• Opção Popular

Sofrimento ético-político, exclusão e inclusão. Psicologia social à luz de Bader Sawaia.

Atualizado: Jan 30

Numa série de dois artigos, Rafaela Martins aborda aspectos da conceituação de exclusão e inclusão sob um olhar marxista, a partir da contribuição de Bader Sawaia, Cientista Social e doutora em Psicologia Social. Confira a primeira parte dessa abordagem:



Na transição do século XX para o século XXI eventos históricos demarcaram a concretização do capitalismo enquanto economia mundial predominante. Um evento que pode ilustrar o momento foi a queda do muro de Berlim, marcando simbolicamente a concretização do liberalismo econômico e a presença do capitalismo como a única via da história. Neste período a política brasileira, assim como em outros países latino-americanos, passava por grandes mudanças e transformações tanto econômicas como sociais.

Após a Segunda Guerra Mundial a Psicologia Social buscava explicar os comportamentos humanos baseando-se em procedimentos e técnicas que visavam garantir melhor qualidade de vida para as pessoas, assim, utilizou técnicas para que se ajustassem ao contexto social da época, partindo de “causas” internas, como traços de personalidade, atitudes, motivos, quando não por instintos para entender os seres humanos. Porém, este tipo de ação criava uma dicotomia entre sujeito e sociedade, sendo eles tratados como fenômenos distintos, sendo assim, esta intervenção não estava de fato resolvendo questões sociais como a desigualdade e exploração que gerava violência, greves e miséria.

Com a Psicologia Social em desenvolvimento e constantes questionamentos teóricos a seu respeito a psicóloga Silvia Lane apresentou uma dúvida, que também se colocava como desafio, e atravessava docentes e alunos: “Compreendemos como o indivíduo é influenciado pela sociedade, mas como ele poderá se tornar autor desta sociedade, como ele poderá ser responsável pelo curso da história?” (LANE, 1981). No Brasil, esta “crise” na Psicologia traz também outra questão pertinente: a atuação do psicólogo social e a aplicabilidade das teorias desenvolvidas.

Nesta conjuntura no qual existe uma “crise” da Psicologia Social e sua ação na sociedade, onde o avanço capitalista e de políticas neoliberais vêm sendo cada vez mais consolidadas, os conceitos relativos aos processos de inclusão e exclusão social vêm sendo discutidos. O termo exclusão é amplamente utilizado por diversas áreas de conhecimento, sendo muitas vezes entendido como desigualdade, injustiça e exploração social. De acordo com Bader Sawaia “Um conceito […] que carrega qualquer fenômeno social e que provoca consensos, sem que se saiba ao certo o significado que está em jogo”.

Assim, considerando o trajeto percorrido pela Psicologia Social e seus questionamentos quanto a sua prática e o neoliberalismo econômico que mascara a inclusão tratando-a como mera apropriação de mercadorias e imagens, e sujeitos cada vez mais individualizados e influenciados pelo mercado, o presente texto busca apresentar e discutir a respeito de algumas contribuições da cientista e psicóloga social Bader Sawaia a respeito da inclusão e exclusão para a Psicologia Social. Para isso o texto será organizado em duas partes: na primeira a apresentação dos conceitos de exclusão e inclusão, e do sofrimento ético-político cunhado pela autora, no segundo texto, que será publicado em Fevereiro, uma discussão sobre a exclusão e inclusão e seus aspectos psicossociais tendo a afetividade como categoria de análise para estes dois primeiros conceitos citados.


Exclusão e inclusão


A palavra exclusão pode ser comumente entendida como ação ou efeito de excluir, de segregar, de deixar de fora ou afastar pessoas de um círculo social. A discussão sobre os processos de exclusão partiram de análises que consideram suas causas oriundas do rápido e desordenado processo de urbanização, o desenraizamento causado pela mobilidade profissional e as desigualdades de renda. Porém ainda existem muitas dúvidas no que diz respeito a este conceito.

O conceito de exclusão social vem sendo discutido há décadas não apenas no campo da Psicologia, mas também Antropologia e Sociologia. Este conceito, como citado, pode ser muito utilizado, porém a sua definição pode ser imprecisa e duvidosa. De acordo com Sawaia (2014) o conceito de exclusão permite usos retóricos de diferentes qualidades, desde a concepção de desigualdade como resultante de deficiências ou inadaptação individual, falta de qualquer coisa, um sinônimo do sufixo sem (less), até as noções de injustiça e exploração social.

A autora busca delinear o conceito de exclusão, sem eliminar suas ambiguidades, mas apresentá-las, e entende que estas não revelam exatamente erro ou imprecisão, “mas complexidade e contraditoriedade que constitui o processo de exclusão social, inclusive a sua transmutação em inclusão social” (SAWAIA, 2014b, p. 7). Segundo ela o conceito de exclusão muitas vezes é discutido analisando-se apenas uma de suas características, como as análises econômicas ou centradas no social e acaba-se por diminuir ou reduzir as análises sobre a exclusão como fenômeno complexo.

Em uma sociedade de classes todos nós estamos inseridos, em condições mais ou menos dignas, no sistema das atividades sociais e econômicas, em que a grande maioria da população (classe média, média baixa e baixa) vive privações e exclusões causadas pelo sistema econômico e que também se desdobram para fora dele, como exclusões no trabalho ou em outros grupos sociais, por exemplo. Por este motivo o conceito de exclusão não é um conceito rígido, e sim dialético, pois configura-se a partir de dimensões materiais, políticas, relacionais e subjetivas, podendo apenas existir em relação à inclusão, pois também constitui-se nela. A exclusão é um produto do sistema no qual o homem se integra, é um funcionamento, e não uma falha dele.

Para analisar o fenômeno da exclusão social e seu funcionamento multifacetado Sawaia considera a afetividade como um dos pontos centrais para sua análise, pois, perguntar sobre as emoções, a afetividade, nas análises sobre exclusão, nos permite “superar a concepção de que a preocupação do pobre é unicamente a sobrevivência e que não tem justificativa trabalhar a emoção quando se passa fome” (SAWAIA, 2014c, p. 100). Para ela a exclusão não é mera condição social e sim um processo que envolve diversas esferas da vida humana, o que inclui o sofrimento.

Assim, ao considerar a afetividade, colocamos no centro da análise o modo como o homem se relaciona com seu entorno (bairro, família, trabalho, sociedade), recuperando este indivíduo esquecido nas análises sociais exclusivamente econômicas e políticas. Segundo a autora, não refletir sobre o sofrimento, os aspectos afetivos que atormentam o cotidiano, a política, inclusive aquela que se autodenomina revolucionária, torna-se apenas uma abstração e instrumentalização dos homens.


O sofrimento ético-político


Para analisar a afetividade Sawaia recorreu aos autores Baruch Espinosa, Agnes Heller e Lev Vygostsky, os quais ofereceram referenciais analíticos que romperam com o pensamento tradicional de considerar a afetividade como algo negativo ou antagônico à razão e à ordem nas análises sociais. Os autores acima citados concebem a emoção positivamente, como constitutiva do pensamento e da ação, coletivos ou individuais, bons ou ruins, e como processo imanente que se constitui e se atualiza com os ingredientes fornecidos pelas diferentes manifestações históricas, visto aqui, como elemento fundamental da condição humana.

De acordo com Sawaia e seus estudos sobre Espinosa, este autor foi levado a estudar os afetos, pois tentava entender porque a maioria dos homens aceitava e defendia as imposições e autoridades de monarcas gananciosos indo contra os interesses de melhorias do próprio grupo. Conforme a informação de Sawaia sobre Espinosa: “Sua hipótese é a de que a paixão constitui caminho à compreensão e ao combate da servidão e da tirania, pela sua positividade, pois ela é base da ética, da sabedoria e da ação coletiva democrática, tornando-se negativa, quando associada a ignorância e à superstição” (SAWAIA, 2014c, p. 102). Segundo a autora, Espinosa considerava o medo e as condições políticas de desigualdade, geradoras, mantenedoras e facilitadoras da superstição.

Ao considerarmos os estudos de Espinosa sobre mente e corpo os quais, para ele, são elementos indissociáveis, necessariamente estamos incluindo o corpo do sujeito nas análises, considerando as emoções como ético-políticas, ou seja, incluindo o corpo estamos incluindo seres humanos ativos e não apenas uma ideia de o que define um ser humano e suas potencialidades. De acordo com Peixoto Júnior (2013) sobre Espinosa, é pelo corpo que contatamos a realidade do mundo, com os outros corpos nos quais interagimos. A mente não é apenas um reflexo do corpo, mas parte dele, de seu pensamento e de sua relação com outros seres humanos. Agnes Heller, filósofa marxista e também leitora de Espinosa contribui para o entendimento da exclusão através da afetividade como fenômeno ético-político ao falar sobre a vergonha e culpa. Para ela “A vergonha e a culpa são apresentadas como sentimentos morais generativos e ideologizados com a função de manter a ordem social excludente, de forma que a vergonha das pessoas e a exploração social constituem as duas faces de uma mesma questão”.

As emoções por serem sociais, são também históricas e estão em constante mudança. Heller também faz reflexões acerca da dor e do sofrimento. Para ela a dor é algo inerente à vida humana, inevitável e diz respeito à capacidade humana de sentir, de estar envolvido à algo e ser afetado por outros corpos. Já o sofrimento é a dor advinda das injustiças sociais, da miséria e da opressão. Porém o sofrimento, para Heller, nem sempre é sentido por todos, e sim por aqueles que vivem a situação de exclusão.

Lev Vygotsky contribui para o entendimento do sofrimento como ético-político, pois diz respeito ao significado e à linguagem. Para Vygotsky as emoções não são “entidades absolutas” do psiquismo, mas são significadas no fazer cotidiano, que afeta nosso funcionamento psicológico. Sendo assim, as relações sociais e o ser biológico se comunicam através da relação semiótica que estabelecem, desencadeando a ação e o pensamento. O produto desta relação é a compreensão do significado, que leva o homem a agir não pela sua ordem biológica, mas sim pela ideia. Assim, o significado é um fenômeno que envolve diferentes funcionamentos da vida humana, sendo sempre social e histórico. Como o sofrimento ético político é sempre social e histórico, e assim como a história e a cultura se transformam com o tempo, o sofrimento ético-político também varia historicamente, sendo estruturado pelo processo de exclusão social vigente de sua época: raça, gênero, idade e classe.

Um dos exemplos que a autora nos apresenta para explicar o processo deste sofrimento e sua relação com as afecções do corpo é uma doença chamada “banzo”, que afligia os homens negros que foram escravizados no Brasil caracterizando-se pela profunda tristeza ao verem sua família e seu povo em condições desumanas de tortura trabalho forçado que os levava à morte. Esta situação nos exemplifica o sofrimento ético-político referente (aqui especificamente) a exclusão racial e de classe, imposta histórica e socialmente pela dominação de povos do continente africano, resultando em seu sofrimento. Em síntese, o sofrimento ético-político abrange as múltiplas afecções do corpo e da alma que mutilam a vida de diferentes formas. Qualifica-se pela maneira como sou tratada e como trato o outro na intersubjetividade, face a face ou anônima, cuja dinâmica, conteúdo e qualidade são determinados pela organização social” (SAWAIA, 2014).

Desta forma podemos perceber o resultado de organizações desiguais e dominantes que inferem diretamente na afetividade de seus indivíduos, resultando em seu sofrimento e dor que surgem ao serem tratados como seres inferiores e sem valor, sem poder se apropriar da sua cultura, de se mover no espaço público e expressar seus afetos. Assim destaca-se, com base no que foi apresentado, que o sofrimento ético-político diz respeito a um sentimento que não é individual, ou seja, sentido apenas pelo indivíduo em si mesmo, mas de sua percepção do todo, da percepção da desigualdade coletiva que o inclui, estando em coesão com a lógica excludente à sua volta. Isso implica em dimensões econômicas, sociais e relativos à atribuição de significado, portanto a autora inclui a dimensão psicossocial da afetividade para dimensionar o modo como exclusão e inclusão compõe-se de modo indissociável e dialético na vida das pessoas.

O contraponto ao sofrimento ético-político é a felicidade pública. Diferente de outras emoções momentâneas associadas a alegria, a felicidade pública, assim como o sofrimento ético-político, “é sentida quando se ultrapassa a prática do individualismo e do corporativismo para abrir-se à humanidade” (SAWAIA, 2014).

Em suma, o sofrimento ético-político diz respeito ao sentimento que parte do indivíduo dentro de um contexto político, econômico, social e cultural. Aflige aquele que percebe, de alguma forma, sua condição excluída, desalojada, a dor individual e coletiva da desigualdade e os seus impactos na vida cotidiana. O sofrimento ético-político nos conta os efeitos dilacerantes de um sistema grosseiro e desumano que tem nome: capitalismo.



197 visualizações

Receba nossas atualizações

  • Branca Ícone Instagram
  • Ícone do Twitter Branco

© 2020 Opção Popular