalhadores em idade e formação apta a trabalhar não é uma alternativa – visto que levaria cerca de 20 anos e muito investimento público nesse processo – a imigração cumpre a meta, “importando” trabalhadores já criados e formados – e, via de regra, mais baratos e mais facilmente “dispensáveis” que cidadãos nacionais.


Portanto, de que forma essas necessidades de gestão de mão-de-obra e os ideais e valores políticos (como os da extrema-direita: “cristão”, “família”, “hétero”, “patriota”) se traduzem nas campanhas políticas e programas de governo – estes que são as mensagens transmitidas à população e que vão, posteriormente, se traduzir em apoio ou afastamento relativamente à Esquerda ou à Direita?


Partidos de direita e extrema-direita (como o PSL no Brasil, o VOX na Espanha, o PiS na Polônia, ou o ADN na Bolívia) usam de retórica populista, como é sabido. E o que nos interessa é conseguir separar o quê, neste populismo, é apenas reflexo da “ideologia das classes dominantes” (como as promessas de Witzel de “matar bandido” ou de Bolsonaro de “acabar com a mamata”) daquilo que é uma urgência, uma necessidade sentida da realidade precária e explorada da classe trabalhadora – e é aqui que entra o apoio das mulheres da classe trabalhadora à Direita. Para implementar seu plano de “valorização da família tradicional”, a Direita fala em programas de incentivo à família. Por exemplo, como contam Grzebalska e Kováts:


“O exemplo paradigmático é Family 500+, um programa emblemático do PiS lançado imediatamente depois de chegar ao poder, que oferece às famílias uma transferência monetária mensal incondicional de 500 PLN (€120) por cada segundo filho e filhos subsequentes até os 18 anos, e para o primeiro filho em famílias com renda mensal abaixo de €190 por membro da família. Esta política de maior redistribuição desde 1989 diminuiu substancialmente a pobreza entre as famílias com crianças e recebeu apoio popular na sociedade. Enquanto a oposição corretamente aponta para suas limitações — especificamente, uma confiança no modelo tradicional de família que despreza famílias monoparentais — a medida prova ao eleitorado que seu governo de fato governa, e tem a capacidade de pressionar por um novo contrato social que respeite as suas dignidades.”


De uma perspectiva feminista, essa certamente é uma péssima política, como apontado pelas autoras; mas da perspectiva da realidade popular — da vida cotidiana imediata, não das ideias e dos horizontes —, essa política faz sentido. Ou melhor, faz falta. Especialmente em países como o Brasil, onde quase não há acesso ao aborto, ao controle reprodutivo, com planejamento familiar inexiste, assistência e saúde pública extremamente precários (especialmente em termos de acesso à população) e as famílias trabalhadoras, consequentemente, são numerosas e maioritariamente empobrecidas. Não é por menos que Bolsonaro, que ganhou as eleições disseminando notícias falsas, fez questão de “desmentir” repetidamente que não tocaria no Bolsa Família.


Não quero, aqui, assemelhar essa análise ao coro classista que, para criticar o assistencialismo dos governos petistas, acusava Lula e Dilma de “comprar votos” com o Bolsa Família. Trata-se, na verdade, de perceber quais são os anseios populares e compreender de que forma podemos respondê-los com políticas emancipatórias que se enquadrem no horizonte da esquerda um horizonte que caminha para a autonomia e conscientização revolucionária das massas trabalhadoras relativamente ao Capital, ao trabalho, ao regime e aos patrões.


Assim, resta a pergunta: que pautas e programas têm a Esquerda apresentado às mulheres?


À burguesia o que é da burguesia


É verdade que as pautas genéricas da Esquerda são, em todo caso, as pautas de toda a classe. A luta contra as privatizações, contra os planos de austeridade e arrochos salariais, contra o desmonte do Estado de bem-estar social, etc. É uma certeza, por exemplo, de que a privatização da saúde aumenta o trabalho reprodutivo e doméstico jogado nos ombros das mulheres. E certamente não há dúvidas que a precarização das escolas públicas, a falta de vagas e a privatização do ensino reforça o mesmo problema, tirando as mulheres da força de trabalho para voltarem ao papel de donas de casa cuidadoras da família – uma vez que o abandono paterno, a gravidez na adolescência e a falta de socialização dos cuidados na sociedade ainda é a situação dominante.


Contudo, voltamos à questão inicial do universalismo: sim, esses são problemas que afetam a todos os trabalhadores, mas há problemas específicos que preocupam as mulheres e que elas querem ver respondidos.


Políticos populistas da extrema-direita usam constantemente o discurso do “combate à violência” e “castração de estupradores” em suas campanhas. Também falam, como já analisado anteriormente, em programas orientados para a família — claro, programas reacionários no fundamento e no objetivo.


A violência sexual e a violência doméstica são tópicos que falam diretamente ao coração das mulheres. No Brasil, estima-se que 500 a 600 mulheres sejam vítimas de violência doméstica por hora. Doze estupros por minuto, considerando que apenas 1 em cada 10 são reportados — e a taxa de condenações para aqueles que são reportados é de menos de 2%. Além disso, se considerarmos o abandono paterno (mais de meio milhão de crianças sem o nome do pai na certidão), considerarmos que é o 4º país no ranking mundial de casamento infantil, se considerarmos os índices de gravidez na adolescência — e que isso é um eufemismo para não dizer que são sempre meninas, crianças do sexo feminino, que são casadas e que engravidam, geralmente de homens adultos — então claro que sim: programas orientados para a renda familiar são altamente apelativos.


Sabemos das contradições do programa populista da direita e extrema-direita, sabemos que eles não representam segurança, alívio ou melhoria para as mulheres — seja relativamente à violência ou à vulnerabilidade econômica e social. Mas assumir que toda a classe trabalhadora já sabe disso, e que isso é uma questão menor a ser tratada sobre a realidade das trabalhadoras em especial, é ser ignorante ou fazer-se cego à ideologia dominante, da alienação e da própria luta de classes. E não nos entreguemos ao facilitismo da cartada de que partidos da esquerda revolucionária não disputam eleições pelo reformismo, mas sim para transmitir o programa revolucionário: se não conseguimos sequer estabelecer um diálogo com a classe trabalhadora, falando de seus flagelos de forma a que sejamos ouvidos, a mensagem não será transmitida. E se já estão na disputa das eleições e já transmitem mensagens, de que forma os diferentes elementos da classe se reveem na mensagem transmitida? Estão entregando a mensagem certa no momento certo?


Agora, além da omissão das questões de urgência primária na vida das mulheres trabalhadoras, questões com as quais elas se identificam e nas quais se reveem, um ponto importante ao qual queria chegar é a defesa, por parte de partidos de esquerda (a chamada esquerda liberal), de programas anti-mulheres. Programas que beneficiam o capitalismo corporativista e que penalizam, sobretudo e antes de mais, mulheres da classe trabalhadora e geralmente em situação de extrema vulnerabilidade — como, por exemplo, propostas que legitimam o comércio sexual (legalizando bordeis e legitimando uma espécie de uberização patriarcal que oferece o “empreendedorismo” do “trabalho sexual” como saída para crises econômicas e o inevitável nível de desemprego criados pelo capital) ou que legitimam o comércio de aluguel de úteros (legalizando a compra e venda de “barrigas de aluguel”, um belo eufemismo para se referir à comodificação dos corpos das mulheres).


No Brasil, a proposta de legitimação do comércio sexual partiu de Jean Wyllys, através do PSOL, com o Projeto Gabriela Leite — que falava em reconhecer a profissão das “trabalhadoras do sexo”, permitindo que terceiros lucrassem até 50% dos ganhos da pessoa na prostituição e sem mencionar qualquer direito trabalhista (como licença maternidade, férias, insalubridade), para não mencionar a completa omissão relativamente às questões de risco de gravidez, aborto e outras situações impossíveis de ignorar em se tratar de sistemas de prostituição). Em Portugal, a proposta tem sido empurrada pela Juventude Socialista, do PS, com uma ampla propaganda do Bloco de Esquerda. Também são esses dois partidos que estão na defesa da regulamentação do comércio de barrigas de aluguel, contra a oposição solitária à esquerda do Partido Comunista Português. Não diferentemente, no Reino Unido, vários líderes do Partido Trabalhista já se pronunciaram a favor da legitimação do comércio sexual e da descriminalização dos bordéis.


Ora, se é verdade que, por um lado, estas não são as bandeiras principais levantadas pela esquerda, também é a verdade que tem sido a Esquerda a levantá-las de qualquer forma, mesmo que de maneira secundário, e a Direita evidentemente se aproveita dessas incongruências para fazer contrapropaganda. De um lado, mulheres trabalhadoras, sobrevivendo através das crises, sabem muito bem, da sua realidade material, que não há nada de glamuroso, emancipatório ou “empoderador” na prostituição ou na barriga de aluguel; não é esse tipo de poder que elas almejam ou precisam. Assim, é claro que as alternativas da Direita e da Igreja parecem mais reconfortantes (para mulheres que vivem no limiar da vulnerabilidade social e experienciam a violência sexual e masculina desde a mais tenra idade, castrar estupradores certamente parecerá melhor alternativa do que chamá-los de clientes e pagá-las por isso).


É preciso relembrar, por exemplo, de Oscar Maroni, famoso proxeneta e dono de bordéis que festejou a prisão de Lula, com elogios e quadros de Sergio Moro, enquanto expunha uma mulher de forma violenta numa festa tipicamente de culto à masculinidade. Oscar Maroni apoiou ativamente a campanha de Bolsonaro. E Maronis são os tipos favorecidos quando a Esquerda defende esse tipo de projetos — não as mulheres trabalhadoras e exploradas por tipos como ele.


Se a Esquerda quer disputar a afinidade e a consciência da classe trabalhadora, precisa parar de ceder às agendas neoliberais anti-mulheres. Precisa falar a linguagem e das necessidades das mulheres trabalhadoras. Citando Mao, “As mulheres levam sobre seus ombros a metade do céu e devem conquistá-lo”. Não devemos ignorar o populismo da Direita ou debochar de seus discursos como se de uma disputa de superioridade moral se tratasse: devemos tirar lições disso. Sobre a Direita e sobre as necessidades de nossa classe — que é, sobretudo, o sujeito político desta luta. Andrea Dworkin, autora feminista reconhecida pela sua luta antiprostituição e antipornografia, escreveu em seu icônico livro “Mulheres de Direita”:


Um dos motivos pelos quais a Direita alcança tantas mulheres é porque a Direita tem um deus transcendental que diz que irá curar toda sua dor e sofrimento, todas suas feridas, ‘Eu morri por você, eu curarei você’. Feministas não têm um deus transcendental que possa curar desta forma. Nós temos ideias sobre equidade e justiça. E nós temos que achar formas de transformá-las em realidade.” (Vida e Morte, 1997)

Isso também se aplica à Esquerda e à forma como se comunica com as mulheres trabalhadoras.


E agora para a Esquerda e o Feminismo?


De um lado, um movimento feminista cooptado pelo neoliberalismo e pelas políticas de identidade, reduzido à camisetas massificadas de Frida Kahlo e teses abstratas acadêmicas. Do outro, uma Esquerda fragmentada e invadida por discursos neoliberais, muitas vezes defendendo agendas anti-mulheres, negando seu passado histórico, e recebendo de troco a velha contrapropaganda da Direita, empurrada goela abaixo da classe trabalhadora. Entre ambos, igualmente equidistantes, as mulheres da classe trabalhadora.


Nesse momento, vemo-nos numa encruzilhada em que não há outra alternativa que não unir esforços e estabelecer pontes entre a Esquerda e os movimentos sociais mais amplos em seu espectro. Lenin já escrevia sobre a necessidade de disputar espaços reacionários, mas este não é o caso: não falamos da burguesia reacionária, falamos de mulheres da classe trabalhadora que manifestamente querem se organizar e que estão, como expectável, sendo bombardeadas pela ideologia dominante, e mesmo aquelas engatinhando na prática do ativismo, seja em movimentos marxistas ou dentro dos círculos feministas, têm sido cooptadas pelo discurso neoliberal.


Começamos pelo separatismo e agora precisamos encará-lo e aprender a trabalhar não só com ele, mas através dele, pois o inimigo em comum, o Capitalismo, e o inimigo entre nós – a misoginia, o racismo, a homofobia e a lesbofobia) – avançam uma agenda de retrocessos sem precedentes que esmagará qualquer grupo que se mantiver isolado ou que fizer as alianças erradas (alô, PT!).


Não é altura para isolamento, e tampouco alguma vez foi altura para concessões. Com a reorganização da Direita e seu avanço político no mundo, urge criar pontes, romper as fronteiras e sectarismos, sem que isto seja feito às custas dos sujeitos políticos dos movimentos e com vista grossa para os problemas contra os quais os movimentos sociais lutam. Para conseguir trabalhar juntos, movimentos e partidos, será necessário radicalizar não só o discurso, mas também a prática. E, às vezes, a coisa mais radical a se fazer é dizer as coisas como elas são.




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