O impacto da hegemonia cultural nos hábitos alimentares: relação de classe, gênero, raça e espécie.

Por Thaís Carvalho* A soberania alimentar diz respeito a autonomia de um povo em definir suas próprias políticas e estratégias de produção e consumo, para que não só todos tenham direito a uma alimentação nutritiva e em quantidade suficiente ao longo do tempo, mas também a escolhas políticas que permeiam diversos aspectos dentro do sistema de reprodução capitalista. A hegemonia cultural da superestrutura, utilizada de forma minuciosa para estabelecer o que é uma alimentação adequada, guiada por seus interesses burgueses é uma das maiores responsáveis pela alienação que distancia cada vez mais a classe trabalhadora de sua soberania alimentar. Para isso, ela se utiliza de ferramentas estruturais muito profundas, que adentram os aspectos de classe, raça, gênero, e se estamos falando sobre alimentação, os aspectos de espécie.

No Brasil, segundo levantamentos mais recentes, cerca de 15 milhões de Brasileiros vivem uma situação de insegurança alimentar grave, ou seja, estão literalmente morrendo de fome. Mas quando contrapomos esse índice ao fato de que o Brasil é o terceiro maior produtor de alimentos do mundo, essa conta parece não fechar. Na verdade, essa conta faz total sentido para a classe dominante e, para entendermos os porquês, é preciso analisar sob uma perspectiva ampla que vai desde aspectos socioeconômicos e culturais até as políticas de exportação e à lógica do Capitalismo Dependente Brasileiro. Fetichização da mercadoria: Uma análise marxista sobre os hábitos alimentares e a exploração animal.

Houve um tempo em que falar de feminismo para a esquerda marxista era um grande desafio. Ainda enfrentamos dificuldades e discordância em certos pontos, mas a luta das mulheres hoje é respeitada, com bases teóricas e práticas profundas que analisam o gênero sob a ótica das relações de classe. Não podemos dizer o mesmo sobre a questão da exploração animal e do especismo, que ainda é motivo de profunda discordância dentro da esquerda. A aversão que muitos sentem apenas por escutar as palavras “veganismo”, “especismo” e “exploração animal” na mesma frase tem muito a ver com a imagem distorcida que existe sobre essas pautas. Em primeiro lugar, não podemos negar que essas pautas estão hoje sob o domínio da hegemonia do capitalismo, e por isso mesmo o viés liberal, contido em seus discursos, distorceram e esvaziaram completamente a finalidade das mesmas. Eu não te julgo por pensar em uma pessoa em situação de privilégio quando você tem contato com um slogan famoso, como ‘’Go Vegan’’, aliás, eu também tenho a mesma imagem, afinal, o veganismo predominante hoje, é o liberal.

Mas não é porque uma pauta foi apropriada pela ideologia dominante que nós devemos ignorá-la ou não achar nem mesmo necessário trazer essa discussão para um debate materialista-histórico, principalmente se ela diz respeito a um de nossos hábitos mais rotineiros, o de se alimentar. Se você está se perguntando o que tem a ver o veganismo e o marxismo - afinal, Marx nunca levantou esse debate -, vou traçar uma linha entre a teoria marxiana e marxista, principalmente sob os aspectos do fetichismo da mercadoria e a hegemonia cultural que permeiam as relações de opressão e exploração, não somente humanas, mas também animal.

Em 1867 Karl Marx explicitava pela primeira vez a sua teoria acerca do fetichismo da mercadoria:

‘’A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalho; por ocultar portanto, a relação social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total, ao refleti-la como relação social existente, à margem deles, entre os produtos de seu próprio trabalho’’ (O CAPITAL, pág 81)

Para ele, o capitalismo Industrial trouxe uma nova forma de alienação: A adoração pelos objetos. Ao comprar um sapato, bolsa ou uma caneta, o homem não mais era capaz de encarar aquele objeto como resultado de um trabalho humano, mas somente com seu valor simbólico e social, quase como um ser divino, que surgiu do nada. Uma vez que o capitalismo pôde ocultar a energia humana utilizada para criar um produto, tudo se tornou trivial, descartável e substituível. Afinal, quando você vai em uma loja procurar por uma camiseta, consegue pensar em todos os processos que foram necessários, desde a colheita do algodão até a costura dessa peça? Cada um desses processos se utilizou da extração do mais-valor, sob exploração de uma classe sob outra.

Mas e quando a fetichização é sobre uma mercadoria viva? Ao ir em um supermercado comprar uma bandeja de carne, o sentido dessa mercadoria e a forma com a qual ela chegou até ali é completamente apagada. A realidade daquele animal, desde o seu nascimento em confinamento, até seu abate ‘’humanizado’’, não é considerado, e por isso mesmo as pessoas que comem carne se sentem completamente desconfortáveis e até mesmo se sentem atacadas ao se deparar com um vídeo que mostra o real caminho e produção da mercadoria, ou seja, de como ela se transforma de um animal vivo em um pedaço de carne. É também por isso que muitas das pessoas que comem carne suína, mesmo assim, sentem aversão a ter um leitão assado com cabeça e tudo posto em cima da mesa. Os animais e a classe trabalhadora têm um ponto em comum que irá nos guiar ao longo dessa discussão: Ambos são explorados pela classe dominante em todos os sentidos, para que a mesma possa continuar em sua situação de poder, que é seu por direito, dentro do sistema capitalista.

A classe trabalhadora está em um patamar: Sua exploração tem relação direta com a venda de sua força de trabalho, para extração de mais-valor na produção de mercadorias. Os animais estão em um patamar ainda mais baixo: Eles são essencialmente a própria mercadoria.

‘’Nós não exploramos animais porque os consideramos inferiores, ao contrário, nós os consideramos inferiores porque os exploramos’’. (Marco Maurizi)

A crítica sobre Marx nunca ter levantado a questão da exploração animal, e por isso essa ser uma pauta que não deveríamos estar nos atentando, é diretamente uma forma de ir contra a sua análise cientifica mais importante: O materialismo histórico dialético. Para trabalhar com a totalidade, é preciso entender que os trabalhadores já estão totalmente envolvidos com o especismo não somente por consumir carne, mas por qual pedaço de carne eles têm acesso ao consumo, e por viverem no planeta que está sendo cada dia mais violentado pelo sistema de produção das mercadorias de origem animal. Os aspectos que unem a classe trabalhadora com o especismo em todas as esferas ainda serão analisados nas questões de raça e gênero.

A relação do homem com os animais e o domínio de uma espécie sob a outra, como muitos gostam de salientar, é ‘’natural’’. Em sociedades pré-capitalistas e de capitalismo comercial tinha-se uma aproximação entre a mercadoria viva e seu resultado final, a carne. O pequeno agricultor era responsável pelos cuidados com o animal desde o seu nascimento até seu abate. Até então, as relações de fetichização dessa mercadoria ainda não estavam estabelecidas, diferentemente como as que permeiam a nossa sociedade hoje.

Por isso mesmo, outra questão muito levantada dentro dos espaços de discussão sobre esse assunto é o fato de que podemos então defender o consumo de carne, a partir do momento que seja feito de forma mais consciente, com a justificativa de que essa relação de poder entre homens e animais é inevitável. Porém, devemos utilizar o passado como material de estudo e análise para a formulação de planos e estratégias para o presente e o futuro, mas jamais romantizando as relações estabelecidas, principalmente as de opressão. As relações de Classe e o Agronegócio Brasileiro: Soberania alimentar para quem?

O Agronegócio é uma das máquinas mais poderosas do nosso País, e é importante destacar que nesse termo não se enquadra os produtores locais da agricultura familiar ou seu avô que abate galinhas no quintal de casa. Estamos falando das maiores empresas do mundo, como a JBS, Cargill, Bayer, Bunge e tantas outras nacionais, atuando no campo de produtos in natura e transformados, que são responsáveis por cerca da metade de todas as exportações Brasileiras, representando 21% do Produto Interno Bruto.

‘’Agro: A Indústria-Riqueza do Brasil’’ foi o slogan promovido pela Rede Globo, e podemos concordar olhando sob a perspectiva de que ele é representado pela burguesia agrária e articulado ao capital financeiro nacional e internacional. E se é a burguesia que controla o mecanismo de Estado, no Brasil os representantes do agronegócio, da indústria e dos bancos são quem ditam as regras e as leis. Com 257 parlamentares, a bancada ruralista é uma das mais influentes do Congresso por ser a com maior número de representantes. A bancada ruralista já propôs 25 projetos de lei que ameaçam demarcação de terras indígenas e quilombolas²,. São os responsáveis pelas flexibilizações de leis trabalhistas, pois o setor já é amplamente conhecido como um dos mais precários, sendo, inclusive, os campeões absolutos na utilização de trabalho escravo³.

No dia 2 de Outubro de 2012, uma decisão do Tribunal Superior do Trabalho classificou como insalubre as atividades desenvolvidas pelos trabalhadores dos frigoríficos, já que eles estão em contato direto com riscos biológicos providentes de aves mortas, animais contaminados por bactérias e várias outras situações de extrema precariedade, como o trabalho sob temperatura a -10ºC.

E para falar um pouco mais sobre a relação de classe no agronegócio Brasileiro é preciso saber que esse grupo de trabalhadores está em contato direto com ferramentas letais, e por isso mesmo os frigoríficos lideram o ranking de acidentes de trabalho, que hoje somam em média 54 ocorrências por dia. São trabalhadores que perdem membros, sofrem lesões permanentes e perdem também a sua única forma de sustento: a venda de sua força de trabalho.

‘’Você nunca imagina o que vai acontecer: Quando se está cansado, fazendo muitas coisas, seu ritmo fica prejudicado e você não está mais atento a tudo’’.

Essa frase é foi dita por William Garcia da Silva, um trabalhador que era responsável por juntar patas, cabeças e gordura de gado em um frigorifico de Coxim. Em janeiro de 2015, William, que na época tinha apenas 24 anos, teve seu braço dilacerado pelas hélices de um maquinário. Outro aspecto que deve ser considerado ao analisar a situação dos trabalhadores, que estão diretamente ligados à produção de mercadorias de origem animal, é o psicológico. Afinal, são eles que estão lidando com a matéria viva, e que conhecem os bastidores da bandeja de carne que chega aos supermercados.

‘’ Os porcos chegavam estressadíssimos, porque porco é um animal que se estressa muito fácil. Eles parecem muito com a gente, tanto fisiologicamente como na parte psíquica. Porcos desenvolvem úlceras por estresse igual nós. Imagine o grau de sofrimento deles na linha de matança, sentindo o cheiro de sangue e ouvindo os companheiros gritando. A tortura mental começa muito antes; e geralmente são abatidos com o companheiro atrás, na fila, vendo o animal que está na frente. É comum espetá-los pra forçar a andar, porque eles não querem entrar’’

Esse trecho foi retirado de uma entrevista da Vegazeta com uma veterinária que preferiu não se identificar. A matéria completa, onde Sônia (como foi chamada) explicita como é a rotina em um frigorifico, e a situação dos trabalhadores nesse ambiente, você pode acessar aqui.

Se queremos ver uma caricatura do controle do agronegócio e da agropecuária na política Brasileira, podemos ter como exemplo o Deputado Federal Luiz Nishimori do Paraná: relator do Projeto de Lei 6299/2 que flexibiliza o registro de novos agrotóxicos , ou como ele gosta de dizer com a intenção de enganar a população: ‘’os remédios para as plantas’’. Segundo ele, o projeto seria responsável por ”possibilitar maior produtividade, alimentos com preço acessível e vai trazer mais segurança alimentar para a população”. Será mesmo? O Brasil é um dos países que mais consome agrotóxicos; inclusive, os que são proibidos no restante do mundo por aqui são acolhidos com todo carinho pelo governo, atendendo aos ruralistas. Podemos falar sobre as problemáticas do uso de agrotóxicos na alimentação, mas também devemos salientar que o Brasil tem uma prática vista como ultrapassada por países mais desenvolvidos, em que os agrotóxicos pesticidas são aplicados com o uso de aviões, gerando problemas técnicos, costumeiramente atingem casas, nascentes de rios e córregos e prejudicam, de forma direta e indireta, as comunidades mais vulneráveis que vivem às margens desses locais. Este mês, ocorreu mais um caso em que ficou comprovada a contaminação de parreirais na serra gaúcha por 2,4 - D, um herbicida dessecante já proibido na maior parte do mundo, que gerou um prejuízo de milhões de reais aos viticultores familiares. Para termos uma noção do tamanho do problema, em 2019, 53 amostras foram colhidas pela Secretaria Estadual da Agricultura do Rio Grande do Sul e 90% testaram positivo para a presença de resíduos de 2,4-D. A maior perda, 60%, foi nas uvas brancas, como a Chardonnay, das quais se fazem os vinhos espumantes. Nas uvas escuras, que produzem o vinho tinto, o prejuízo foi de 40%.

Agora, se o deputado quer defender o uso de agrotóxicos pela ‘’segurança alimentar da população’’ é importante também você saber que a soja é o principal produto da agricultura Brasileira, o qual ocupa a maior parte das terras agricultáveis (4). Essa soja também têm como destino a exportação, mas em sua maioria é utilizada na fabricação de ração para os rebanhos de abate, para exportação e consumo interno, já que o Brasil é um dos campeões dessa indústria no mundo.

Ou seja, a maior parte da terra é utilizada na monocultura de soja e milho transgênicos, os quais são destinados à Indústria de proteína animal, a qual gera a produção de carne, que é um alimento inacessível para grande parte das famílias e que gera um impacto completamente nocivo para a classe trabalhadora. Onde está a segurança alimentar nessa questão? Por que comemos carne? A hegemonia cultural nas relações dos hábitos alimentares. A questão do consumo de carne ainda é uma grande polêmica, mesmo dentro da esquerda. Esse não é um texto para pregar o vegetarianismo ou o veganismo, mas, como materialistas históricos, não olhar para essa questão levando em consideração os processos de acumulação do capital é um grande erro que a esquerda vem cometendo, já que o Brasil possui o maior rebanho de abate do mundo, não somente de carnes bovinas, suínas e de aves, mas também de rebanhos de animais que na cultura Brasileira nem são tão populares, mas fazem sucesso para exportação, como coelhos, avestruz, cabrito e outras ‘’carnes exóticas’’. Inclusive, o primeiro frigorifico destinado apenas ao abate de jacarés foi inaugurado em 2019 no Mato Grosso do Sul. Existem mais cabeças de gado do que humanas e o volume de terra, que é utilizado devido ao manejo extensivo, predominante no país, é enorme. Somado a esta, ainda podemos considerar a área destinada à produção de grãos utilizados com insumo para esta cadeia produtiva. O impacto disso para o meio ambiente é completamente desastroso e já estamos encaminhados para um verdadeiro colapso ambiental eminente; tudo isso está ligado à Indústria de carne, ovos e laticínios. Aqui é importante fazer uma ressalva de que essas indústrias estão completamente interligadas.

A cultura carnista no Brasil é muito forte e isso acontece por diversos fatores. Para entendermos sob uma ótica marxista, é preciso fazer a ligação entre a alimentação e a dominação ideológica de uma classe sobre a outra. O Estado serve a alta burguesia, a qual precisa vender o seu produto. E para que isso aconteça, um fenômeno que Gramsci descreveu como ‘’hegemonia cultural’’ entra em ação:

“A conquista do poder cultural é prévia à do poder político, e isto se consegue mediante a ação concertada dos intelectuais chamados orgânicos infiltrados em todos os meios de comunicação, expressão e universitários”. Antonio Gramsci

Por isso quando estamos falando sobre a Indústria da Carne, leite e ovos, vamos lidar com diversas contradições que não podem mais ser ignoradas. E o que isso quer dizer? Vivemos sob uma cultura em que esse tipo de alimentação está estabelecida de forma hegemônica. Uma pessoa saudável é aquela que consome proteína animal, que consome ovos e que oferece para seus filhos o cálcio através do leite e laticínios em geral. Essa cultura não foi estabelecida do dia para a noite; foi e ainda é um processo que se estabelece de diversas maneiras, principalmente pelo apelo midiático com o uso de propagandas da família feliz com a mesa farta de produtos com exploração animal. Porém, diferente do que muitas pessoas acreditam – E indo contra a ideologia dominante-, essa não está nem perto de ser a alimentação nutritiva e ideal para o ser humano. Um exemplo muito claro de que a hegemonia cultural permeia as nossas escolhas alimentares são as famílias de baixa renda que investem em carnes de segunda e terceira linha, também conhecida como as sobras (fígado, pés, cabeça, ossos, etc) para que se adequem ao padrão ideal de consumir carne. Eles acreditam de verdade que a sua saúde e de seus familiares dependem totalmente disso, quando na verdade são o público principal de uma indústria muito específica: a que precisa vender o que seria jogado fora ou transformado em ração.

Um exemplo claro de como as Indústrias influenciam nas escolhas alimentares da população é a história de um dos cortes de carne mais famoso do mundo, o bacon. ‘’Bacon é vida’’, mas nem sempre foi assim. Nos anos 80, países como os Estados Unidos viviam uma época em que se existia a ‘’fobia de gordura’’, ou seja, todos os cortes que continham um alto teor de gordura (como a barriga do porco) eram rejeitados por uma população que sentia total aversão. Esse era um grande prejuízo para as Indústrias, já que a barriga do porco é a maior parte do animal, e naquela época eram descartadas ou vendidas para a produção de mercadorias de terceira linha, como ração animal ou produtos de limpeza (sim, até o seu amaciante tem gordura animal).

Mas não demorou para que uma equipe de marketing fosse formada para tratar logo desse assunto, e fizeram isso muito bem. O primeiro passo dado por eles, foi uma união com as Indústrias de Fast-food, como o Frisco Burguer, que lançou sua primeira linha de lanches que tinham como toque especial o bacon. As propagandas eram massivas, e estavam em todos os lugares, desde a televisão até o ponto de ônibus, era impossível passar um dia sequer sem ser exposto a uma delas.

O resultado disso? O bacon é uma cultura pop que se estendeu para diversos países, inclusive o Brasil. Nos Estados Unidos, país de origem dessa estratégia de marketing, sete bebês a cada um milhão receberam o nome de bacon. Se antes o bacon estava no mesmo patamar do fígado, hoje ele está no mesmo patamar das carnes mais nobres. Mas a problemática disso vai muito além da cultura, já que há provas contundentes de que o consumo de carnes processadas, como o bacon, aumenta drasticamente o risco de câncer, classificado como ‘’grupo de risco 1’’. Além disso, Diabetes, obesidade e doenças cardíacas estão diretamente associadas ao consumo desse tipo de produto.

Esse fenômeno toma proporções tão absurdas que hoje a ‘’cultura do leite em pó’’ já é a maior responsável pela interrupção precoce da amamentação, já que essas mulheres são ensinadas que o leite que é produzido por elas para seus filhos é ‘’leite fraco’’, ‘’leite ralo’’ e ‘’sem sustância’’. Portanto a alimentação de seus filhos devem ser complementadas com o leite de origem animal, mais precisamente, da vaca. E isso não é dito apenas por seus familiares, amigos ou conhecidos, mas no consultório pediátrico, onde você facilmente encontra um panfleto da Nestlé. A esquerda reproduz esse discurso mesmo sem perceber. Exemplo disso foram as indignações acerca da alta de consumo de ovos no governo Bolsonaro em comparação ao consumo de carne nos governos de Lula. Como se o máximo da segurança alimentar e soberania alimentar se limitassem a ter um bife na mesa. Mais do que uma questão de opinião, a carne como alimento nutritivo essencial, é um mito. A carne é sim uma fonte de proteínas e algumas vitaminas, mas é também fonte de gorduras e substâncias que causam inflamações internas, e por isso mesmo são diretamente ligadas as altas taxas recentes de câncer de cólon, câncer de estômago, faringe, reto e próstata.(5) Por isso mesmo, pode-se dizer que consome carne apenas pelo sabor, mas querer fazer desse alimento ideal para a nutrição humana, não é correto. Não é também correto demonizar a carne como o pior alimento do mundo, mas as substituições vegetais possuem quantidades de ferro, proteína e outras substâncias essenciais da mesma forma, tirando da conta as terríveis consequências não somente relacionadas a saúde, mas relacionadas a sociedade como um todo.

Assim, fica cada vez mais claro que é impossível existir a soberania alimentar em um país em que grande maioria da população nem sequer sabe que existem outras escolhas que são mais acessíveis e superiores em todos os sentidos, principalmente nutricionais.

O negro e a carne: Os hábitos alimentares da população negra do Brasil e os impactos do especismo na realidade desse grupo historicamente oprimido.

A população negra do Brasil tem uma relação muito diferente com o consumo de carne, e isso são heranças diretas da escravidão. O escravo não escolhia a sua comida, ele se alimentava do que tivesse à sua disposição, que na maioria das vezes consistia em frutas típicas de determinada região, feijão preto e farinha de mandioca; muito ocasionalmente eles tinham uma proteína animal, que já naquela época eram as sobras dos senhores, como ossos, cabeças, peles e etc.

Trazendo esse cenário para um período em que a população negra conquistou um acesso mais amplo na aquisição de produtos de origem animal, para muitas dessas pessoas, a carne passou a ser mais do que um alimento, mas um status social.

‘’O meu pai não tinha dinheiro para comprar carne quando ele começou a comprar carne, ele comprou carne porque estava todo mundo achando que a gente passava fome, porque a gente sabe que as socializações são assim. E aí a gente percebe como essas coisas são construídas e como a Industria da carne lucra horrores por dizer que a carne é fundamental pra sua existência’’ (Nátaly Neri no vídeo, Vegetariana: Qual a importância da carne na sua vida?)

A Indústria Agropecuária soube muito bem utilizar essas lacunas para interiorizar ainda mais a importância do consumo de produtos de origem animal, principalmente com campanhas de distribuição de alimentos, parcerias muito comuns entre ONG’s e grandes empresas do ramo alimentício, como a Nestlé.

Mas qual é o impacto da carne na saúde da população negra do Brasil? Para isso, primeiro você já deve saber, mas é importante salientar: Não é somente sobre a população negra comer carne, mas qual carne essa população tem acesso. As mais consumidas são as carnes altamente processadas, como a salsicha, além dos cortes gordurosos e também os de segunda linha, ou as ‘’sobras’’. O impacto disso podemos ligar ao fato de que a população negra é a que mais sofre com a hipertensão. A Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH) fez um aviso para que a população negra tenha cuidado redobrado as questões da hipertensão arterial, já que as estatísticas registram diagnóstico médico maior entre as mulheres negras, onde 27,4% desse grupo foi diagnosticado. E mais de 22% dos homens negros também são acometidos por essa doença. Como já vimos acima, o consumo de carnes processadas e com maior taxa de gordura, tem ligação direta com algumas doenças, entre elas a obesidade e hipertensão.

Mas para além dos impactos na saúde dessa população, é preciso também analisar os impactos socioeconômicos e ambientais que se estreitam com as relações de uma sociedade especista. Um caso muito claro de como a indústria da carne e derivados animais tem uma ligação direta com a situação precária de vida desse grupo, foi um acidente que aconteceu em Rio Verde, no Sudoeste de Goiás.

Os moradores da região vulnerável, que são em sua maioria negros, denunciaram que o vazamento causado no abatedouro da região estava escorrendo pelas ruas, e empoçando em frente as casas. Esse sangue proveniente dos abates foi responsável pela contaminação das crianças da região.

‘’Complicado para a gente, ainda mais que tenho três crianças pequenas, os meninos só vivem doente’’ (Jeane Matos, moradora da região)

A cidade de Goiás também sofreu uma contaminação no Rio que atravessa a cidade, em decorrência de uma carga que tombou com 10 mil litros de sangue animal, propriedade da JBS. Nos índices da insegurança alimentar no Brasil, os lares chefiados por negros e negras representam 29.8% da população que está em maior situação de vulnerabilidade. Esse grupo é, sem dúvidas, o grupo mais distante em conquistar soberania alimentar, não possuem acesso a uma alimentação balanceada com frutas, legumes e verduras e nem escolha sobre o que comem, já que as informações sobre uma ‘’alimentação equilibrada’’ vem diretamente da Industria, de forma distorcida para que possam se estabelecer como hegemônicas.

A opressão da mulher e a opressão animal: Um adentro nas relações de gênero e espécie sob o domínio do patriarcado.

Entender as questões de gênero que perpassam na hegemonia cultural do consumo de produtos de origem animal, não é uma tarefa fácil. Afinal, as feministas que defendem a soberania alimentar e a alimentação vegana como alternativa ainda são ignoradas e até mesmo ridicularizadas. Esse é um tema realmente delicado, e para traçar uma linha teórica vou utilizar ‘’A politica Sexual da carne: A relação entre o carnivorismo e a dominância masculina’’ de Carol J. Adams, escrito há mais de 20 anos atrás, mas lançado no Brasil recentemente. Nessa obra, a autora traça uma ligação entre o consumo de produtos de origem animal e a sociedade patriarcal, já que para ela, a mesma estrutura que exerce a opressão contra as mulheres, exerce a opressão contra os animais. Ela propõe um conceito polêmico da ‘’proteína feminilizada’’, que diz respeito aos ovos e leite que são produzidos por corpos femininos, e servidos como alimento. A Indústria do Leite, por exemplo, explora as vacas leiteiras que são submetidas a gestações de forma initerrupta para que consigam produzir o leite, e seus bezerros são destinados à Industria do corte de vitela, um dos mais cruéis. E por isso, para a autora, o feminismo deve abraçar a causa animal, afinal, ‘’Somos para os animais o que os homens são para as mulheres’’. Essa obra é dividida em três partes, e na primeira delas, intitulada ‘’Os textos patriarcais da carne’’, Carol salienta e defende a relação entre a violência física e psicológica que são exercidas contra as mulheres, com a matança em série dos animais. Ambas são normalizadas e ignoradas. Além disso, ela deixa mais claro como o hábito de comer carne é um fator de distinção social, e nesse sentido, esse hábito deixa claro a hierarquização do sistema patriarcal, já que mulheres, negros, crianças e outros segmentos das classes vulneráveis, são ‘’destituídos do poder da carne’’

‘’O consumo de carne é para os animais o que o racismo dos brancos é para os negros, o que o antissemitismo é para o povo judeu; o que a homofobia é para os gays e lésbicas, e a misoginia é para as mulheres. Todos esses são oprimidos por uma cultura que não quer assimilá-los plenamente em seus termos e com seus direitos’’(adams, p.115)

Aqui adentramos no aspecto de especismo, que nada mais é do que acreditar que os animais existem e estão nesse mundo para nos servir em todos os sentidos, já que são inferiores. Da mesma forma que uma pessoa legitima o consumo de carne e derivados animais com a afirmativa de que ‘’é da natureza humana’’, percebemos a similaridade com o discurso machista sobre o controle do corpo feminino. Em casos de estrupo, por exemplo, frases como ‘’O homem não sabe controlar seus impulsos’’, ou ‘’ela que estava com uma saia muito curta’’ têm uma ligação inegável. Mas os aspectos em torno da alimentação e as questões de gênero são ainda mais amplos. A carne é diretamente ligada a masculinidade, e por isso mesmo as mulheres em situação de vulnerabilidade abrem mão do consumo de carne para dar preferência a seus maridos e filhos que trabalham fora e ‘’precisam de mais energia’’. Além disso, voltando aos aspectos de hegemonia cultural, nas propagandas, quem chefia a churrasqueira?

Essa ideia de que a alimentação focada em legumes, verduras e frutas é inadequada para a nutrição data da época em que as mulheres eram majoritariamente responsáveis pela agricultura, enquanto os homens eram os responsáveis pela caça. Com o avanço do capitalismo e a cooptação da alimentação pelas grandes indústrias, além da agricultura familiar chefiada pelas mulheres ter sido basicamente anulada, o protagonismo da alimentação carnista se tornou o ‘’novo ideal’’.

Um homem hoje que decide seguir um estilo de vida vegano ou se adequar a uma dieta vegetariana restrita sofre ataques constantes à sua masculinidade, como se não comer carne colocasse em xeque a sua virilidade. Essa é uma herança cultural extremamente machista e de bases patriarcais que insistem em dizer que tudo o que vem da mulher é inferior, inclusive hábitos alimentares. A mulher sempre foi a maior responsável pela alimentação e nutrição de sua família, e é um fato que elas sempre priorizaram a alimentação vegetal, de produtos que vinham do quintal para a mesa. Isso mudou com a saída da mulher de seu ambiente doméstico para a venda de sua força de trabalho nos campos industriais. Com isso, criou-se um vácuo na cultura da alimentação que as grandes indústrias capitalistas logo trataram de ocupar, com seus produtos industrializados que visavam o lucro ao invés da nutrição e saúde, e que excluiu o protagonismo das mulheres, principalmente nos campos. O movimento da mulher trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR-NE) é uma associação de trabalhadoras do campo, que defende os direitos das mulheres inseridas nos espaços rurais. Essas mulheres fundaram esse movimento após perceber as diferenças, os desafios e as especificidades da mulher no campo, e buscavam uma melhora na qualidade de vida e do trabalho rural. Conquistar o protagonismo nesses espaços que hoje são majoritariamente dominado pelas indústrias, entendendo que são sujeitos de direitos históricos, confrontando diretamente as opressões, o movimento da mulher trabalhadora rural é um exemplo de soberania alimentar não somente no sentido do que se come, mas como se produz.

‘’Colher o seu próprio alimento é um privilégio que infelizmente é para poucas e poucos, mas não é somente um privilégio, é um direito de todas que vivem no campo e na cidade. Ter acesso a alimentos saudáveis é sinônimo de garantia de saúde, de alegria, de uma vida em abundância.’’ (Verônica Santana, assentamento Vitória da União, SE) A situação da mulher trabalhadora nas indústrias alimentícias, principalmente os frigoríficos, é outro fator que liga diretamente a luta antiespecista como ferramenta de libertação das mulheres. As mulheres ocupam 41% das vagas nesse setor que é o que mais emprega o gênero, e as situações em que são colocadas, não somente de trabalho insalubre como assédio moral e sexual, são preocupantes.

“Ouvimos relatos complicados, como o de uma denúncia feita na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, durante uma audiência pública, onde uma grávida teria entrado em trabalho de parto no chão da fábrica, por ter trabalhado mesmo sentindo dores, pelo fato da chefia dizer que a trabalhadora estava com preguiça de fazer suas atividades.” (Luiz Araújo, coordenador administrativo da CNTA)

Com uma condição de precarização trabalhista em níveis absurdos, as mulheres que trabalham nesse setor e já cumprem outras jornadas de trabalho (como o doméstico e não remunerado) são expostas a baixas temperaturas, ruídos, movimentos repetitivos e outras condições que como consequência trazem as questões físicas, como acidentes de trabalho, inflamações nos tendões e crises respiratórias, e também as questões mentais, como a depressão, a baixa autoestima e a ansiedade.

A luta contra-hegemonica e o Meio Ambiente.

Ainda vamos voltar à questão da soberania alimentar no sentido das alternativas que devemos aplicar para tornar essa uma realidade para a classe trabalhadora, mas primeiro é importante discutir o porquê de se quebrar esse ciclo de consumo de produtos de origem animal como cultura hegemônica.

Eu estou bem ciente de que a maioria das pessoas não gostam de entrar nesse assunto, que infelizmente é visto por algumas linhas da esquerda como ‘’pós-moderno’’ ou elitista. Mas é impossível negar a ciência, e utilizando as palavras de Sabrina Fernandes: ‘’Se você é negacionista climático, eu espero que, no mínimo, você seja um terraplanista também, para ter coerência na sua rejeição estúpida por ciência sólida’’ porque já estamos vivendo as consequências do colapso ambiental hoje, enquanto muitas pessoas acreditam que esse só é um problema para a gente se atentar daqui alguns anos, e para alguns socialistas, para depois da revolução. Mas o fato é que se: a gente não tiver um planeta, fica um pouco complicado de fazer revolução, não é mesmo?

Então aqui vou apresentar alguns dados importantes para que a gente possa pensar um pouco melhor essa questão pela perspectiva concreta da realidade . A indústria pecuária mundial (da qual o Brasil é líder) é responsável por cerca de 32 milhões de toneladas de CO² por ano, o que representa 51% de todas as emissões de gases de efeito estufa. Para produzir um hamburguer, é preciso 660 litros de água. Já 1kg de carne utiliza cerca de 2,500 litros de água. 91% do desmatamento e destruição da Amazônia estão diretamente ligados a agropecuária. Mais de 6 milhões de animais são sacrificados por dia.(5) A lógica de produção e acumulação do capital é infinita, e por isso mesmo nenhuma dessas estatísticas vão diminuir ou simplesmente desaparecer. Falar em ecologia e preservação do meio ambiente pregando que precisamos diminuir a quantidade de tempo no banho, apagar as luzes mais cedo ou ter um consumo mais consciente é ‘’tapar o sol com a peneira’’, porque essa está longe de ser uma questão individual, mas diz respeito ao enfrentamento direto à lógica de produção das Indústrias alimentícias e ao Agronegócio, que são os principais responsáveis por esse colapso. E é por isso mesmo que precisamos cooptar essa questão pelo viés anticapitalista o mais urgente possível.

Quais são as alternativas e como estabelecer a soberania alimentar? Uma sociedade antiespecista. Se você chegou até aqui, eu espero que todas essas informações tenham sido esclarecedoras, e se, mesmo assim, você não acha que pensar em uma alimentação livre de sofrimento animal é consequentemente agregar a luta de soberania alimentar e libertação humana e animal, ainda temos muito trabalho a ser feito.

Quando somos confrontados com as estatísticas estrondosas de que a população que hoje está morrendo de fome poderia facilmente ser alimentada se as Indústrias não estivessem voltadas à lógica capitalista excludente, cabe a nós, pensar nas alternativas. E assim nasceram movimentos como o ‘’Bem viver’’, uma filosofia que tem como base os reflexos concretos das culturas dos povos latino americanos que tem a pauta da sustentabilidade intrínseca a sua existência. Pensar o bem viver é ir além do individual do que você come, ou do que você veste ou consome, mas como isso tem impacto no coletivo. Afinal, quem está deixando de comer para que você saboreie o seu hambúrguer? Combater as injustiças e as desigualdades que existem graças a esse privilégio de poucos já é uma filosofia indígena que data mesmo antes do capitalismo se estabelecer como sistema. Saber conviver com a mãe terra, dedicar respeito, amor, zelo e carinho por um bem comum é a forma mais pura de garantir a soberania alimentar em todos os seus aspectos. Movimentos como o MST já nos ensinam muito sobre isso.

O veganismo como movimento tem as suas limitações, afinal, ele não é um modo de produção, e hoje ele se estabeleceu na sociedade como uma tentativa individual de libertação animal (pelo viés liberal). O especismo por sua vez, é uma estrutura social que atravessa diversos aspectos da vida individual e coletiva, a luta antiespecista deve se configurar como transformação social, se estabelecendo sobre novas bases contra hegemônicas. Por isso mesmo, o veganismo para a esquerda deve ir além do consumo individual, tendo como horizonte que o objetivo não é estabelecer uma sociedade vegana, mas estabelecer uma sociedade antiespecista, que por consequência tenha como efeito um estilo de vida hegemônico onde a exploração animal seja completamente anulada, em todos os seus sentidos. O veganismo para a esquerda é também analisar a unidade dialética entre libertação humana e libertação animal, entendendo que são frutos da mesma estrutura opressora.

E para finalizar, é importante deixar um questionamento ao sistema produtivista que não é exclusividade do capitalismo, afinal, muitas pessoas de esquerda acreditam em um Estado Socialista que possa oferecer bens materiais em abundância, assim como o capitalismo utiliza essa estratégia como ferramenta de alienação e controle. Mas nós, enquanto socialistas, não deveríamos estar pensando em trabalho emancipado, lazer, tempo livre e qualidade pautada em outras esferas, além do que temos hoje estabelecidas pelo capitalismo?

Cooptar o veganismo para o marxismo, é radicalizar a libertação animal. A naturalização da violência pelo Capitalismo nesse caso é feita com a função de vender um produto, transformar seres vivos em mercadoria. Essa relação de opressões, como você pôde adentrar mesmo que de forma superficial, deixa claro que cabe a nós romper com essa exploração pela raiz e estabelecer as alternativas, não de forma individual, mas coletiva. Deslumbrar esse mundo antiespecista, diferente do que muitos pensam, não é uma utopia no sentido pejorativo que para alguns é algo ‘’inalcançável, uma fantasia’’, mas utopia no sentido de alcançar algo que a cultura hegemônica nos faz acreditar ser impossível, até que ela não seja mais uma utopia, mas sim uma realidade estabelecida concretamente, sob bases críticas. ‘’Como marxistas e como anticapitalistas devemos transformar esse impulso de solidariedade em combustível para a própria vida e compreender e reconhecer a posição objetiva dos animais dentro do processo capitalista de produção, isto é, que eles fazem parte do grupo de seres oprimidos às custas dos quais a classe dominante acumula sua riqueza. A luta de classes pela libertação dos animais é a luta pela libertação do proletariado.’’ (XVIII Tesis sobre marxismo y liberación animal publicado na Revista latino-americana de estudios criticos animales.)

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