A exploração da mulher e da natureza na sociedade de dominação capitalista

Nesse artigo, Isabela Alves aborda as diversas formas de exploração feminina que se dão em nosso dia a dia, e como essa questão está atrelada a estrutura sob a qual a sociedade capitalista foi erguida. Muito se fala sobre a necessidade de ser anticapitalista, dentro de qualquer movimento social ou partido de esquerda. Geralmente partindo do princípio que o capitalismo, e mais precisamente a racionalidade neoliberal que nos atravessa nesse momento da história, é o cerne de várias mazelas sociais. Mas mesmo assim, o sistema capitalista resiste, porque explora de maneira violenta aqueles que oprime. se você chegou até aqui, ajude a financiar este espaço de mídia independente, fazendo sua assinatura solidária clicando aqui Para essa sobrevivência do sistema é necessário que novas estratégias - como a ultrapolítica - sejam criadas por parte da elite e dos governos capitalistas, para despolitizar e manter a população sobre seu controle, para que ela aceite a opressão como natural. Os discursos usados além de manter o povo alienado e sem consciência real da ordem sistémica que está por trás das desigualdades e das explorações, aumenta o ódio, o preconceito e a violência com parcelas da população que sempre sofreram ataques por estarem em posição social desfavorável dentro da lógica do sistema. As mulheres, as pessoas negras, as pessoas LGBTQI+, os povos originários assim como a natureza passam por extrema vulnerabilidade, num momento onde a extrema direita domina vários lugares do mundo. No recorte proposto aqui, será feito um paralelo entre meio ambiente e a luta feminista, seus pontos em comum, sua exploração como sendo necessária para manutenção do sistema patriarcal capitalista, e a necessária organização em torno de alternativas para uma sociedade sustentável. No Brasil as desigualdades de gênero, a violência contra a mulher e a devastação da natureza em detrimento do acúmulo de capital, não são “méritos” apenas do governo de Bolsonaro. Mesmo em governos de cunho progressista, tais violências voltadas para o gênero feminino e o meio ambiente acontecem. Porém num governo autoritário, que usa da ultrapolítica como forma de narrativa e de despolitização, que mantém sua base consentida a todas suas ações, as explorações se intensificam pelo discurso de ódio. Alguns casos recentes, como o aborto da criança que sofreu abusos sexuais ao longo de anos, e que viu sua história exposta por conservadores que eram contra o aborto. O caso da influencier digital Mariana Ferrer, que apesar de todas as provas contra o suspeito de drogá-la e estuprá-la, viu seu abusador ser inocentado “por falta de provas”. Os incêndios do pantanal, negligenciados pelas instituições governamentais que deveriam proteger nossa fauna e flora, e que o presidente culpou os índios pelas queimadas, são alguns dos tristes exemplos, que mostram como a dominação do capitalismo patriarcal e o discurso de ódio reverbera de maneira a atacar as vítimas das situações de violência, mascarando os fenômenos sociais reais que envolvem os crimes. Tais narrativas fantásticas, que absorvem o senso comum, que muitas vezes são baseadas em preconceitos, “apenas precisam fazer sentido”¹, não cabendo análises profundas, e os oprimidos pela estrutura social e econômica passam a ser os culpados por suas tragédias. Isso é o que se chama de ultrapolítica, quando se cria uma falsa guerra contra um suposto ‘inimigo’ ². O intuito dessa forma de discurso é a despolitização da população, a falta de senso crítico diante os fatos, que faz com que a mesma necessite de um “salvador”, que preserve a moral, a família e a religião, mantendo o status quo, e livrando o país de supostas ameaças comunistas, ditas como o mal a ser derrotado. A ultrapolítica não se restringe apenas ao bolsonarismo, mas podemos ver os reflexos de seu discurso nos vários campos institucionais. Como no caso referido acima de estupro da jovem influencier, no julgamento ocorrido em agosto deste ano, o advogado do acusado usou frases extremamente machistas contra a influencier, usando até mesmo de suas fotos nas redes sociais como motivo dela não ser alguém confiável³. Uma foto foi até mesmo alterada por photoshop, para dizer que a vítima se exibia na internet. Em nenhuma das ofensas dirigidas a influencier, o juíz advertiu o advogado, apenas em um momento que ela se encontrava muito abalada e precisou de um tempo para se recompor4. A título de curiosidade, Claudio Gastão da Rosa Filho, advogado do suspeito, foi também advogado de Sara Giromini ou Winter5, como é conhecida nas redes sociais. Youtuber de Ultradireita, que atualmente está presa devido a investigação de financiamento de atos antidemocráticos, e também é investigada pela disseminação de fake news6. Já no caso da menina de apenas dez anos, que teve repercussão nacional e internacional, houve uma intensa movimentação de pessoas conservadoras, de extrema direita, novamente com envolvimento de Sara Winter, que divulgou os dados pessoais da criança na inernet. A comoção dessa extrema direita, baseada em narrativas de fundamentalismo religioso, que também são usadas na ultrapolítica como forma de explicar situações de opressão, deixou claro que a preocupação com a vida, com saúde física e mental do ser humano, é a última de suas preocupações. Todavia os dois casos onde duas mulheres tiveram seus corpos violados, e foram apedrejadas pelo conservadorismo, também houve resistência, tanto na Internet, como protestos locais onde os fatos ocorreram. Movimentos feministas estavam presentes, e mostraram que apesar dos chamados “tempos sombrios” do Brasil, ainda existe a luta, a organização e a busca pela libertação das mulheres e de todas as formas de opressão. Assim como nós mulheres temos nossos corpos violentados de inúmeras maneiras, a natureza passa pela mesma exploração, obrigada a dar conta das necessidades de acúmulo do capitalismo. As queimadas no pantanal muito ao contrário do que diz nosso presidente, que culpabilizou os indígenas e outros povos tradicionais da região mascarando o culpado real, que é o avanço desenfreado do agronegócio. Com o uso da técnica, a natureza passa a servir ao homem. Essa relação da técnica e da terra, permeadas pelo domínio do homem, não é algo que foi sempre dado. A agricultura e a colheita eram atividades feitas pelas mulheres, depois com o advento da técnica do arado e da irrigação, os homens passaram a dominar a agricultura7. Além da relação da agricultura, a mulher e a natureza eram veneradas. Na mitologia grega, a Mãe Terra, Gaia, é uma das primeiras representações de divindades na humanidade, que também era cultuada pelos povos pagãos como os viking e os celtas7. A fertilidade da natureza e da mulher era vista como um poder, nesse período histórico mulher e natureza eram sagradas 8. A relação entre os gêneros era pautada em cooperação. Essa parceria entre os gêneros nas épocas paleolíticas e neolíticas foi sendo transformada pela dominação dos homens, devido ao início das guerras por territórios, onde povos invasores cultuavam deuses da guerra masculinos e influenciavam os territórios ocupados. 8 Com a noção de fertilidade, também vem a relação do cuidado e proteção, ambos atribuídos a mulher e a Mãe Terra. Com o surgimento do capitalismo, a reprodução social usou dessa mulher vista como ‘cuidadora’, para delegar a ela a responsabilidade da produção de pessoas, que precisavam aprender os papéis sociais da sociedade capitalista, para serem futura mão-de-obra ao próprio capitalismo 9. Esses conceitos de cuidado e proteção que permeiam o ideário da “mulher ideal”, justifica até mesmo uma das vertentes do Ecofeminismo, movimento que prega a junção da luta feminista alinhada a luta ecológica. O Ecofeminismo é uma linha de pensamento que surge em meados dos anos 70 com Françoise d’Eabounne, feminista francesa. Ele possui 3 vertentes conhecidas como clássica, espiritualista e construtivista. A primeira citada é onde percebemos a naturalização do cuidado e proteção como características intrínsecas a mulher, por esse motivo ela se aproxima da ecologia. Enquanto o homem naturalmente busca poder e domínio e acaba devastando o meio ambiente. A espiritualista tem conexão principalmente com tradições de povos originários, com influências de Gandhi na Ásia e da Teologia da Libertação na América Latina, acredita na luta sobre a dominação sistêmica, é contra as formas de opressões e tem forte ligação com a cosmologia para explicar a relação mulher/natureza. se você chegou até aqui, ajude a financiar este espaço de mídia independente, fazendo sua assinatura solidária clicando aqui A terceira tendência é chamada de construtivista, e acredita que o sistema patriarcal assim como a exploração desenfreada do meio ambiente são características implicadas no acúmulo de capital, e a relação de cuidado e proteção é explicada pela divisão sexual do trabalho surgida com o capitalismo, portanto para que não somente a natureza e a mulher sejam libertadas, mas todas as classes oprimidas, é necessário que se lute por alternativas mais sustentáveis que o sistema de dominação econômico atual 11. As duas últimas tendências explicitadas no parágrafo anterior enriquecem muito a reflexão proposta nesse texto. Obviamente que a tendência construtivista é a que mais se alinha as interpretações que aqui se faz da sociedade, porém a visão espiritualista não pode ser negligenciada, pois ela carrega consigo a tradição, a cultura que muitas vezes é sufocada pelo imperialismo, e em muitos casos é um instrumento de emancipação dessa população. É necessário dar importância a essas visões para que essas mulheres se sintam parte do movimento feminista que deve abranger todas as pessoas oprimidas e exploradas pela lógica do sistema vigente. O ecofeminismo construtivista e o espiritualista entende que é necessário uma sustentabilidade ambiental. Isso não se restringe apenas ao conceito relacionado com preservação da natureza, como muito divulgado nos dias atuais, mas um atendimento as necessidades de todos os seres humanos, com uso consciente dos recursos naturais, sem exploração para acúmulo de capital. A população tem o capital social necessário a uma boa educação e bons cuidados com a saúde em uma organização sustentável de sociedade. É impossível que na forma mais selvagem do capitalismo, a razão neoliberal, exista qualquer vestígio de um mundo sustentável. A sustentabilidade virou um conceito de marketing, assim como o termo capitalismo verde. Se há explorações de recursos naturais e da força de trabalho para o acúmulo e enriquecimento de uma classe só, não existe maneira da sustentabilidade acontecer. Para Angelini, é necessário uma redistribuição transformativa da renda e um reconhecimento transformativo da própria identidade, ambos aspectos necessário para construção de um mundo sustentável. Aqui a autora diz da importância da luta de classes e das políticas identitárias andarem juntas, para isso é necessário uma luta que abarque a diversidade de mulheres e suas condições de vida. 13 Aqui também podemos pontuar uma crítica ao feminismo liberal ou corporativista, que também usa de termos como empoderamento, força feminina e outros, para perpetuar um feminismo que nada além faz de manter a lógica do capital. Atribuindo muitas vezes a meritocracia como fator determinante da ascensão de uma mulher ao poder. Esse tipo de feminismo não se preocupa com os outros diversos grupos da população, como as mulheres pretas e negras, que devido ao racismo estrutural tem um caminho extremamente tortuoso para atingir cargos poderosos. Voltando as notícias usadas como exemplos no início do texto, percebemos que além das explorações que ocorreram em ambos os casos, houve também por parte da justiça negligências. Mas será que realmente foi um “erro de justiça”? Além da absolvição do acusado do estupro de Mariana, a burocracia da justiça atrasou a autorização do aborto de uma menina de 10 anos que corria risco de vida. E as queimadas que devastaram o pantanal? Por que tanta negligência com um bem natural, de importância reconhecida internacionalmente? A democracia como bem sabemos é liberal. Ela é produto e cumpre papel para a sociedade burguesa. O sistema judiciário está atrelado ao capital. Portando é necessário além de leis, uma nova justiça. O suspeito de abusar sexualmente de Mariana é empresário, da elite. Sua posição de poder na sociedade o possibilitou de ter acesso a uma área restrita do local onde o abuso ocorreu, sem que ninguém impedisse o ato. No caso do aborto, abriu-se nos últimos dias uma investigação sobre a Intervenção da Ministra Damares, na demora da autorização e na exposição dos dados da criança. Nos dois casos vemos posições de poder sendo usadas como interferência no corpo de mulheres. A justiça e a política na sociedade capitalista trabalham em favor dos aspectos privados, perpetuando opressões. Instituições que ao invés de proteger, representam cada vez mais riscos a sua população. Todas essas violências são ocasionadas por um sistema hierárquico de poder, onde raça, classe e gênero se misturam 15. É urgente que para além da resistência, nós que nos dizemos feministas, trabalhemos com perspectivas utópicas de uma sociedade onde seremos livres. Essa liberdade não pode ser de um grupo, mas de todos os grupos, que por tantos anos foram oprimidos e explorados. A libertação precisa ser de todos. Enquanto houver capitalismo haverá explorações, haverá violência, opressão. É preciso ser anticapitalista, para salvar a vida humana e o meio ambiente. As mulheres e a natureza merecem respeito, cuidado e proteção. Não estamos à disposição dos caprichos da elite. Além da resistência precisamos construir novos horizontes de um mundo onde a vida se sobreponha ao capital. * se você chegou até aqui, ajude a financiar este espaço de mídia independente, fazendo sua assinatura solidária clicando aqui Referências 1 FERNANDES, Sabrina. Sintomas Mórbidos: A encruzilhada da esquerda brasileira. São Paulo: Autonomia Literária, 2019. 2 FERNANDES, Sabrina. Sintomas Mórbidos: A encruzilhada da esquerda brasileira. São Paulo: Autonomia Literária, 2019. 3 https://hugogloss.uol.com.br/brasil/caso-mariana-ferrer-detalhes-do-processo-que-absolveu-empresario-de-acusacao-de-estupro-sao-revelados/ . Acesso em 21/09/2020. 4 https://hugogloss.uol.com.br/brasil/caso-mariana-ferrer-detalhes-do-processo-que-absolveu-empresario-de-acusacao-de-estupro-sao-revelados/ . Acesso em 21/09/2020. 5 https://www.nsctotal.com.br/colunistas/dagmara-spautz/advogado-gastao-filho-deixa-defesa-da-extremista-sara-giromini . Acesso em 20/09/2020. 6 https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53053329. Acesso 20/09/2020. 7 ANGELIN, Rosângela. Mulheres, Ecofeminismo e Desenvolvimento Sustentável diante das perspectivas de redistribuição e reconhecimento de gênero. Direito e Política. v.9, n.3, 2014. 8 ANGELIN, Rosângela. Mulheres, Ecofeminismo e Desenvolvimento Sustentável diante das perspectivas de redistribuição e reconhecimento de gênero. Direito e Política. v.9, n.3, 2014. 9 ARRUZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%: um manifesto. 1 ed. São Paulo: Boitempo. 10 FLORES, Bárbara Nascimento; TREVIZAN, Salvador Dal Pozzo. Ecofeminismo e comunidade sustentável. Rev. Estud. Fem.2015, vol.23, n.1, pp.11-34.11. 11 FLORES, Bárbara Nascimento; TREVIZAN, Salvador Dal Pozzo. Ecofeminismo e comunidade sustentável. Rev. Estud. Fem.2015, vol.23, n.1, pp.11-34.11. 12 FLORES, Bárbara Nascimento; TREVIZAN, Salvador Dal Pozzo. Ecofeminismo e comunidade sustentável. Rev. Estud. Fem.2015, vol.23, n.1, pp.11-34.11. 13 ANGELIN, Rosângela. Mulheres, Ecofeminismo e Desenvolvimento Sustentável diante das perspectivas de redistribuição e reconhecimento de gênero. Direito e Política. v.9, n.3, 2014. 14 ARRUZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%: um manifesto. 1 ed. São Paulo: Boitempo. 15 ARRUZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%: um manifesto. 1 ed. São Paulo: Boitempo.

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