Via Eleitoral ou Greve Geral? O Fora Bolsonaro entre duas táticas.




Escrevemos este texto pela necessidade de compreender não só o 24J, mas todo o ciclo de manifestações desde maio de 2021. Entramos, assim, em uma nova etapa do embate contra Bolsonaro, o que exige a produção teórica e afirmação clara da linha política a seguir daqui em diante. Justamente por respeitarmos e acharmos absolutamente fundamental a unidade de ação entre as diversas forças de esquerda para a derrocada de Bolsonaro, fazemos a crítica das posições em jogo. Para um leninista, a unidade de ação não exclui a possibilidade da crítica, mas a incorpora; a crítica, efetuada de forma objetiva, responsável e em seus espaços adequados, é um momento da unidade, jamais seu avesso. Com a firmeza necessária, mas no espírito da camaradagem, damos nossa contribuição apresentando a linha que acreditamos correta para seguir daqui em diante.


A INSATISFAÇÃO POPULAR E O CICLO DE MANIFESTAÇÕES


As gigantes manifestações que marcaram os últimos meses são fruto de intensa insatisfação popular com o governo de Bolsonaro e Mourão, reunindo pontos de conflito tanto entre as massas trabalhadoras quanto na institucionalidade burguesa. Em maio, início das manifestações, tínhamos já 460 mil mortos pelo projeto de morte do governo, mais de 100 milhões de brasileiros e brasileiras em situação de insegurança alimentar, privatizações irrestritas somadas a um ataque cada vez mais forte aos direitos dos trabalhadores, aumento vertiginoso de itens básicos (combustível, gás, energia elétrica, saneamento básico), violência policial, dentre outros inúmeros fatores.


De forma não tão apartada disso, a própria institucionalidade burguesa coloca certa pressão no governo federal ao instalar a CPI da COVID, que revelaria ainda mais escândalos de corrupção e deixaria nítida não só a negligência do governo com a pandemia, mas sua função ativa na propagação do vírus. O episódio envolvendo Pazuello selou definitivamente a imiscuidade de um amplo setor do Partido Fardado com Bolsonaro, dando a este mais um elemento para seus frequentes testes de força, incentivando motins e mobilizando sua base fascista.


Tudo isso provocou a necessidade de resposta por parte da classe trabalhadora, porque mesmo com tudo isso o chamado Centrão não pautou o impeachment. Esse fato esclarece que as forças burguesas que compõem a institucionalidade do Estado estão apenas interessadas em bodes expiatórios e não em atingir, nem ao mínimo, as causas da crise humanitária brasileira. Este é um dos pontos principais do que está em jogo aqui, a nível da análise de consciência de classe dos movimentos e organizações, tanto na leitura das manifestações até agora e seus motes, quanto na direção a seguir.


A eleição de Arthur Lira para a presidência da Câmara dos Deputados serviu para frear as manifestações que, de forma embrionária em meados de janeiro, se organizavam como carreatas em diversas cidades, incluindo a nossa Alfenas. Um ponto importante a se observar é que a consciência de classe materializada na intencionalidade posta pelo movimento não pode ser facilmente desprezada, tanto que as carreatas e as manifestações a partir do 29M surgiram com certo protagonismo dos movimentos e partidos mais radicais, não só em Alfenas como em diversas regiões do país. A própria firmeza com que elas seguiram até o 24J mostra o potencial para a radicalização das lutas, em franco contraste com 2013. Colocar o povo na rua para derrubar Bolsonaro apesar da oscilação de diversos setores progressistas e no meio de uma pandemia não é pouco.


Chegamos ao fim do calendário de lutas aprovado no início de julho e um novo ciclo se inicia. O 24J, apesar de ter sido realizado em um número maior de cidades que os atos anteriores, reuniu um número menor de manifestantes por ato. O objetivo mais imediato buscado pelas manifestações e que constituiu o caldo espontâneo do movimento, isto é, o impeachment de Bolsonaro, não foi alcançado. Isso não significa, de modo algum, uma derrota, mas evidenciou a profundidade de nossas dificuldades, para as quais devemos responder à altura. Tal resposta, entretanto, não deve permanecer no plano abstrato do pensamento, mas deve se desenvolver através do avanço organizativo.


É por este motivo que, em termos de práxis vemos duas linhas de ação opostas entre si, porque implicam práticas sociais diferentes.[1] Uma advoga a inclusão da candidatura Lula 2022 no Fora Bolsonaro e a outra propõe a construção da Greve Geral. A seguir, apresentamos os motivos pelos quais apostamos na segunda.


O BOLSONARISMO E A REPÚBLICA


O apoio do Centrão a Bolsonaro, ainda que às custas da cessão de poder e cargos, revela bem a Unidade contra a qual devemos mover nossos esforços: a unidade na estratégia neoliberal, conduzida há pelo menos 50 anos em nosso país por uma burguesia oligárquica e latifundiária que não foi devidamente enfrentada com a redemocratização. O bolsonarismo é a regressão neocolonial do país através do ultra-liberalismo e do fundamentalismo cristão.


Não podemos confiar nem um pouco nas intenções da burguesia e não podemos fazer o seu jogo de formular uma nova República estéril para legitimar seus interesses e eliminar o povo trabalhador da política. O bolsonarismo é, afinal, o desvelamento das intenções da classe dominante e veio a calhar para ela pois permite que amplos setores que a compõem se coloquem como democratas ou “civilizadas”, o que nunca foram.


O Brasil, como país de economia dependente, de passado colonial e escravagista, sofre com especial intensidade as misérias do capitalismo. Nosso Estado se formou como escritório de uma classe dominante que, predominantemente, não precisa promover desenvolvimento interno nem melhores condições para a classe trabalhadora. Uma classe dominante parasita, que superexplora o trabalhador aqui para atender as necessidade do mercado internacional.


Isso não significa que alguns setores, que criticam Bolsonaro, não podem ser nossos aliados táticos. No entanto, essa aliança não pode rebaixar nosso programa, já há muito rebaixado por um hegemonia eleitoreira e conciliatória. Vivemos um genocídio perpetrado por um governo proto-fascista, nossas pautas já não foram rebaixadas o suficiente?


A inclusão de Lula 2022 no Fora Bolsonaro não significa outra coisa que não este recuo da perspectiva revolucionária e da oposição consequente ao proto-fascismo. Para uma perspectiva eleitoral, a pressão pelo impeachment produz certos atritos que prejudicam a formação de alianças no sentido que elas têm em nossa Nova República, isto é, de pactos político-econômicos. A tática é velha e não há nada mais parecido com uma receita de bolo que isso: deixar seu oponente perder popularidade vagarosamente e derrotá-lo nas eleições, mesmo que isso custe abrir mão do próprio programa.


GREVE GERAL E PODER POPULAR


O bolsonarismo deixou claro do que nossa burguesia é capaz. Nossa função não é fortalecer líderes de esquerda que frequentam os palácios dos assassinos e nos negociam com eles. Precisamos construir poder popular e autonomia de classe para enfrentar as classes dominantes e se negociar for preciso, que tenhamos força para subjugar a burguesia às nossas pautas, que são as pautas da humanidade e da vida. Não é afagar e tranquilizar a burguesia para que a queda de Bolsonaro não signifique perda em seus lucros, mas arrancar dela a queda de um filho mais ou menos rebelde, mas legítimo. Apenas a mobilização e organização da classe trabalhadora podem provocar resultados efetivos para a própria classe trabalhadora.


É justamente para isso que devem estar voltadas nossas ações: construir a contraofensiva dos trabalhadores e aprofundá-la com um forte trabalho de massas, realizado das bases à direção, da menor organização de um bairro até a produção teórica em debates avançados sobre o estágio atual do imperialismo. É preciso enfrentar anos de hegemonia liberal respaldada pela própria esquerda. Nossa finalidade, mas também nosso meio, é a Greve Geral. É ela que dará o dinamismo necessário para mover nossa esquerda absorvida por demais à institucionalidade burguesa; é ela que permitirá que a análise da correlação de forças sirva para apontar caminhos de avanço e não para prostrar-se frente à realidade.


Para finalizar, ilustramos nossa perspectiva através da nota do Partido Comunista Brasileiro:


“Portanto, no interior da ampla unidade de ação forjada para derrotar o Governo de Bolsonaro, Mourão e Guedes, é preciso reforçar a nossa aliança fundamental, a espinha dorsal da nossa luta por um novo rumo para o Brasil: os movimentos sociais e populares, os trabalhadores da cidade e do campo, a juventude, os intelectuais progressistas e todos aqueles que estão dispostos a lutar pelas transformações radiciais em nosso país. Por isso, esse campo deve se tornar cada vez mais forte, cada vez mais enraizado nos bairros, nas escolas, nos locais de trabalho para se tornar uma alternativa real de poder. E quanto mais fortes estivermos mais influenciaremos em todos os outros setores da vida social brasileira.”


[1] Esta separação não é uma atividade de “divisionismo e sectarismo”, mas uma constatação objetiva. Basta reparar como os textos de orientação política não mencionam as duas propostas ao mesmo tempo. Textos que pedem Lula 2022 não mencionam a Greve Geral e vice-versa.