Se alguém respira aliviado com a transição na Casa Branca, é mais prudente voltar a prender o ar (1)

Na primeira parte deste artigo, o historiador *Gustavo Costa e Silva analisa os antecedentes históricos da eleição de Donald Trump, mostrando que muito longe de ser uma exceção em meio à normalidade democrática estadunidense, ele é um produto das contradições presentes no desenvolvimento histórico daquela sociedade.



Os acontecimentos que ocorrem no plano internacional quase sempre são determinados pela política externa estadunidense. Não por acaso as eleições no país norte-americano mobilizam observadores e analistas de todos os matizes e quadrantes do globo. Devido a essa atenção especial a cada quatro anos, é comum que algumas percepções gerais provoquem interpretações enganosas e caiam em armadilhas confortáveis, deixando escapar que as verdadeiras transformações na política externa dos EUA não são pautadas pela transição do poder na Casa Branca, mas pelas transições históricas movidas por fatores diversos que obrigam o país a repensar estratégias. Isso não significa, no entanto, que as próprias eleições não possam coincidir com esses momentos históricos.


No último dia 20 de janeiro, o democrata Joe Biden ocupou a mesa do salão oval da Casa Branca, tornando-se o quadragésimo sexto presidente dos EUA, pondo fim ao quadriênio de seu rival republicano, Donald Trump, agora delimitado pela história como o único presidente dos EUA a carregar a distinção de ter sido derrotado duas vezes consecutivas pelo critério do voto popular. Essa particularidade do candidato derrotado é apenas um reforço singelo a certo coro já amadurecido e manifestado por setores liberais, à esquerda e à direita, inclusive no Brasil, que situam a administração Trump como o ponto fora da curva, uma dissonância aberrante com ecos de distopia que durante quatro anos ameaçou interromper fatalmente a sinfonia da democracia mais antiga do mundo moderno – arrastando o mundo todo à barbárie. Devido a essa percepção de alerta, a vitória de Biden deu ânimo a amplos setores do campo progressista, que voltam a abaixar a guarda não necessariamente por nutrir esperanças com o novo governo, mas por acreditar que a civilização volta a reclamar seu lugar por direito, que o diálogo voltou à mesa de negociações e que o enfretamento se dará em melhores condições. A aversão ao republicano no campo liberal-progressista era tanta que o pessoalismo utilizado por Biden “Eu não sou o Trump” significava uma vantagem automática.


Expressão recorrente em jornais de orientações mais ou menos variadas para se referir ao resultado das eleições de 2016 foi “apocalipse” – o próprio “Relógio do Juízo Final”, instrumento simbólico criado em 1947 para representar o quão próximos estamos da catástrofe global, avançou alguns segundos pela primeira vez em décadas quando anunciada a vitória de Trump. O famoso documentarista estadunidense Michael Moore, ao analisar a vitória do republicano no filme Fahrenheit 11/09, questionou peremptoriamente: “Como diabos isso foi acontecer?”. De fato, como alguém racista, negacionista, xenófobo, sexista, de tendências no mínimo filo-fascistas foi eleito por 60 milhões de pessoas? Parecia o crime perfeito contra o “sonho americano”. Ninguém soube de onde veio, mas agora Trump teria pelo menos quatro anos com amplos poderes no comando da nação mais poderosa do planeta.


O que sugiro neste texto, publicado em duas partes, é um duplo movimento de reflexão: primeiro, uma breve contextualização histórica da política externa estadunidense no século XXI, relacionando seus desdobramentos à ascensão de Trump – deixando de considera-lo a doença. Na segunda parte, conectar esses processos históricos a prognósticos sobre a administração Biden a partir da formação de seu governo. Se continuarmos, contudo, considerando o período 2017-2020 a partir dos marcos da excepcionalidade irregular, nos limitaremos, ou melhor, nos condenaremos a observar apenas um sintoma de uma verdade muito mais incômoda: a de que Trump não representa um ponto de virada, uma dissonância abrupta, mas reconhecer que, nas condições em que assumiu o poder, foi apenas mais um maestro reproduzindo a mesma sinfonia. Uma sinfonia em crise.


A pax americana no século XXI


Se Trump de algum modo transmite a aparência de crise das utopias, voltemos por um breve momento ao período por excelência da ­real falência das utopias. Talvez a ruptura mais radical na sucessão do poder nos EUA nos últimos cem anos tenha sido provocada pela administração republicana de Ronald Reagan (1981-1989). Não por ter virado em alguma curva impensável, mas por ter acelerado a roda da história rumo à barbárie que marca a fase de transição de um novo padrão de acumulação de capital, a que chamamos neoliberalismo, dando contornos a uma nova racionalidade ultra-individualista que se alimentou da derrota e dissolução do bloco socialista. Herdeiro por excelência do macarthismo [1], promoveu propaganda e perseguição fanáticas contra o movimento organizado dos trabalhadores. Desregulamentando a economia, abriu espaço para que a velha classe capitalista abalada pelas crises e pelas pressões do movimento comunista pudesse ressurgir e assumir novos papéis.


A era Reagan marca o início de um novo ciclo histórico que definiu a política dos EUA, rearranjando inclusive a correlação de forças do sistema bipartidário. O próximo democrata a ocupar a Casa Branca foi Bill Clinton em 1993, o primeiro de seu partido a ter sido reeleito desde a Segunda Guerra Mundial. Essa façanha não se deve, poderia se pensar, a uma aversão aos anos ultraconservadores que tiveram seu ápice durante a administração Reagan, mas precisamente porque Clinton foi um dos presidentes mais conservadores da história moderna dos EUA. Um continuador da política anterior. Em verdade, ele transformou o Partido Democrata naquilo que o Partido Republicano havia sido décadas antes. A tática democrata para cooptar o eleitorado republicano permitiu, como efeito colateral previsível, que o seu partido rival também avançasse algumas casas à direita – abrindo espaço para a hegemonia da ala cristã-sionista. De acordo com Luiz Alberto Moniz bandeira, autor caro à esquerda anti-imperialista (termo que infelizmente não infere pleonasmo), os EUA sob Clinton tiveram seu “momentum imperial”, atuando internacionalmente como superpotência hegemônica, como único centro de autoridade que apontava o neoliberalismo como o governo por natureza da atividade humana e das nações do mundo todo [2].


Não só intervenções externas começaram a aumentar, como foi durante a administração Clinton que uma nova doutrina militar foi desenvolvida - executada e aperfeiçoada nos governos seguintes -, conformando uma nova fase em busca da hegemonia global dos EUA e do capital financeiro num mundo pós-Guerra Fria. Desenvolvida pelo Departamento de Defesa, a doutrina do “Espectro de Dominação Total” permitiu aos EUA declarar uma cruzada de guerra permanente por tempo indeterminado até que consumada a hegemonia global irrivalizável. Na administração de seu sucessor, George W. Bush, os neoconservadores do Partido Republicano daí partiram para aumentar os gastos com defesa militar e recrudescer as relações com países não alinhados ao consenso neoliberal. Assegurar o acesso exclusivo às fontes de energia do Oriente Médio (onde localizam-se mais da metade das reservas de petróleo do mundo), afastando competidores, tornou-se uma questão de segurança nacional num momento em que os principais analistas do governo previam o aproximar de uma crise energética. Preservar a segurança nacional traduziu-se em “guerras preventivas”.


Os atentados no 11 de setembro de 2001 foram a galinha de ovos de ouro para os que esperavam por uma oportunidade que trouxesse apelo popular o suficiente para galvanizar a rapinagem neocolonial do Afeganistão e Iraque sob um discurso de combate ao terrorismo da Al-Qaeda e Taliban – antigos aliados dos EUA. Os índices de aprovação de Bush rapidamente passaram de 40% para 90%. Os declarados objetivos de construir um oleoduto atravessando o Afeganistão – região estratégica que implica interesses da Rússia e faz fronteira com China e Irã, o bloco eurasiano que obstaculiza a hegemonia totalizante dos EUA – era o que realmente importava ao lobby guerrista do Império Americano, e não perseguir antigos aliados agora convertidos em inimigos como Osama Bin Laden.


Em entrevista ao Democracy Now! em 2007 [3], o ex-comandante-em-chefe da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), o general Wesley Clark, descreveu o plano elaborado pela administração Bush de atacar sete países em cinco anos – Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e Irã. Regiões consideradas pontos de tensão cujos governos deveriam ser removidos por outros mais “dóceis”. Bush iniciou a operação arrastando soldados e geólogos de multinacionais petrolíferas para o Iraque a troco de aproximadamente 600 mil iraquianos mortos [4] e toda uma geração arruinada.


A “guerra ao terror” de Bush revelou-se um retumbante fracasso extremamente custoso ao erário do país. O combate ao terrorismo não surtiu outro efeito senão criar maiores ameaças e desestabilizar regiões inteiras. Entregou um país dividido, às portas da maior crise econômica desde 1930 agora causada por bolhas especulativas; o padrão de acumulação neoliberal iniciado na década de 1980 apresentou sinais de esgotamento e declínio. As classes mais pobres, não obstante o desemprego, tiveram seu poder de consumo reduzido pela inflação. O abismo da desigualdade se alargou. Entre 1979 e 2005, a renda dos mais pobres aumentou 1,3% ao ano, ao passo que a renda o 1% mais rico teve um aumento de 200% [5].


Nessas condições o democrata Barack Obama assumiu o país com um discurso poderoso sobre união e esperança, mas ambivalente no que concerne ao intervencionismo externo. A escolha por Obama deixa transparecer o desespero das elites em ceder a um quadro externo que conseguisse reverter a corrosão interna que ameaçava os anseios dos excepcionalistas [6] por um novo “século americano”. Conquanto tenha reformado parcialmente o sistema de saúde, não mudou essencialmente as diretrizes políticas de seu antecessor. Manteve os imperativos do complexo industrial militar cuja influência cresceu a ponto de tornar-se não um poder paralelo, mas um poder de facto.


O presidente deu continuidade à privatização dos serviços militares iniciada em massa nos governos anteriores, concedendo contratos bilionários a empresas de mercenários como a Blackwater. No Iraque, por exemplo, foi forçado a retirar as tropas – ato que provocou jubilosos elogios da comunidade internacional e uma indicação ao Nobel da Paz -, mas a ocupação continuou com 5 mil mercenários a cargo da empresa Kellogg Brown & Root Services Inc [7]. De acordo com Moniz Bandeira, em 2012 havia 113.491 mercenários de empresas privadas atuando no exterior empregadas pelo Pentágono, uma força inescrupulosa conhecida por violações aos direitos humanos que incluem execuções sumárias de civis e abusos sexuais.


No fim de seu primeiro mandato o país chegou a um impasse. Lutando em duas guerras desastrosas herdadas pelo governo anterior, mantendo cerca de 800 bases militares em praticamente todo o globo e ainda planejando o orçamento para a continuidade do plano “sete países em cinco anos”, os custos se tornaram astronômicos. Em 2012 a dívida pública ultrapassou 16 trilhões de dólares, cifra maior do que o PIB do país naquele ano. O dinheiro dos contribuintes utilizado para salvar o sistema financeiro – isto é, salvar Wall Street - ultrapassou à época 19 trilhões de dólares [8]. O imperativo, no entanto, continuou sendo ditado pelo poder de facto. Planos de recuperação fiscal impuseram cortes às despesas militares, mas sem adiar os compromissos do militarismo e do sistema financeiro que buscava ampliar zonas de investimento. Os EUA possuem o privilégio de imprimir uma moeda aceita no mundo todo, o que lhe concede uma permissividade única no tocante a suportar déficits e a dívida. A estabilidade nacional foi posta em segundo plano diante dos interesses da burguesia transnacional.


Na ocasião em que foi laureado pelo Nobel da Paz em 2009, Obama defendeu que os EUA nunca iniciaram uma guerra contra uma democracia, e que a força pode ser justificada por motivos humanitários. Foram esses princípios que levaram os EUA a formular uma ofensiva simultânea de 2011 a 2015; uma “operação humanitária” que contou com o financiamento de sublevações mercenárias em países aliados como o Egito e intervenções diretas catastróficas na Síria, Líbia, Iêmen – os últimos dois afundados no terror fundamentalista – e Ucrânia – cuja ingerência externa dos EUA colaborou para a consolidação do primeiro governo fascista do século XXI.


Durante anos os EUA pressionaram à base de sanções para a que Líbia se desarmasse como suposta condição para o reatamento das relações entre os dois países. Quando levantes populares tiveram início em Trípoli em 2011, o leviatã global precisou agir. Os jornais venderam uma mobilização popular contra mais outro baluarte do despotismo árabe – eis a fórmula da “Primavera Árabe”. Desarmada e vilipendiada pelo discurso ocidental, a OTAN interviu para promover a mudança de regime. Muammar Gaddafi foi brutalmente assassinado por uma seita de mercenários pagos com dólares americanos, chafurdando o país numa miséria nunca antes experimentada na Líbia republicana. Cerca de 70 mil civis foram mortos. Uma década depois, conflitos antes adormecidos e facções terroristas islâmicas salafistas continuam aterrorizando a população numa disputa fratricida para ocupar o vácuo de poder deixado pela intervenção da OTAN. Se a Líbia já foi um país soberano, hoje é um não-Estado. O país que possuía o maior Índice de Desenvolvimento Humano do continente assiste ao retorno do tráfico de escravizados. A Líbia hoje é uma paisagem na qual o humanitarismo da democracia ocidental é a miragem de um oásis que dissipado revela o deserto da tragédia de um povo.


Sob a alegada acusação de violação aos direitos humanos, os EUA aliaram-se às petromonarquias do Golfo Pérsico para insuflar conflitos sectários, financiar e treinar terroristas – a quem Obama chamava “rebeldes moderados” – enviados para lutar em suas guerras contra governos que compunham a agenda “sete países em cinco anos”. As armas usadas por terroristas para destruir a Líbia foram enviadas para outros terroristas na Síria, Iraque, para as fronteiras do Irã e até mesmo Ucrânia. Franquias de grupos como a Al-Qaeda e o Daesh (Estado Islâmico) proliferam pelo Oriente Médio, Ásia Central e Norte da África. A doutrina militar do século XXI, escamoteada pelo discurso da “guerra ao terror”, é uma guerra permanente e por procuração, cujos inimigos de ontem são os aliados de hoje contra ameaças potenciais – eis a Doutrina Obama.


Certa vez o presidente Harry Truman (1945-1953) insistiu que ao criar a CIA jamais teve a pretensão de transformá-la numa unidade de espionagem, e que durante sua época na Casa Branca o presidente não tinha qualquer meio para coordenar as informações que vinham do mundo. Sete décadas depois, Obama assumiu poderes nunca antes exercidos por outro presidente dos EUA, tornou-se expressão dos desígnios do complexo industrial militar, dirigindo operações secretas que incluem uma famigerada kill list pessoal [9], uma lista de alvos internacionais escolhidos a dedo pelo presidente para serem assassinados. Destacando-se como o único presidente da história dos EUA a ter passado oito anos em guerra, Obama deixou a Casa Branca para adentrar ao panteão dos campeões da guerra, cujos crimes contra a humanidade fazem coro aos fantasmas nos salões dos Tribunais de Nuremberg.


Até dezembro de 2020, a tentativa frustrada de derrubar o regime baathista sírio (uma guerra planejada por um republicano e executada por um democrata) já tirou a vida de quase 600 mil pessoas [10] e trouxe dor a incontáveis. A barbárie nua da democracia ocidental expressa-se na relação com o Iêmen. Movida por uma coalização liderada pela Arábia Saudita, a guerra provocou a maior crise humanitária da história recente. Mais de 80% da população precisa de ajuda essencial, e a ONU estima que em 2021 mais da metade da população iemenita irá passar forme [11]. Ao passo que desde o início da guerra em 2015 os EUA já doaram ao país 2,56 bilhões de dólares para ajuda humanitária, já vendeu – também sob Trump - mais de 13 bilhões [12] em armas sofisticadas para os parceiros sauditas continuarem bombardeando o país sitiado.


Yes, we can, dizia o slogan de Barack Obama. Ao visitar países islâmicos, encerrava discursos com a saudação Salaam Aleikum – “que a paz esteja com você”. É curioso como essa junção de expressões parece dar um sentido macabro e profano à saudação imperial. Sim, nós podemos. Que reine sobre vocês a pax americana.


O longo “sono” americano


As eleições que deram a vitória a Trump foram as primeiras marcadas pelo uso ostensivo de ferramentas até então não generalizadas ao debate político eleitoral. Seria uma afirmação grosseira dizer que as chamadas fake news são uma novidade da última geração, que jornais de credibilidade apreciada nunca apelaram aos fundamentos da mentira para manipular a opinião pública. O que se pode cravar é que a manipulação midiática deixou de ser monopólio dos que arvoravam pra si a exclusividade profissional desse direito. Na era da informação, onde supostamente a veracidade das notícias pode ser apurada com facilidade, as redes sociais – principalmente Facebook e Whatsapp, mas também blogs e fóruns amadores – tornaram campanhas de desinformação mais eficazes ao retirar do conteúdo o propósito final e apostar na forma como elemento aglutinador e contestador.

Com os resultados da eleição de 2016, o Partido Democrata, parte da imprensa do país e setores da população civil lançaram-se numa busca por razões que decifrassem a vitória de Trump - o candidato que o establishment não consegue explicar. E assim o fizeram, erguendo uma narrativa na qual não apenas campanhas maciças de desinformação – fake news - movidas pela máquina republicana condicionaram de maneira criminosa e antiética o julgamento da opinião pública, mas denunciando principalmente por meses a fio que o governo russo interviu diretamente nas eleições para favorecer a vitória de Trump em detrimento da então candidata democrata, Hillary Clinton.


A acusação de que hackers russos pagos pelo Kremlin sabotaram as eleições de 2016 foram respaldadas pelos principais serviços de inteligência do país – Agência Central de Inteligência (CIA), a Agência Nacional de Segurança (NSA) e o Bureau de Investigações Federal (FBI) –, que reuniram num relatório confidencial supostas provas que corroborariam tal acusação [13]. Contudo, a narrativa da reação democrata é incapaz de explicar a ascensão de Trump como o fenômeno histórico que de fato é: não o resultado de novas conspirações movidas por velhos inimigos, mas desdobrado das próprias contradições internas do Império Americano, da crise de uma população cada vez mais empobrecida e arrefecida diante dos desígnios político-dogmáticos de hegemonia global de governos dependentes da crescente influência do complexo industrial militar.


Os primeiros sinais do descontentamento da população não apenas com a administração democrata, mas com o ciclo histórico iniciado em 1980 pode ser observado na derrota expressiva do partido nas eleições parlamentares de 2010, que deu aos republicanos maioria na Câmara dos Representantes. Mais do que isso, o movimento Tea Party que congrega elementos identificados com seitas fundamentalistas de extrema-direita teve sua ascensão no Partido Republicano, liderando oposição total num período de crescente desigualdade. É nesse cenário que surge Donald Trump.


Desde as primárias, Trump apresentou-se não como o candidato republicano, mas como o candidato anti-establishment. Atacou o governo Obama, assim como condenou abertamente a administração Bush por ter levado o país a lutar em “guerras sem fim” sob altas expensas dos contribuintes que nada tinham a ver com conflitos em regiões distantes, recebendo a simpatia de famílias e de veteranos. Vendido como um outsider, alguém que veio de fora da política que havia levado o país até aquele ponto, sua imagem contrastava-se perfeitamente com a rival democrata, Hillary Clinton, cuja experiência na política remontava à década de 1990, tendo passado pela Casa Branca como Secretária de Estado do governo Obama. Despargindo no debate político soluções heterodoxas mais eficazes na forma do que na elaboração do conteúdo – característica de Trump –, o republicano também pautou questões urgentes negligenciadas pelos democratas que lhe deram grande e poderoso capital político. Uma das mais decisivas para sua vitória provavelmente refere-se ao proletariado do rustbelt – o “cinturão enferrujado”. A classe trabalhadora marginalizada pela globalização.


Situado nos estados de Ohio, Winsconsin, Virgínia, Michigan, Illinois, Iowa e Pennsylvania a região é historicamente conhecida por já ter sido um grande polo de industrialização que chegou a concentrar mais da metade de toda atividade industrial dos EUA no período pré-Segunda Guerra, até entrar em declínio severo a partir das políticas neoliberalizantes da era Reagan na década de 1980. O processo de desindustrialização derivado da busca por novos mercados transferiu diversas fábricas e empregos para indústrias offshore – países onde a exploração da força de trabalho é mais barata - como o México e China, facilitado através de adesão a blocos econômicos como o NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) e o TPP (Parceria Transpacífica). Essa fuga de capitais estimulou a estagnação econômica e altos níveis de desemprego, revertendo-se numa diminuição do padrão de vida do proletariado da região. A adesão de parte da população desses estados ao programa de Trump precisa ser considerada.


Parte expressiva do eleitorado republicano vive nas regiões do interior, assim como o Partido Democrata tem maior adesão nas metrópoles. Explorar essa dicotomia é parte integrante da plataforma republicana há décadas. Mas o que Trump fez foi explorar na região o ressentimento da classe trabalhadora branca desempoderada e empobrecida, que viu seu padrão de qualidade de vida ser derrocado em favor dos interesses financeiros da burguesia orientada pela globalização do Consenso de Washington [14]. A primazia do programa de Trump consistiu na promessa de recuperação de empregos com soluções que pareciam simples e que foram expressas didaticamente.


Na prática, defendeu uma conduta protecionista de modo evitar a fuga de capitais e de empregos. Daí a retirada dos EUA de um dos maiores acordos de livre comércio do mundo, o NAFTA (que incluía o México), o recrudescimento das políticas anti-imigração, a expansão do muro e os vetos a vendas de empresas privadas para estatais chinesas. Alegando preservar os interesses primordiais dos EUA, retirou-se de organizações multilaterais como Unesco e tratados como o acordo nuclear com o Irã. Do mesmo modo, seguiu defendendo um isolacionismo traduzido numa espécie de retorno ao período “pré-Pearl Harbor”, isto é, um período no qual os EUA buscavam não se envolver em conflitos diretos em outros continentes (exceto o latino-americano).


O que deu a Trump o atributo anti-establishment (e uma base eleitoral sólida) foi sua condenação ao intervencionismo e ao imperialismo financeiro como os principais causadores das crises internas e da perda de posição dos EUA frente à China no cenário mundial. Desse modo, sua vitória na eleição também foi o botão de alerta acionado por frações da elite que buscavam ser preservadas. Uma maneira de reagrupar-se para repensarem o novo ordenamento do sistema geopolítico através do reordenamento das forças internas.


Centrais sindicais que historicamente compunham a base do eleitorado democrata se indispuseram com o partido devido a sua ação ineficaz perante as consequências da desindustrialização. Mais pessoas negras e latinas, aversas às recentes relações de quadros democratas com políticas de encarceramento em massa, votaram no candidato alegadamente antissistema. O que elegeu Donald Trump não foram hackers pagos pelo governo russo, nem mesmo fake news – embora estas tenha sido importantes. Fatores diversos e combinados – apenas pincelados aqui - pavimentaram sua vitória, como o ultranacionalismo de uma classe trabalhadora branca esquecida e esmagada pela globalização da ordem neoliberal, que diante de uma crise geracional foi cooptada pelo discurso da extrema-direita que associa seu desamparo à omissão de um sistema que supostamente teria passado tempo demais tratando de políticas raciais. Um sistema alegadamente liberal cujo intervencionismo externo se choca com os interesses do “bom americano”. À equação se soma a estratégia republicana de priorizar as regiões do interior, que encontra lastro numa forte aliança com igrejas evangélicas locais. Terreno fértil para a proliferação e aproximação de seitas fundamentalistas com milícias paramilitares racistas. Uma junção de fatores que vulgarizam o debate político à proporção de uma pretensa luta mítica pela alma da nação.


Por todos os ângulos, a vitória de Trump é incômoda ao Partido Democrata por evidenciar que seu programa é ditado pelos interesses de Wall Street e do complexo industrial militar. Clinton perdeu precisamente por ser a candidata mais bem preparada para assumir o cargo, por estar associada ao guerrismo dos últimos trinta anos. A vitória de Trump veio para despertar ressentimentos através do característico discurso fascista. Minorias tornam-se o bode expiatório de setores impregnados por um ethos ultranacionalista, por uma percepção autoiludida em si mesma, isto é, por um padrão e estilo de vida – vendido como real para todos embora não o seja - visto como único e superior, que quando é despedaçado e o fascínio é rompido, não se consegue apontar as causas de sua destruição, que parece repentina e sabotada por grupos ingratos. Nesse momento a ilusão do “sonho americano” revela-se o despertar abrupto de um longo “sono”. E alguém precisa ser responsabilizado. São nesses momentos que a história parece sofrer uma guinada que nos levará ao precipício. É na falha em conseguir apreender o movimento do real desses momentos que muitos se perguntam em direção aos céus: “como diabos isso foi acontecer?”.


*Gustavo Costa e Silva é professor de História na rede estadual de Minas Gerais. Estuda o socialismo soviético e a política externa dos EUA.


[1] No auge da Guerra Fria durante a década de 1950, o senador Joseph McCarthy, um dos mais notáveis anticomunistas de sua época, iniciou uma virulenta “caça às bruxas” perseguindo comunistas e alegados simpatizantes, obrigados a depor diante do Comitê de atividades Antiamericanas. Alimentando a paranoia de que comunistas infestavam todos os níveis da sociedade estadunidense, o “macarthismo” reprimiu sindicatos, ameaçou e prendeu lideranças de trabalhadores organizados, destruiu carreiras de artistas da música e cinema, e removeu professores de universidades e escolas.

[2] BANDEIRA, Moniz. A segunda Guerra Fria: geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos: das rebeliões na Eurásia à África do Norte e ao Oriente Médio. 4. ed., rev. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. p. 38.

[3] https://www.youtube.com/watch?v=FNt7s_Wed_4

[4] Iraqi Dead May Total 600,000, Study Says: https://us13.proxysite.com/process.php?d=b4sBdYA%2FrbTIS%2BVQlbFV%2FlEEY7SnBgMoBsWhkwawDurxMBVogWYCoKEhyH48YI4PREA7z3%2BUwFypMhvj9BA97jw%3D&b=1&f=norefer

[5] “Desigualdade social nos EUA é a maior desde a Grande Depressão”: https://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/2008/04/08/ult579u2429.jhtm

[6] Incorporando a tradição judaica do povo escolhido, o excepcionalismo diz respeito a uma crença que remonta à própria formação do país, segundo a qual seu desenvolvimento e história fazem dos EUA uma nação singular, diferente de todas as outras. Destinado à grandeza e superioridade, os EUA devem então exercer um papel particular no mundo. Ao longo dos séculos essa crença foi sendo atualizada, do Destino Manifesto ao Espectro de Dominação Total.

[7] Idem, p. 128.

[8] Idem, p. 130.

[9] Secret ‘Kill List’ Proves a Test of Obama’s Principles and Will: https://www.nytimes.com/2012/05/29/world/obamas-leadership-in-war-on-al-qaeda.html.

[10] On International Human Rights Day: Millions of Syrians robbed of “rights” and 593 thousand killed in a decade: https://www.syriahr.com/en/195385/

[11] “ONU: mais de 80% da população do Iêmen precisa de ajuda humanitária”: https://news.un.org/pt/story/2015/11/1532841-onu-mais-de-80-da-populacao-do-iemen-precisa-de-ajuda-humanitaria; e “Chefe humanitário diz que prioridade no Iêmen é evitar uma fome massiva”: https://news.un.org/pt/story/2021/01/1738782.

[12] “Novos dados chocantes mostram como os EUA estão abastecendo a violência no Iêmen”: https://revistaopera.com.br/2020/12/02/novos-dados-chocantes-mostram-como-os-eua-estao-abastecendo-a-violencia-no-iemen/

[13] “Um guia para entender o escândalo dos “’hackers russos’”: https://revistaopera.com.br/2017/01/08/um-guia-para-entender-o-escandalo-dos-hackers-russos/

[14] BUB, J. P; BLUM, G. O Nacionalismo nos Estados Unidos no contexto pós-industrial: o caso do Rust Belt. In: Anais do Congresso de Relações Internacionais no Mundo Atual - RIMA. Anais Curitiba (PR) Centro Universitário Curitiba - UNICURITIBA, 2019.



  • Branca Ícone Instagram
  • Ícone do Twitter Branco

© 2020 Opção Popular